Porto Alegre – Uma Biografia Musical: o Rock, pela Arquipélago Editorial.
AGORA É TARANATIRIÇA!

Falemos agora da banda que fez a ponte entre os anos 1970 e os 1980: o Taranatiriça (originalmente Tara na Tiriça – algo como “muita, muita tesão”, o que era o tema de uma boa parte das letras).
O Tara original, fundado em 1979, tinha, nas teclas, Carlos Eduardo Miranda (Porto Alegre, 21/03 1962 – São Paulo, 22/03/2018); na guitarra, Marcelo Truda (Marcelo Lopes Truda, 14/04/1961); no baixo, o futuro homem de televisão Valério Azevedo. Na bateria, Cau Hafner (futuro Cidadão Quem, Porto Alegre, 10/07/1959 – Montenegro, 09/07/1999, morto prematuramente aos 39 anos pulando de paraquedas).
Duca Leindecker, 2026:
“O primeiro show que eu vi de rock foi no Araújo Vianna, Taranatiriça com abertura do Garotos da Rua. Eu tinha 11 anos. Foi muito por causa desse show que eu comecei a tocar guitarra. Até então eu tocava violão, tocava bossa nova.”
Tudo começara quando Cau convidou o ainda adolescente Miranda para tocarem uma música no Festival do Colégio Anchieta. Miranda definiu a cena numa hilária entrevista dada para o radialista Mauro Borba, e que está num livro de Mauro, Prezados Ouvintes:
“Ninguém respeitava a gente porque era um bando de moleque fazendo rock. E na época havia uma espécie de limbo no rock gaúcho.”
Começaram fazendo rock instrumental, metidos numa cena de grupos basicamente instrumentais que apareciam no momento, como o Raiz de Pedra – que, na época, ainda cantava – e o Cheiro de Vida. O show de estreia do Taranatiriça, não por acaso, foi junto com o Raiz e o Cheiro, no teatro do IPA, Instituto Porto Alegre.

Só que, ao contrário do que acontecia nas outras duas bandas, só quem realmente tocava bem ali eram Truda e Cau. Para compensar, já abusavam da performance e usavam alguns dos efeitos especiais que sofisticariam com o tempo: projeção de slides, fumaça, balões soltos no palco, explosões de pólvora…
Valério fica pouco tempo na banda, e logo é substituído por Flávio Santos (o futuro “Flu”: Flávio Moreira de Araújo Santos, Porto Alegre, 17/07/1962). Na mesma leva, entra um segundo guitarrista, Rodrigo Corrêa (Rodrigo Godinho Corrêa, Porto Alegre, 14/04/1962).
Rodrigo, em 2026:
“Entrei para o Taranatiriça por volta de 1979 a convite do Gordo Miranda que era meu colega no Anchieta e com o qual eu discutia música, trocava discos e partilhava gostos por bandas nacionais e internacionais. Na época eu tocava chorinho, samba e bossa nova e recém tinha comprado uma guitarra elétrica e dava meus primeiros passos no rock em parceria com meu parceiro Flu Santos que tocava baixo.
O Miranda convidou nós dois para entrar na banda. Quando cheguei no primeiro ensaio fui fazer dupla de guitarra com o Marcelo, que na época, já era um monstro. (…) O Miranda era um cara extremamente generoso em compartilhar a sua cultura musical e tinha uma enorme satisfação em ver o progresso das pessoas. Muito do que sei tocar hoje, eu devo ao Miranda.
A cena musical da época era predominantemente dos cantautores; músicos que compunham e cantavam suas próprias músicas. Fagner, Alceu Valença, Ednardo, Belchior, Guilherme Arantes e, no RS, nomes como Nelson Coelho de Castro, Nei Lisboa, BeBeto Alves, Hermes Aquino…
Existiam poucos grupos com o conceito clássico de banda de rock e o Taranatiriça preenchia todos os requisitos. Tinha o Truda com o estilo guitar hero, o Cau como o baterista surfista, o Miranda que atuava como o maestro criativo e ideias malucas e eu e o Flu segurando a cozinha. A união e a estética da banda funcionou bem. Tocávamos muito no circuito de colégios como o Rosário e Americano e enchíamos os auditórios com um público em maioria de adolescentes, diferente do público da primeira leva do rock gaúcho, do Liverpool e Bixo da Seda. Logo começamos a tocar na rádio e em clubes maiores.”
