[BIO] Arthur de Faria: História do Rock Gaúcho [CAP 6]

Chegamos nos…

Os Anos 80

Rock Gaúcho, final do ano de 1987, na frente do prédio da Bandeirantes FM, na Delfino Riet.

Carlo Pianta, em 2026:

“Especialmente para nós que nos sentíamos empolgados pelo que acontecia no mundo do rock, com o punk e a new wave trazendo uma nova linguagem e nada acontecendo no Brasil, a sensação geral naquele começo de décadas era de que nada dava em nada. Um ostracismo absurdo.”

Antes de tudo, a banda e o artista que, de alguma forma enquadráveis como “rock”, fizeram a transição entre os anos 1970 e 1980. A banda é o Taranatiriça, que nasce instrumental, em 1979, situando-se como o lado rocker de um trio de bandas contemporâneas basicamente instrumentais: eles, o Cheiro de Vida (mais jazz-funk) e o Raiz de Pedra (mais pra jazz). Já o artista, na verdade inclassificável, é Júlio Reny, que no mesmo ano faz seu primeiro show: Uma Canção nas Trevas.

Ainda que esta seja uma história de Porto Alegre e não do Rio Grande do Sul vale registrar que, em 1981, o trio pelotense jazz-rock-hard-progressivo Vôo Livre lançou o primeiro LP de rock gravado totalmente no estado – Vôo Livre (Gravadora Pialo). Formado por Chico Castro, Luís Bento e L. A. Vieira, o trio contou com arranjos e participação especial do jazzista Paulo Dorfmann.

Mas a cena ainda não estava pronta para explodir.

Como sempre, tudo tem a ver com contexto histórico. Em 1982 se realizam as primeiras eleições democráticas para governador em 22 anos. Era o fim do bipartidarismo maniqueísta entre ARENA e MDB. Jair Soares (PDS), Pedro Simon (PMDB), Alceu Collares (PDT) e Olívio Dutra (PT) disputaram o governo. A oposição, dividida, perdeu para o representante da ditadura, Jair – e a ARENA também venceu em Santa Catarina, Mato Grosso e todos os estados do Nordeste. Nos demais, como São Paulo, Rio, Distrito Federal e Minas Gerais, a oposição finalmente tinha uma chance de administrar um governo estadual.

Bar Ocidente – esquina maldita, anos 80

Isso, junto com a abertura política, armou parte dos explosivos necessários pra detonar, entre os jovens, o “novo” rock brasileiro – e gaúcho. É claro que ambos já existiam, falamos nisso até aqui. Mas o que surge então é um contexto de movimento, englobando uma verdadeira explosão de um gênero até então desprezado no país.

Tudo começa com a performática Blitz emplacando em todas as rádios do país o mega-hit Você Não Soube de Amar. Nos cinemas, o filme Menino do Rio, de Antônio Calmon, mostra uma nova geração, com novos valores, e que ainda não tinha sua trilha sonora.

Em Porto Alegre, a música popular brasileira – que muitos chamam de MPG – estava no auge. Também explodia o nativismo e, logo em seguida, haverá um pequeno e consistente renascimento do choro. Na TVE, estreia o programa Pra Começo de Conversa, que será um dos principais canais de divulgação das efervescentes cenas de música, teatro e cinema feitas na cidade.

No rock, os cariocas é que abrem a cena: em 1982 saem os LPs de estreia de Lulu Santos, Lobão, Blitz e Barão Vermelho, e entra no ar a Fluminense FM, a Maldita. Enquanto isso, em São Paulo, acontece o primeiro Festival Punk, dias 27 e 28 de novembro de 1982, no Sesc-Pompéia. Será apelidado de “O Começo do Fim do Mundo”, recebendo, entre outros, Olho Seco, Cólera e Inocentes.

Em 1983 Brasília entra na cena discográfica com Os Paralamas (então do Sucesso) e seu Cinema Mudo. Mesmo momento em que também estreia em disco Nei Lisboa, com o LP independente Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina. Ok, não era exatamente rock, mas tinha blues, reggae e um namoro com o pop mais evidente do que em outros discos de artistas gaúchos do momento, como Vitor Ramil, Nelson Coelho de Castro e o futuramente bastante roqueiro Bebeto Alves.

Uma certa cena underground de rock se estabelecia em Porto Alegre, à medida em que o pessoal tomava um conhecimento menos superficial do movimento punk e da new wave – que chegam meio juntos, o que causaria surpresa a algum europeu de 1983. No Menino Deus nosso velho companheiro Mutuca abria seu bar Rocket 88, onde a banda da casa eram os Garotos da Rua – de nítida inspiração stoniana. Todo mundo tocou no Rockett 88: os Garotos fizeram lá seu primeiro show, Carlinhos Hartlieb fez seu último.

