[BIO] The Cleans (Os Cleans)

THE CLEANS

No início dos anos 60, surgia o The Cleans ou Os Cleans. Em 1966, após vencer a etapa regional do concurso Primeiro Encontro Nacional da Jovem Guarda, o grupo muda para São Paulo, onde passa a atuar no programa “O Bom”, conduzido por Eduardo Araújo, um dos ícones da Jovem Guarda. Em 1967, o conjunto canoense grava seu disco de estreia pelo selo Pauta, considerado o primeiro registro fonográfico do gênero no Estado.

A formação original da banda contava com Zé Roberto, Vasques, Nei Cardoso, Carlos Roberto e Paulo no sax; em seguida entraram Tony Osanah (dos Beat Boys) e Lairton; várias alterações aconteceram, até a dissolução do grupo, em 1971. Deixaram como legado mais dois compactos, gravados na RCA Victor: “Chick-A-Boom” (1968) e “Nova Geração” (1969).

Fonte: Leite, M., Aguiar, L. A., & Torraca, D. (2015). Tá no Sangue! A História do Rock Pesado Gaúcho. Edição dos Autores.


Os Cleans: A Centelha Vocal que Incendiou o Rock Gaúcho e Conquistou a Jovem Guarda

Enquanto a banda Apache é reconhecida como a pioneira instrumental do rock no Rio Grande do Sul, em 1962, foi no ano seguinte que a cena musical local ganhou um novo contorno com a chegada dos vocais. Os Cleans, formados por uma gurizada talentosa de Porto Alegre e Canoas, estrearam em 1963 e traçaram uma trajetória que os levaria do interior gaúcho aos holofotes nacionais da Jovem Guarda, deixando um legado de raridades fonográficas e influência duradoura.

A Gênese em Canoas e o Luthier Seu Adão

A formação inicial do grupo reunia nomes que se tornariam referências na noite porto-alegrense: Zé Roberto (José Roberto Ferreira) na guitarra e voz, Santa Maria (ou Santamaria) no baixo, Carlos Roberto Souza na bateria, Magro Nei na guitarra e o saxofonista Paulo Ernani de Oliveira, o lendário “Paulo Lata Velha”, que mais tarde brilharia como jazzista e bluesman.

O som dos Cleans nascia com uma particularidade histórica. A banda se apresentava nos clubes de Canoas utilizando instrumentos fabricados pelo mítico luthier Seu Adão. Foi justamente para os Cleans que Adão construiu a primeira guitarra com alavanca de que se tem registro no Rio Grande do Sul, um feito técnico que evidenciava a vanguarda do conjunto. Tamanha era a qualidade da banda que Os Jetsons, grupo do menino prodígio Luis Vagner, frequentavam os ensaios dos Cleans não como rivais, mas como espectadores ávidos por aprender.

A Consagração no Festival Nacional (1966)
O ponto de virada na carreira ocorreu em 1966, quando a TV Record promoveu o *I Festival Nacional de Conjuntos de Jovem Guarda*. A competição foi feroz: cerca de mil bandas inscreveram-se apenas no Rio Grande do Sul. Os Cleans sagraram-se campeões estaduais, deixando os conterrâneos The Coiners (em segundo) e The Dazzles (em terceiro) para trás.

Na grande final nacional, realizada em São Paulo, o grupo conquistou o honroso segundo lugar. O feito foi o combustível necessário para uma mudança radical: de mala e cuia, os integrantes se transferiram para o epicentro da música jovem brasileira, mergulhando de cabeça na efervescência paulistana.

A Vida na Capital e a Psicodelia

Em São Paulo, os Cleans respiraram o ar da fama. Circularam pelo programa *Jovem Guarda*, mas não se limitaram ao iê-iê-iê comportado. Transitaram pelo lado mais “maldito” e psicodélico da cena, tocando ao lado de Os Mutantes e dos Beat Boys em eventos organizados pelo artista plástico Antonio Peticov. A versatilidade lhes rendeu um contrato fixo com a TV Excelsior, onde atuaram como banda de apoio no programa *O Bom*, apresentado por Eduardo Araújo. Nesse período, a formação ainda contou com a passagem do argentino Tony Osanah, líder dos Beat Boys.

Entre 1968 e o fim do grupo, a escalação se estabilizou com Zé Roberto e Ney Cardoso (guitarras), Luis Carlos Vasques (baixo), Carlos Roberto (bateria) e Lairton Resende (teclados).

Registros Raros e o Festival Internacional da Canção

Foi nessa fase áurea que os Cleans imortalizaram sua obra em três compactos que hoje são itens de colecionador cobiçadíssimos: *Faz Tanto Tempo / Um Dia Que Se Vai* (1967, Selo Pauta), *Chick-a-Boom / Estarei com Você* (1968, RCA Victor) e *Nova Geração / Depois de Uma Tormenta* (1969, RCA Victor).

A relevância do grupo era tamanha que, em 1969, eles foram convidados para atuar como banda de apoio dos conterrâneos gaúchos Laís Marques e Hermes Aquino no famoso *IV Festival Internacional da Canção (FIC)*, realizado no Rio de Janeiro, consolidando seu prestígio no cenário nacional.

O Declínio, o Retorno e o Legado no Grupo Impacto
Apesar do reconhecimento artístico, a realidade financeira em São Paulo era dura. Viver de música autoral e independente mostrou-se inviável, e em 1971, os integrantes decidiram retornar ao Sul. Contudo, ao chegarem a Porto Alegre, depararam-se com uma cena musical radicalmente transformada, politicamente dividida entre os tropicalistas e os defensores da “MPB engajada”. Sem espaço para o iê-iê-iê que um dia os consagrou, a banda se dissolveu.

O fim dos Cleans, no entanto, deu origem a uma nova potência. Zé Roberto e o baixista Vasques uniram-se a remanescentes dos *The Dazzles* e *The Coiners* para formar o *Grupo Impacto*. Essa fusão das três melhores bandas daquela primeira geração resultou no maior conjunto de baile do estado, uma verdadeira máquina de arrastar multidões que permaneceu em atividade até 2007, mantendo acesa a chama daqueles pioneiros de 1963.

 

Fonte de informações: Arthur de Faria, Música de Porto Alegre, uma Biografia Musical.

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