Em 1982 gravam uma fita demo com o rockão instrumental Reverber (Miranda), incendiado pela furiosa e virtuosa guitarra de Truda. A música tocaria adoidado na Bandeirantes FM através do radialista Ricardo Barão, e seria o tema de abertura do programa que era o porta-voz da juventude gaúcha: o Pra Começo de Conversa, da TVE.
Mas aí em 1983 a banda…
Rodrigo:
“O problema é que cada um tinha um entendimento diferente em relação à banda. O Cau e o Truda queriam ir numa direção mais de hard rock com um cantor a frente. Até então éramos uma banda instrumental. O Miranda, sempre a frente do seu tempo, já sacava os movimentos que estavam acontecendo, com bandas mais performáticas tipo B´52 e Devo. No RJ já tinha a Blitz e em SP a Gang 90 que misturava música e teatro com um som mais new wave.”
Flávio e Rodrigo resolvem passar um tempo na Europa (onde Rodrigo vive há tempos – mora hoje em Lisboa e lidera um projeto chamado Electrograma).
Depois de uma tentativa frustrada de uma nova formação cheia de integrantes, Truda resolve recomeçar do zero e chama para o baixo Paulo Mello, seu colega na banda de apoio do cantor, compositor e pianista Léo Ferlauto.
Paulo deu um longo depoimento pra este então distante futuro livro, no longínquo 2002:
“Em 1983 enquanto gravávamos o disco independente do Léo (Sonho Solto), o Truda me disse que a tentativa de refazer o Tara como uma superbanda de vários integrantes tinha só dado confusão, por que era muita cabeça pensando cada um para um lado. Aí, ele resolveu fazer um power trio (Truda, Cau e eu).
O primeiro show do novo Tara foi no Rocket 88, do Mutuca, numa festa da TVE, e já foi um sucesso violento, por que tinha o lance da música Reverber que era a abertura do programa Pra Começo de Conversa (TVE) produzido pelo Valério (que foi do Tara) e com apresentação do Cunha Junior. A maioria das músicas, porém, eram novas e com letra.
O Rocket 88 nunca tinha lotado tanto com a banda da casa, que viria a ser batizada em seguida de Garotos da Rua – mas ainda não era bem divulgada. Acho que aí começou a rivalidade que acompanhou a história das duas bandas.
Neste show foi que conhecemos o Alemão Ronaldo, que foi lá para ajudar o pessoal do som e era o baterista da Bandaliera.
Mais tarde ele entrou para o Tara, pois cantava melhor que todos nós.”
Em 1984, como vimos, a versão da banda para Rockinho (Fugheti Luz, até então inédita em disco) é um dos destaques do LP Rock Garagem. Seria a única gravação dessa primeira fase da formação mas lembrada da banda: Alemão Ronaldo, Marcelo Truda, Paulo Mello e Cau Hafner.
Paulo:
“A ACIT chamou para gravar um LP. A gravação do LP ficou marcada para 1985.
No final de 1984 fizemos o famoso show no Teatro Presidente. Mais uma vez o cuidado com a produção reverteu no sucesso do show: reservamos três datas para dois shows. Na manhã do primeiro dia já chegou todo o equipamento e na noite ensaiamos o show inteiro no teatro, com som e luz. Ninguém fazia isto na época, e agora muito menos (na verdade, acho que o Léo Ferlauto tem influência nisto, pois os shows dele, tanto o “Sonho Solto” e o seguinte, “Alegria”, foram muito bem-produzidos e pensados de formal teatral).