No bairro Santana, a garagem da casa do Julio Reny se transformara n“o” lugar onde as novas bandas ensaiavam, trocavam informação, usavam aditivos e se divertiam.

Mas o que talvez tenha sido o mais importante diferencial de 1983 é que a até então basicamente emepebística Bandeirantes FM, criada três anos antes, se transforma em Ipanema FM, tornando-se progressivamente roqueira. Isso vai causar uma diferença importante no cenário, já que todo mundo ouvia a Ipanema (sempre lembrando que todo mundo = certa bolha, influente, mas estatisticamente muito distante de ser todo mundo).

No coração da Band e da nascente Ipanema, dois filhos de Cachoeira do Sul: o diretor Nilton Fernando e o locutor/operador Mauro Borba. Dois caras acolhedores. E que, antes da Ipanema ser transferida para o Morro Santo Antônio, tinha seu estúdio (da Bandeirantes) na melhor localização possível naquele momento: José Bonifácio, a rua do Brique da Redenção.

Mauro Borba conta:

“(Era) perto da Igreja Santa Terezinha, perto de onde seria em breve o Bar Escaler, próximo da Osvaldo Aranha onde em breve surgiria o Ocidente e a Lancheria do Parque… próximo da agitação cultural e boêmia da cidade. Claro que os executivos da Band não pensaram nisso, mas a coincidência foi fantástica.

(…)

A rádio era mais MPB do que rock – que foi aparecendo depois, com a entrada do Ricardo Barão. (…) Eu fazia um programa chamado Noite Alta, onde entrevistava os novos artistas da “cena gaúcha” da música, do teatro e do cinema. Depois encontrava todo mundo no Bom Fim, na fila do (cinema) Bristol, no Bar do Beto (onde o Borghetinho ficava tocando gaita na mesa do bar até de madrugada). Ou no Pedrini, ali na Venâncio.

(…)

Tínhamos esse vínculo de rodar artistas novos do RS que ainda não tinham gravadora. O Nei Lisboa, o Nelson Coelho de Castro, algumas bandas de rock que já estavam na ativa: o Garotos da Rua, o Julio Reny, o Taranatiriça, o Vôo Livre de Pelotas…”

E aí vira Ipanema.

“Seis meses depois a Ipanema decolava no Ibope, aproveitando a onda do novo rock brasileiro emergente – que nós abraçamos estrategicamente antes das outras “grandes” rádios.

(…)

Bar Ocidente, foto do interior (anos 80)

A Ipanema subiu rapidamente e foi um fenômeno que surpreendeu a todos. O nosso trabalho já tinha uma repercussão que estava “fermentando” na cidade. (…) como a gente já tinha o rock no DNA foi muito mais fácil pra Ipanema ficar com essa identidade rapidamente. O dia em que nós conseguimos lotar o Gigantinho (15 mil pessoas) pra assistir o Camisa de Vênus – uma banda que tinha nome de palavrão – com mídia somente na rádio Ipanema (…) eu vi que nós havíamos deixado de ser (…) uma ideia de malucos cabeludos, hippies, roqueiros e rebeldes para ser uma rádio forte, influente e que marcaria para sempre a história do rádio brasileiro.”

Em 1984 que o rock brasileiro toma efetivamente o poder, com Kid Abelha, Blitz, Paralamas, Lulu Santos e até o Magazine, de Kid Vinil emplacando o hit Eu Sou Boy. Em São Paulo, os Titãs lançam seu primeiro LP. O movimento Diretas Já, nascido no ano anterior, alcança imensa repercussão por todo o País, arrastando multidões.

Já em Porto Alegre é inaugurado o Bar Ocidente, no Bom Fim. Replicantes, De Falla e TNT começam suas carreiras. Novas casas de rock se espalham pelos bairros: Rola Rock e Theatro Mágico na Cidade Baixa, Taj Mahal na Farrapos, 433 na Auxiliadora, B’52 na Independência, Porto de Elis em Petrópolis.
Essa efervescência toda vai ser pela primeira vez registrada no LP Rock Garagem (ACIT, 1984).

Produzido pelo radialista (da Ipanema) e produtor Ricardo Barão, a coletânea reuniu 12 das melhores bandas de então: o rock´n´roll do Taranatiriça e Garotos da Rua, o punk dos Replicantes, o metal de Astaroth, Leviaethan e Valhala, a new-wave de Frutos da Crise, Urubu Rei e Fluxo. E o blues da primeira formação do gênero a gravar no Estado: Moreirinha e seus Suspiram Blues. Rockinho, do Taranatiriça, explode na programação da Ipanema.

