Porto Alegre – Uma Biografia Musical – O ROCK ANOS 80

Voltemos ao momento em que Carlos Eduardo Miranda – então conhecido como Gordo Miranda – saiu do Taranatiriça. O motivo era que, mesmo não sabendo tocar direito nenhum instrumento, ele fervilhava de ideias, e tinha resolvido expandir seus horizontes. Num crescente envolvimento com a ala jovem do teatro portoalegrense, começou a compor trilhas sonoras para espetáculos.
Enquanto isso, concebia um delírio new-wave/pós-punk: a performática banda Urubu Rei. O ano era 1982 e a primeira formação, ainda meio instrumental, tinha Miranda nos teclados, Flávio Santos no baixo e Rodrigo Corrêa na guitarra. Os três tinham sido do Taranatiriça, só que agora o conceito era anos 1980, o oposto da sonoridade setentona da banda anterior. Para completar o time, chamam o futuro De Falla Castor Daudt para a bateria.
O show de estreia, no Teatro da Assembleia Legislativa, foi algo jamais visto na cidade. Performático e mudeeeerno a mais não poder, tinha desde vampiro de patins tomando sangue de canudinho até uma roleta de entrada que era, na verdade, uma moçoila abrindo e fechando suas pernas.
De quebra, Miranda chamou uns amigos para ficarem sacaneando, atirando ovos e tomates no palco (detalhe: ele não avisou o resto da banda).
Resultado: Sucesso cult local imediato.
Mas apesar disso, o negócio não engrenou, e eles dão uma parada. Miranda e Castor entram no elenco da peça No Vale dos Pimentões, da Cia Tragicômica Balaio de Gatos, a vanguarda da cena teatral na modernidade oitentista.
Aí deu liga.
Quando retomaram o Urubu Rei, em 1984, gravam uma fita demo já incorporando como vocalistas três atrizes do Balaio: Luciene Adami, Lila Vieira e Patsy Cecato. Reforçando o conceito, associaram-se ao maior referencial de visual moderno da Porto Alegre dos anos 1980: Valter Scalp, da Scalp Cabelereiros. Ele cuidará do visual de todos.
Num clima meio alucinado, entre a Blitz e o tecnopop, começaram meio B-52’s/ Tom-Tom Club, pra terminar mais para Joy Division / Siouxsie and The Banshees.
No livro Gauleses Irredutíveis, os depoimentos sobre o Urubu Rei são bastante, digamos, contraditórios.
Miranda:
“Urubu Rei era uma viagem dadaísta. Era uma justificativa teórica de verdade, só que a gente não podia falar pras pessoas (…), e as pessoas começaram a gostar. A partir daí fizemos um monte de músicas e shows: as gurias nos vocais, todas fantasiadas, e nós tocando uma música horrivelmente tosca. Desafinação total e o público achando aquilo do caralho.
Com o tempo, a gente começou a levar aquilo a sério também. Começamos a achar que éramos uma banda de verdade!
(…)
Quando a gente voltou (…), em 1984, de sacanagem falei: “velho, vamos fazer uma música de uma nota só, onde a gente não toque porra nenhuma, onde um monte de gente que não canta possa cantar” – a ideia era tirar sarro das pessoas. Daí veio “Nêga, vamo pra Boston”.
Botamos umas gurias de minissaia na frente, porque ninguém ia notar que elas estavam cantando desafinado mesmo: só iam ficar cuidando as pernas delas.”
Flávio Santos:
“Chamamos umas gurias bonitinhas pra cantar, meio que pegando o lance da Blitz.”
Patsy, uma das “gurias bonitinhas”:
“Nos convidaram pra participar. Os guris eram estudantes do Anchieta, filhinhos de papai, riquinhos… Foi aí que eu conheci, vamos dizer, a verdadeira faceta punk burguesa. Algo que existia e eu, até então, não conhecia. ”
Biba Meira (de quem muito falaremos) assume a bateria, Castor passa pra guitarra, já que Rodrigo tinha ido para a Europa (como vimos no texto sobre o Taranatiriça).
É essa formação que abre para os Paralamas do Sucesso, faz uma temporada de um mês de shows nas terças e quartas no Teatro Renascença (show dirigido por Renato Campão e João Carlos Castanha, duas lendas do teatro gaúcho desde aqueles anos).
E que toca no show Música Popular Gaúcha, assistido por 40 mil pessoas no Parque Marinha do Brasil e transmitido para todo o estado pela RBS TV. Também é a que emplaca seu único hit, esse de que o Miranda falou aí em cima:
Nêga vamo pra Boston
Aqui é sempre a mesma América Latina
Tem o clipe no YouTube.

Só que daí…
…Carlo Pianta, 2026:
“O Miranda expulsou as gurias do Urubu Rei e botou o Julio Reny cantando. As gurias ficaram putas da cara. (…) E aí ficou essa banda (…) muito perfeita: a Biba na bateria, Flávio no baixo, Castor na guitarra, Miranda no teclado e o Julio Reny cantando.”