Neste show lançamos a música Fazê um Bolo (de minha lavra), que nunca tinha sido tocada. Sei lá como, todo mundo cantou o refrão: numa confeitaria, numa danceteria, ou na bilheteria do cinema, pra ver um filme de rock.
O diferencial do Tara era a produção cuidada. O som era sempre o mesmo (o Cau era dono da Auê Sonorização) e a luz era contratada sempre por nós e a melhor possível.
Íamos para o interior com um ônibus e um caminhão, sempre levando som e luz. O show era sempre o mesmo e as explosões eram marca registrada. Desenvolvido pelo Cau, o sistema usava como detonador um curto-circuito que seguidamente apagava as luzes e som, por décimos de segundo, mas era bala.
Voltando ao show do Presidente, Até hoje descubro músicos mais novos que me dizem “aquele show mudou a minha vida” ou algo parecido. Por exemplo, o Nando e Fredi Endres da Comunidade Nin-jitsu, levados pelo pai.”
Fredi, em 2026:
“Cara, foi inesquecível esse show. Sério! Eu tinha nove anos! A batera do Cau andando pra frente, Marcelo Truda com influências de Eddie Van Halen, o Alemão Ronaldo se não tava de calça deandê – aquelas listradas tipo Obelix – tava com uma boca-de-sino… Ali eu pensei: “eu quero ter uma banda, um dia”.
Nando, em 2026:
“A gente curtia a parada que era mais distorcidona, mais próxima do heavy metal: a gente era metaleirinho, os pequenos metaleiros! Me lembro que a gente ficou meio assombrado, meio apavorado com o Alemão Ronaldo. Foi um marco na nossa história. Foi o primeiro show de rock pesado que a gente viu.”
Também são apontados por muita gente como um dos melhores shows do festival Atlantida Rock Sul Concert, dividindo a noite com Urubu Rei, Ira!, Legião Urbana e Ultraje a Rigor, num Gigantinho lotado. Logo em seguida emendam uma turnê pelo interior do Rio Grande do Sul. com a Legião, como banda de abertura.
Tudo ia bem, muito bem.
Até que…
Paulo:
“Num show na praia de Capão da Canoa, no verão de 1985, num circo administrado pelo Sid (o magnífico, da Sombrero Luminoso), o Alemão resolveu pegar no pé do operador de som (um dos melhores que houve aqui no RS), o Cau acabou brigando com ele e Alemão acabou dizendo que ia sair da banda.
Passei a noite tentando convencê-lo a pensar melhor, mas não adiantou – e o Cau também não queria ceder. Assim, fizemos vários shows de trio no verão de 1985, novamente revezando o vocal. Na volta acabamos chamando o Perna para gravar o disco.
Ele nunca tinha cantado de verdade. O resultado mesmo assim foi bom, a música de trabalho, Fazê um Bolo, emplacou nas rádios e toca até hoje (saiu na coletânea da Ipanema em 1999). Aliás, foi gravada pela Bandaliera duas vezes (em 1997, no LP 15 anos e em 2002, ao vivo, para a Revista Atlântida). ”
O disco Totalmente Rock saindo pela ACIT já daria o que falar pelo simples fato de que, até então sediada em Caxias do Sul, a gravadora era basicamente dedicada ao regionalismo.
Gravado com Perna no vocal, no lugar de Alemão, o LP explode Rockinho (Fughetti Luz) e Fazê um Bolo (Paulo Mello), que imediatamente se tornam hits (hoje clássicos) do rock gaúcho. O repertório se completa com cinco músicas de Truda, mais uma de Paulo e uma assinada pelo trio: Guisadinho.
Paulo:
“Com o lançamento do LP que, dizem, vendeu 25.000 cópias, fizemos muitos shows, mas já não era a mesma coisa sem o Ronaldo. Fizemos o Rock Unificado I, fomos convidados para o disco da RCA (Rock Grande do Sul), mas a ACIT não nos liberou – e nós também ficamos achando que, com um disco recém-lançado pela ACIT, não dava para trocar de gravadora assim no mais. ”
Como se sabe, Rock Grande do Sul foi um marco absoluto, resultando em discos individuais lançados nacionalmente por todas as bandas que estavam ali.