Em janeiro de 1985, perdidas as Diretas Já e eleito Tancredo Neves pelo colégio eleitoral, rolaria a consagração do rock no Brasil. Um ponto fundamental foi o primeiro Rock in Rio, de onde saíram consagrados Paralamas, Barão Vermelho, Kid Abelha e Lulu Santos – e onde a Blitz tem seu último grande momento.

Também o ano dos LPs de estreia dos gaúchos do Taranatiriça, dos paulistas do Ultraje a Rigor e do RPM, e dos brasilienses da Legião Urbana.

Bebeto Alves, em seu terceiro disco (Novo País), dá uma virada em direção do Pop-Rock.
É lançada a revista BIZZ.

É aí, como aconteceu em 1975, 1985 foi um ano-chave para a música da cidade.

Começa com o primeiro Rock Unificado. Promovido pelo cursinho pré-vestibular Unificado, o festival prova que algo grande está acontecendo: dez mil jovens e adolescentes lotam o ginásio Gigantinho para assistir 10 bandas locais, quase todas sem disco, mas com suas fitas-demo tocando na Ipanema FM. Além do público, na plateia estavam também olheiros da gravadora RCA, que contrataria uma leva de roqueiros gaúchos.

O responsável por essa ponte foi uma figura que, na falta de termo melhor, pode ser classificada como agitador cultural – que era como se dizia então. Era o radialista, DJ, diretor e agregador de gente Claudinho Pereira. Amigo de Tadeu Valério – capista da EMI que estava sendo contratado pela RCA – Claudinho pegou o telefone e mandou ver, como conta no seu depoimento no livro Gauleses Irredutíveis, de Allison Ávila, Eduardo Müller e Cristiano Bastos, uma grande fonte de depoimentos sobre a cena:
“Eu disse pro Valério: Já estourou o rock do Rio, de Brasília e de São Paulo, mas a verdadeira terra do rock é o Rio Grande do Sul.

Aí o cara veio ver o Rock Unificado, pra conferir. E se apaixonou de cara pelos Engenheiros: “Vamos fazer um selo de rock na RCA!””

O selo nasceria em seguida, se chamaria Plug, era ligado à gravadora, mas tinha uma administração bastante independente. Tadeu saiu de Porto Alegre com TNT, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua e Replicantes contratados. Todos gravariam uma coletânea que seria o disco de estreia do Plug.
Falando em Gigantinho, os Paralamas fazem nada menos que duas sessões lotadas no ginásio: 30 mil pessoas numa única noite.

Enquanto esperavam o ano seguinte, as bandas viam ser lançadas as coletâneas Porto Alegre Rock e Rock Garagem II, mais compactos dos Garotos da Rua, Replicantes, Banda de Banda, Fluxo e Frutos da Crise. Detalhe: Engenheiros do Hawaii e TNT estariam no Rock Garagem II. Com a contratação de ambas pelo Plug, o disco ficou com apenas oito faixas/bandas: Os Eles, Produto Urbano, Prize, Cambio Negro, Banda de Banda, Atahualpa I Us Panquis e Spartacus. Todo Mundo Saca, do Atahualpa, foi a música que se destacou. Já Porto Alegre Rock reunia Fughetti Luz, Lionel Gomes, as veteranas Byzarro e Vôo Livre, Bandaliera, Astaroth, Sodoma, V-2 e Pupilas Dilatadas. Novas Pulsações (Novas Sensações), do Fughetti, foi o destaque. Nada menos que 500 bandas mandaram fitas para Ricardo Barão, na esperança de entrar nesse segundo volume, produzido musicalmente por Mitch Marini.

Além do Rock Unificado, outros shows coletivos foram importantes: o Rock Sul Concert e o Música Popular Gaúcha, transmitido ao vivo para todo o estado pela RBS TV. No Parque Marinha do Brasil, ao ar livre, para um público de 40 mil pessoas, o espetáculo reuniu uma das mais ecléticas junções porto-alegrenses: teve de Borghettinho a Replicantes. Passando por Taranatiriça, Nelson Coelho de Castro, Urubu Rei e muitos outros.

Também começam a pipocar na cidade bandas de heavy metal – gênero então num excelente momento internacional, ainda que sem nenhum expoente brasileiro. Leviaethan e Astaroth, duas das mais importantes dos anos 1980, são deste ano – desta última saiu o multitalentoso e camaleônico guitarrista e tecladista Marcelo Fornazier. Foi o ano do surgimento “oficial” do metal no Brasil, com a coletânea SP Metal, que saiu pela Baratos Afins, o disco Metal Mania, de Robertinho do Recife (RCA) e a estreia do Sepultura, com o EP Bestial Devastation.