Uma nova demo passou a tocar na rádio Fluminense do Rio, e eles foram emendando alguns dos shows ao mesmo tempo mais vaiados e mais aplaudidos do rock gaúcho. Consenso era uma palavra inutilizável se tratando de Urubu Rei.
A nova formação foi assistida ao vivo pelo olheiro da gravadora RCA, Tadeu Valério, que gostou muito.
De volta a Carlo:
“E aí aconteceu o Atlântida Rock Sul Concert.
O Urubu Rei entrou e foi uma vaia do início ao fim.”
O que poderia ter sido um golaço, numa noite dividida com Taranatiriça, Legião Urbana e Ultraje a Rigor, acabou num gol contra.
Castor, 2026:
“Quem acabou com o Urubu Rei fui eu. Eu chamei uma reunião e disse que estava saindo. Daí decidimos acabar, e fizemos o show de despedida (enterro) no Ocidente.”
Sim: fizeram uma festa-show-enterro da banda, com caixão e tudo, no Bar Ocidente. Na quarta-feira seguinte ao dia de finados, 06/11/1985.
De volta a Castor:
“Foram anos intensos: 1984, 1985 e 1986. Cada dia acontecia algo importante. Mas de todos ali – do Urubu Rei, Atahualpa e DeFalla -, eu sou o único que LEMBRA das coisas. São 31 anos sóbrio, desde 1995…”
* * *

Paralelo ao Urubu, Miranda também fazia parte de uma das maiores bizarrices do rock brasileiro: a inclassificável Atahualpa I Us Panquis (sim, o trocadilho era com o genial argentino Atahualpa Yupanqui). Mas desta vez a ideia não foi dele, mas sim do guitarrista, compositor e jornalista Jimi Joe (Arzelindo Ferreira Neto, Arroio Grande, RS, 07/07/1955), autor do clássico Sandina, ativo musicalmente na cidade desde meados dos anos 1970.
Jimi, o futuro produtor Carlos Branco, o poeta Luiz Carlos Retamozzo e alguns outros amigos tinham montado em 1981/82 uma banda/projeto chamada Quem Tem Q.I. Vai. Até Paulo Leminski participou como convidado dos surpreendentes shows dos caras.
O começo de tudo prova como, desde sua gênese, Atahualpa i us Panqui foi adepta ferrenha dos poderes do caos e do acaso: em março (ou abril) de 1984, Jimi ganhou duas datas para fazer um show no Taj Mahal, importante casa noturna da época. Como o Quem Tem Q.I. Vai tinha acabado, ele estava sem banda. Aí ligou pro Miranda: – Véio, temos três semanas para estrear um show. Fez a mesma proposta pro Branco e pro baixista Paulo Mello. A ideia era uma espécie de Quem Tem Q.I. Vai… só que punk. Branco, professor de violão e mais chegado ao choro do que ao rock, não topou. Paulo, sim. E baterista?
Jimi, 2002:
“A bateria foi uma lenda: o Alemão Ronaldo se ofereceu, ali no (bar) Escaler, mas o Miranda foi taxativo: “Se tu botar o Alemão na banda e não só não toco mais com vocês como nunca mais falo contigo!
” O primeiro batera do Atahualpa, que tocou nos dois shows de estreia no Taj Mahal era o Fernando Paiva , que tocava com o Nei Lisboa e achou que ia ganhar muuuito dinheiro tocando punk rock com o Atahualpa…”
Logo Paiva iria se dar conta de onde estava metido, sendo substituído pelo ubíquo Castor Daudt. Paulo também não ficou muito, já que se dividia entre o Atahualpa e o Taranatiriça. E aí… Jimi conta:
“Depois de um tempo o Flávio (Santos) entrou como guitarrista. Daí teve um dia em que o Paulo foi fazer um show com o Tara em Floripa e tinha show do Atahualpa. Daí a gente falou pro Flávio: “Pega o baixo e o Paulo tá fora!!””
A receita básica da nova banda era levar além o preceito punk do faça-você-mesmo.
Com eles seria desfaça-você-mesmo.
É que nem aquele decalque de Jesus Cristo que se usava nos carros nos anos 1980: quem (ou)viu, jamais esqueceu.
Pra quem não teve a chance, restam três registros: a fita demo de 1988 lançada pelo selo Vortex – dos Replicantes – que reúne Atahualpa e outra banda do Miranda, A Vingança de Montezuma.
O lado B é todo deles, gravado ao vivo no ocidente com Carlo Pianta no baixo. Estão ali os primeiros registros de Schoobydahbydoobah Porto Alegre é Meu Lar e regravações de Todo Mundo Saca (que estava no Rock Garagem II, de 1985) e Sandina, que tinha estreado em 1987 no segundo LP dos Replicantes.
Já o único LP do Atahualpa, Agradeça ao Senhor, saiu em 1993 pelo selo Baratos Afins, de São Paulo. As gravações tinham sido feitas anos antes, pelo quarteto Jimi, Miranda, Flávio e Castor, mais um monte de participações: Edu K, Wander Wildner, Paulo Nequete, a Graforréia Xilarmônica quase toda etc.
