[PRESS] DEFALLA – Projeto vira o disco (1989)

Coincidência ou não, o Sesc Pompéia de São Paulo tem abrigado desde 1982 movimentos nascentes da música jovem brasileira, como um barômetro do que a Grande Mídia ainda vai demorar para adotar, cooptar, comercializar – um trabalho digno do maior respeito.

Foi lá o primeiro show da Gang 90 & Absurdettes (formação original) em São Paulo, fora do circuito de casas noturnas – e, mais importante ainda, o festival punk. Organizado por Antônio Bivar que, recém-chegado da Europa, se surpreendeu com a movimentação punk paulistana, o festival acabou colocando os “Garotos do Subúrbio” nas páginas dos jornais e nos noticiários de TV.

O Começo do Fim do Mundo, como foi batizado, ficou para a história do rock brasileiro como uma cicatriz mais profunda talvez que as arranhadas da Blitz e até da própria Gang de Júlio Barroso.

Um ano depois, seria realizada a chamada Hardcore Night, que reuniu grupos como Ira!, Titãs, Voluntários da Pátria, Mercenárias, Ultraje a Rigor, Paris 400 e Brylho (ambos do Rio de Janeiro), Capital Inicial, Unha Encravada e Incoerentes (ambas de Scowa, atual Máfia, e um dos armadores do Hardcore Night).

Hoje, num momento em que paira no ar uma certa indefinição em relação ao pop/rock brasileiro e sua geração que passeou pela mídia durante os últimos cinco/seis anos, o SESC novamente marca presença apresentando o Vira disco – um projeto aglutinando bandas e propostas musicais dos mais variados estilos e tendências

Soviet American Republic / Vzyadoq Moe / DeFalla

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Terceiro Mundo inimaginavelmente sofisticado, o Vzyadoq Moe só não atinge a perfeição porque seu vocalista, Fausto Marhte – eleito com certa justiça um dos melhores letristas de 88 pela crítica -, exagera um pouco no tom Ian Curtis de sua interpretação. Cadeira em punho, ar de garoto mal-humorado, convence alguns, mas não a todos.

E… Piedade, Senhor! Não fosse a censura da casa tão acirrada, escreveria eu linhas e linhas de pura pornografia para definir a sensação de assistir a um show do DeFalla. Por estas e outras Edu K canta em inglês.

Amplis no máximo, o pequeno dínamo Biba Meira conta um, dois, três e… se as paredes fossem um pouco mais finas, teriam vindo abaixo. Ela BATE naqueles tambores com marcação e vontade inigualáveis. Flávio (baixo) tem uma agilidade na mão esquerda que lhe dá o mérito de um dos melhores baixistas do Sul, ao lado de Carlo Pianta (Expresso Oriente e Graforréia Xilarmônica). Castor faz sua guitarra gritar o suficiente e acrescenta mais lenha na fogueira quando deixa a função para Edu K e assume a segunda bateria. Dá para imaginar? Não.

Edu K entra, corre de um lado para outro, pega uma mesa e levanta-a como se fosse um halterofilista, sobe em cima dela, promove o segundo strip da noite, que, no fim, não acontece – embora vá se despindo ao longo do show até ficar só de jeans e óculos escuros-, coloca o sexo junto ao pedestal, homenageia Jim Morrison com um medley de “Five to One”, pega sua guitarra e continua fazendo tudo isso, tocando com a bênção dos deuses. Enfim, nunca alguém poderá dizer que o rock morreu, porque sempre pode aparecer, de algum porão, uma banda como esta para converter os infiéis.

Sônia Maia
Revista BIZZ, abril de 1989

 

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