O ano de 1986 é apontado por muita gente como o auge do rock brasileiro. Não por acaso, é o ano que abre com o Plano Cruzado do presidente José Sarney, na virada de fevereiro para março. Com o congelamento de preços, a inflação, que estava passando de 10% ao mês, caiu barbaramente. Num primeiro momento funcionou e muita gente saiu comprando o que já não comprava. Como discos, por exemplo. Nessa, o RPM vende mais de dois milhões e 200 mil cópias de seu segundo LP, Rádio Pirata ao Vivo.

As principais bandas do “centro do país” estão com grandes vendagens e muitíssimo público. As principais rádios e emissoras de TV estão tomadas pelo rock.

É quando programas e programações mais ecléticos começam a ser substituídos pelo mais lucrativo – e de curto prazo – processo de centrar todos os fogos num só gênero. Em vez de ter na mesma rádio ou mesmo programa de TV, como acontecia nos anos 1970, Odair José, Caetano Veloso e Raul Seixas, o lance agora é focar num gênero de cada vez. O rock será o primeiro, mas logo será substituído pelo sertanejo, o axé, o pagode romântico, a primeira onda do funk e assim seguiremos. Por outro lado, é o momento em que o Brasil começa a se tornar o que é até hoje – um dos raros países do ocidente onde se escuta muitíssimo mais a música do próprio país do que a feita fora dele.

Para os gaúchos o grande momento de 1986 no rock é o lançamento, em vinil e cassete, de Rock Grande do Sul. A coletânea batizada com o infame trocadilho era pra ser um clássico exemplo de pau-de-sebo (quem conseguir subir, leva o prêmio, que é um disco inteiro só pra si, os outros são abandonados). Só que todas as bandas ali se destacariam o suficiente para assinarem contratos para discos-solo.

A gravadora achava que quem iria estourar eram Os Replicantes e Os Garotos da Rua, já que ambos tinham lançado compactos com boa aceitação nas rádios. Tadeu Valério, por sua vez, apostava nos Engenheiros do Hawaii. Completavam o time TNT e De Falla. Falaremos muito sobre cada uma das bandas.

Os Engenheiros, Os Replicantes e Garotos da Rua lançam seu LPs de estreia, Longe Demais das Capitais, O Futuro é Vortex e Garotos da Rua ainda em 1986, pegando a economia ainda num excelente momento.

O ano fecha com a volta galopante da inflação pouco antes das eleições. Logo em seguida a elas, Sarney lança o Plano Cruzado II. A situação econômica sai de controle, a inflação dispara loucamente e as vendas de tudo caem barbaramente.

Mas, apostando na elite econômica nacional, há o lançamento do primeiro CD de artista brasileiro. Nada rock: Garota de Ipanema, de Nara Leão. A nova tecnologia surge cara, mas vai se popularizar na virada para a década seguinte.

Ao longo do primeiro semestre de 1987 chegam às lojas os discos de estreia restantes dos contratados do Plug: TNT e De Falla. O mesmo selo lançaria ainda Picassos Falsos, Hanói Hanói, Black Future, Violeta de Outono e outras bandas paulistas e cariocas com popularidade inversamente proporcional a seu prestígio entre a imprensa rock. Ora vejam só: serão os gaúchos que terão as melhores vendagens do selo. Só que TNT e De Falla já terão suas possibilidades muitíssimo reduzidas em função da crise econômica.

É fundada a Casa de Cinema de Porto Alegre, e dois dos sócios são integrantes do Replicantes: Carlos Gerbase e Luciana Tomasi.

Em 1988 é a vez do LP coletivo Rio Grande do Rock (SBK Music), com as bandas Prize, Justa Causa, Apartheid, Cascavelletes e o cara que ficou de fora de Rock Grande do Sul porque fez um show desastrado no Rock Unificado: Júlio Reny.

E então os anos 1980 fecham as portas, em 1989, com o fracasso do Plano Cruzado levando a inflação a bater em inacreditáveis 1.765% ao ano. O presidente José Sarney lança então o Plano Verão e preços e salários são congelados de novo.

Em novembro, cai o muro de Berlim e Fernando Collor é o primeiro presidente eleito desde 1960.
Saem o primeiro o segundo CDs do rock gaúcho: Cardume (Plug/BMG), segundo álbum do Nenhum de Nós, e Alívio Imediato (RCA), o quarto dos Engenheiros do Hawaii. Nenhum e Engenheiros do Hawaii são então das raras bandas nacionais em ascensão num momento em que o rock era rapidamente suplantado pela lambada e as primeiras grandes ondas do sertanejo e do axé.


Esse é o cenário de fundo para contar a história do que hoje a maior parte das pessoas pensa quando se fala em “rock gaúcho”.

Na sua imensa maioria, bandas então formadas por homens brancos de classe média, entre 20 e poucos e 30 e tantos anos, universitários, alunos ou ex-alunos de escolas particulares.

Esmiucemos

Publicado por Arthur de Faria, em 7 de julho, no perfil do facebook

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