Detalhe nada irrelevante: o álbum tinha sido gravado graças a dois presentes ganhos pela banda. Horas de gravação no estúdio EGER e uma lata de cola dum-dum.
Talvez ainda por efeito da dum-dum, a fita master foi logo perdida.
Anos mais tarde, Calanca, da Baratos Afins, topou prensar aquela insanidade a partir de uma fita cassete que chegou às suas mãos.
Nem as mães compraram.
Vendeu seis cópias.
Miranda, 2002:
“Mentira! Foram 12 discos e não a ninharia de seis!!!
Eu tinha perdido a master e só tinha uma cópia em cassete, que foi meu presente de casamento pra mulher do Jimi, pra ela ter certeza do que tinha em casa.
Quem tiver coragem de ouvir o disco com cuidado, pode ouvir até um drop-out forte de canal esquerdo no lado B, porque a fita já tinha amassado e quase arrebentado antes de virar uma master sem- vergonha…
É issaí!!!”
Mesmo com (ou apesar de) esses números de vendagem, a banda protagonizou uma série de histórias clássicas do rock gaúcho.
Conta o Jimi:
“Foi no Gigantinho lotado, em 1986, acho. Era um show coletivo pró-PT chamado A Estrela Sobe. Tinha Atahualpa, um monte de banda e o Vitor Ramil – que ia tocar piano. Um piano de cauda no palco do Gigantinho! Daí entrou o Atahualpa: Miranda, eu, Flávio e Castor, com a maravilhosa percussionista negra Tânia Valins de convidada especial. O instrumento dela naquela noite era um botijão de gás tocado com uma corrente. O segurança do ginásio, quando ela chegou com o botijão, ficou assustado e perguntou: “Mas não vai explodir?” E a Tânia, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: “Claro que não, tá vazio, que é pra dar o timbre certo…”.
Resultado: no palco, quando a Tânia levava o braço com a corrente pra trás preparando o laço no botijão a corrente acertava no tal piano de cauda encomendado pro Vitor Ramil, que acabou todo lascado!!! O piano, não o Vitor.”
Creiam: depois dessa ainda fizeram mais um show no mesmo Gigantinho.
Segue Jimi:
“Desta vez foi num Rock Unificado, em que a gente foi vaiado durante o show inteiro por umas oito mil pessoas. No fim eu joguei minha Giannini SG pra cima e acabei com ela. Uns dias depois o Miranda recebeu uma carta do professor Marcão, sócio do cursinho (Unificado, promotor do evento). Agradecendo a participação da banda e dizendo que esperava, sinceramente, nunca mais nos ver num evento do Unificado.”
Com tudo isso, tiveram dois sucessos de rádio – na Ipanema FM, claro: Todo Mundo Saca, incluída no disco Rock Garagem II, e Schoobydahbydoobah Porto Alegre é Meu Lar – regravada anos mais tarde, numa excelente versão com direito a clipe, pela banda trash Panic.
Além disso, participaram do primeiro CD produzido por Miranda quando ele se mudou pra São Paulo: a coletânea Sanguinho Novo (Eldorado, 1989), com releituras de músicas de Arnaldo Baptista. Claro que escolheram um Lado B: Sitting On The Road Side.
Pra fechar, Miranda de novo:
“O Jimi só te contou as histórias mais mainstream. Faltou os fantasmas na estrada (!?), o disco voador no Estádio dos Eucaliptos (?!?), os convidados meio fixos – Edu K, Paulo Nequete, Carlo Pianta… -, o caminhão de lixo despejado no palco do (bar) Ocidente, as guerras de cadeiras nos shows, o banho de extintor na plateia da Terreira da Tribo (do grupo de teatro Oi Noiz Aqui Traveiz) enquanto eu vomitava…”
Como entidade, o Atahualpa nunca acabou. A cada tanto se reuniram, como na abertura do show de Chico Sciense & Nação Zumbi num palco armado ao lado da Usina do Gasômetro, em 1994.
Ou no disco póstumo em homenagem a Miranda, concebido pelo nunca por demais louvado site/projeto Relicário do Rock Gaúcho, de Reinaldo Portanova. O álbum foi lançado digitalmente pelo selo paulista Yb, se chama Mini Mundo, e tem regravações melhor acabadas (e menos anárquicas) de Shoobidabiduba e Todo Mundo Saca. O que, no caso do Atahualpa, não é necessariamente um ponto.
A formação que gravou o álbum tinha Carlinhos Carneiro na voz, Jimi Joe e Paulo Mello na guitarras, Flu (Flávio Santos) no baixo e Castor na bateria.
Num primeiro momento, em 2019, antes do disco ir pras plataformas digitais, foi lançado em CD-Rs queimados um a um.
Vendeu 20 cópias.
Oito a mais do que o LP.
Arthur de Faria, em 3 de agosto, no facebook