Ou seja:
“Perdemos este barco. ”
Entram 1986 fazendo muitos shows e sendo contratados pela gravadora paulista Nova Copacabana, que lança em 1987 o segundo LP: Taranatiriça II.
Paulo:
“Fizemos a divulgação em SP e Rio, fomos em programas de TV etc. Mas eu não me sentia bem, pois a música de trabalho era a, para mim, nefasta Baralho Voador, que eu relutei em ensaiar, relutei em tocar nos shows, relutei em gravar e a gravadora ainda escolheu como música de trabalho. Relutei ainda em aceitar. (…) Chegávamos nas rádios no Rio e SP para mostrar o disco e para mim era vergonhoso mostrar aquela música – e os comunicadores achavam uma merda mesmo.
Aí começava uma empurração: “tem essa outra, tem essa”, mas a merda tava feita. A minha contrariedade e as reclamações que fiz foram tantas que brigamos e eu saí logo depois do lançamento. Mas tudo bem, já tinha ido no Chacrinha (único lugar que eu acho que combinou com o Baralho).”
A banda acaba em 1989, com uma longa folha de 10 anos de serviços prestados à difusão do rock gaúcho, tocando em praticamente todos os lugares onde houvesse uma tomada à disposição e levando um profissionalismo muitas vezes inédito a estes mesmos lugares. Literalmente lavraram a estrada do rock no interior do Estado.
Em 1999, 10 anos depois, Cau chamou Truda, Paulo e Alemão Ronaldo para fazerem pelo menos um show e gravarem um disco ao vivo que mostrasse o que fora realmente a banda em cima de um palco. Araújo Vianna reservado, a produção seria grandiosa.
Paulo:
“Fizemos um ensaio, por acaso, pois estávamos em um estúdio esperando o (programa da RBS TV) Patrola para falar do novo projeto, (…) pegamos os instrumentos que tinham lá e começamos a tocar. (…) Era uma quarta-feira. Depois o Cau nos deu o convite para o aniversário dele que seria no Dado Bier, no domingo. Fomos para o escritório dele e conversamos um pouco mais. Minha mulher foi me buscar com meus filhos, eles entraram lá para me chamar, fizeram bagunça, o Cau deu uns adesivos da Cidadão Quem para eles, a minha mulher buzinou nos apressando, eu me atucanei e, ao sair, lembro que parei e pensei, “será que eu dei tchau pro Cau?”
E aí o paraquedas do Cau que não abriu, às vésperas do tal aniversário.
Em 2011 o trio Alemão, Truda e Paulo acabou tocando junto por acaso, num show coletivo, com Fábio Musklinho na bateria. No ano seguinte, lançaram um compacto com duas músicas (Trem Fantasma e uma nova versão de Rockinho), reestrearam no festival Morrostock e fizeram um show no Opinião. Gravaram ao vivo pra ser lançado em seguida.
Passa o tempo e só em 2025 lançaram o disco gravado do jeito que queriam quando Cau morreu: Taranatiriça ao Vivo. Pra marcar a data, e por pilha de Duca Leindecker, fizeram um show de lançamento novamente no Opinião.
Repetindo: se teve uma banda que fez a ponte entre a segunda e terceira geração do rock no Rio Grande do Sul, essa banda foi o Taranatiriça.
Marcelo Truda, 2026:
“Teve muita influência do Bixo da Seda. Eu assisti muito show do Bixo. Ali como os guris falaram – o Fredi e o Nando -, a mesma coisa aconteceu comigo vendo o Bixo da Seda. Tu olha aquilo ali e pensa: bah, eu quero fazer isso!
E não só o Bixo: Byzarro, banda Trovão do Mitch Marini…”
Publicado por Arthur de Faria, dia 12/07/2026, no facebook
