maio 042012
 

Publicado por Jorge Furtado em 06 de maio de 2012, no site da Casa de Cinema após a noticia do falecimento do vocalista do Grupo Inconsciente Coletivo, em que o Alexandre Vieira era vocalista. Sua homenagem inclui de trilha de áudio e vídeos como referencia.


“Abra a janela e respire o novo ar da manhã. Quando um dia você acordar sem o som do relógio do lado. Quando um dia você levantar sem lugar, sem dever, sem patrão. Abra a janela e respire o novo ar da manhã.” (Alexandre Vieira, em “Voando alto”, da banda gaúcha “Inconsciente coletivo”)

Morreu nesta sexta-feira, 4 de maio, o músico gaúcho Alexandre Vieira, grande figura, grande violeiro, compositor e cantor. Os gaúchos que nasceram em meados do século passado hão de lembrar da banda “Inconsciente coletivo” – Xandy, Ângela Langaro e João Antônio – e seu maior sucesso, “Voando alto” (1976). A gravação é um tanto precária, o som deles era bem melhor ao vivo. Xandy era muito inteligente e bem humorado. Era também muito bonito, de olhos claros, líder de uma banda de rock que estava bombando na cidade, imagine a quantidade de garotas apaixonadas por ele.

O Alexandre era meu primo, filho dos meus padrinhos, da tia Branca e do tio Darcy, irmão de minha mãe. Uma vez ele tentou me ensinar violão, mas logo descobrimos que existe algo entre meu cérebro e a minha mão esquerda que impede a realização de pestanas e impossibilita o uso da nota fá. Vi muitos de seus shows, Xandy era um garoto que amava os Beatles, os Rolling Stones, Dylan, Neil Young, tudo de bom.

Os versos de “Voando alto” (“Quando um dia você levantar sem lugar, sem dever, sem patrão.“) são de uma comovente ingenuidade, a essência do ideal romântico hippie em sua versão brasileira bicho-grilo, e dialogam, por tratarem de questões vitais, com os versos fúnebres de Shakespeare em Cimbeline, Rei da Britânia: “Foi-se o medo da ira do patrão. Foi-se a dor e a tirania, enfim. Já não precisas de calçado ou pão. E o carvalho vale o mesmo que capim. (…) Foi-se o medo do sol de verão, da neve ou do rigor do inverno. Terminaste no mundo a tua missão. Foste pago e tens abrigo eterno”.

Alexandre, uma alma sem patrão, fez muita coisa na música, tocou em várias bandas, abriu e comandou por muito tempo uma casa noturna de muito sucesso em Porto Alegre, o “Sergeant Peppers”, onde por tantos anos divertiu e se divertiu, fazendo o que mais gostava, distribuindo alegria com sua arte. Se existir um jeito melhor de viver, me avisem.

Xandy era uma grande figura e vai fazer muita falta. Para a tia Branca, para o seu filho Alexandre, um beijo dos primos, da tia Dercy e dos amigos.


TRILHAS: POR JORGE FURTADO

Inconsciente Coletivo e seu maior sucesso, “Voando alto” (1976), que pode ser ouvido aqui:


Aqui, uma palhinha de Xandy no palco do Sgt. Peppers, com a sua banda Anexo 44, só feras: Xandy, Zé Flávio, Tito Garbinato, Gabriel Mohr, Jorge Dorfmann e Cassio Moretz. Xandy é o de boné preto, no centro.

 


Aqui, parte do show do Anexo 44, Xandy canta, toca violão e gaita.


Aqui, um belo texto do jornalista Emilio Pacheco.

Alexandre Vieira

Por Emilio Pacheco

Para as gerações posteriores à minha, ele era o Xandy do Sgt. Pepper’s (pub de Porto Alegre). Para mim ele vai ser sempre o Alexandre do Inconsciente Coletivo. Os outros dois integrantes eram Ângela Langaro e João Antônio Araújo (que depois se lançaria como locutor e um dos Discocuecas originais). Para vocês terem uma ideia do quanto eu era fã desse grupo gaúcho, entre 15 e 17 anos eu os considerava meus artistas brasileiros preferidos, acima de qualquer outro. Gostava mais deles do que dos Almôndegas ou do Hallai-Hallai. Ou até do que de Secos e Molhados, Mutantes… Eu era mesmo fã de carteirinha. Então imaginem minha emoção o dia em que assisti a um ensaio deles na casa do Alexandre, em 1976. Ainda lembro de muita coisa que vi e ouvi naquela tarde de domingo e prometo fazer um relato detalhado, incluindo trechos de diálogos que ainda estão bem vivos em minha memória. Alexandre Vieira faleceu hoje. A penúltima notícia que tive dele era de que estava tocando na banda Anexo 44, ao lado de Zé Flávio (ex-Almôndegas), Jorge Dorfman, Gabriel Mohr e Tito Garbinato. Talvez já na semana que vem eu publique aqui um longo texto sobre o Inconsciente Coletivo, incluindo minhas recordações do ensaio. Foi um dos momentos mais marcantes para mim como apreciador de música.

 


Sobre o Xandy: [clique aqui]

Sobre o ‘Grupo Inconsciente Coletivo‘:

Parte 1 de 3 [clique aqui]
Parte 2 de 3 [clique aqui]
Parte 3 de 3[clique aqui]

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