jan 242020
 

[LEITURA] Arthur de Faria: História do Rock Gaúcho [CAP 2]
Porto Alegre: uma biografia musical

Arthur de Faria: História do rock gaúcho – capítulo 2, em janeiro, dia 24, 2020


Radamés Gnattali

Excetuando-se Radamés Gnattali (e Chiquinho do Acordeom (veja capítulo anterior), os primeiros músicos gaúchos a tocar rock o fizeram na base do ‘se não pode vencê-los, junte-se a eles’. Não curiosamente, eles estavam entre a ala mais jovem da febre local dos conjuntos melódicos. Ao lado de clássicos do samba em versão cool, temas de filmes, sucessos de Frank Sinatra e Nat King Cole, alguns melódicos passaram a considerar a inclusão de, pelo menos, uma do Bill Haley & Seus Cometas. Sim. No sul do Brasil não era Elvis, mas sim Bill Haley o grande nome – branco, é claro – do gênero inventado pelos negros Chuck Berry e Little Richard.

Ethevaldo Sigismundo Zlotowski, vulgo Poposky

E era nos Cometas que Poposky e Seus Melódicos buscavam a base do seu repertório. Liderado por Ethevaldo Sigismundo Zlotowski, vulgo Poposky, eles tocavam versões instrumentais desses e outros rocks. Os Melódicos de Poposky eram seu irmão Cláudio mais três músicos que teriam longas carreiras dentro e fora do rock: o baterista Claudio Calcanhotto (futuro pai de Adriana), o saxofonista Vladimir Latuada e o brilhante guitarrista Olmir Stocker (que futuramente passaria pel´Os Wandecos, o grupo que acompanharia Wanderleia na Jovem Guarda).

Outros melódicos que se entregaram ao chocoalho dos quadris foram o Mocambo – formado em 1957 por uma gurizada entre 13 e 19 anos – e o Stardust. Liderado pelo pianista cego Manfredo Fest, que lançaria muitos discos de samba-jazz a partir do momento em que foi para São Paulo e, logo em seguida, para os Estados Unidos.

Pois os meninos do Stardust usaram um truque para aprenderem as músicas, já que não havia nem estes discos ainda: revezavam-se em sucessivas sessões de Ao Balanço das Horas prestando muuuuita atenção nas músicas do filme.

Mas não foram os jovens dessa cena que gravaram o primeiro disco gaúcho de rock – o que não é o mesmo que primeiro disco de rock gaúcho, claro. O que ninguém imaginaria é que quem o faria seriam os veteranos do Conjunto Norberto Baldauf, não só dos pioneiros do estilo como também o mais longevo e mais popular de todos os conjuntos melódicos gaúchos.

Seu oitavo (!!!) LP se chamou, ora veja só, Rock on Big Hits – Melodias Famosas em Ritmo de “Rock” (1959, Odeon: atente para as aspas). Taí o primeiro disco do rock gaúcho. Nem importa que tenha sido exigência da gravadora, que o pessoal do grupo não o quisesse, não gostasse dele, e que acabasse rompendo o contrato por sua causa. Tá lá. Pra sempre.

E isso aconteceu porque, se o primeiro boom roqueiro no Brasil se deu em 1957, é justamente no ano da Bossa Nova, 1958, que ele se populariza a ponto de, no ano seguinte, já justificar um disco como esse. Os responsáveis por essa expansão de mercado são dois irmãos paulistas: Celly e Tony Campelo. Lançaram um compacto em inglês em 58 e, no ano seguinte, sucesso estrondoso, em português: Estúpido Cupido e Banho de Lua são os hits que lhes rendem o convite para apresentar, juntos, o primeiro programa jovem da TV Brasileira: Crush em Hi-Fi.

O Brasil mal descobria essa novidade chamada juventude, invenção ligada à onda de norteamericanismo pós-Guerra da qual até a nascente rebeldia já havia sido apropriada pelo cinema – em filmes estrelados por Marlon Brando ou James Dean.

Inspirados neles, “perigosas” gangues de motoqueiros com calças de brim faroeste, gumex no topete, casacos de couro e botas ou alpargatas sete vidas se espalhavam pela Zona Sul de Porto Alegre. Era a juventude transviada, assim chamada em função do título nacional – Juventude Transviada – de Rebel Without a Cause, estrelado por Dean. A febre foi tanta que até a tradicional Boite Marabá, núcleo da boemia tradicional porto-alegrense, passou a promover noites inteiras de festa rock, ainda nos anos de 1950.

Na música, essa juventude já nascia subdividida pela indústria: para os “sofisticados”, a Bossa Nova; para o resto, o rock disputará a seleção natural com uma geração de jovens cantores de dramáticos boleros, sambas-canção e samboleros. E vários ritmos insurgentes que chegavam direto do Tio Sam. Coisas como o twist, o latino cha-cha-cha ou o hully-gully. Havia ainda as baladas-rock glicosamente românticas de grupos como o The Platters.

Mas as mais animadas de todas, com sua febril energia juvenil, eram as bandas de guitarra como The Ventures e The Shadows, que faziam um som instrumental chamado de twang pelos especialistas mas que hoje agrupamos sob rótulo de surf guitar rock, surf rock ou… aquelas guitarrinhas do Tarantino.

Pois é exatamente esse som que será a primeira efetiva matriz do rock da terra de Gumercindo Saraiva.

Em 1959, a starlet teen internacional Brenda Lee canta seu estrondoso sucesso “rock” “Jambalaya” em Porto Alegre, num circo e no Cine Castelo, no programa Maurício Sobrinho. Nesse mesmo programa, brilhava a nossa starlet teen: Elis Regina, 14 anos. Dois anos depois, aos 16, Elis lançaria seu LP de estreia, Viva a Brotolândia. Pontilhado de “rocks” – cheios de aspas – como os de Brenda.

Mas o rock cantado demoraria a entrar no Rio Grande do Sul. Em 1961 estreava no Brasil Saudades de um Pracinha. E mais uma vez através de um filme – como já acontecera com Rock Around The Clock e acontecerá com Os Reis do Ié-Ié-Ié – nasce um novo fenômeno mundial: Elvis Presley, que já era o Rei do Rock desde 1956, só que lá no seu mundinho. Agora, devidamente amansado e recém-saído do serviço militar, ele estava ali, em technicolor, para o mundo todo. Era o que faltava para que, neste mesmo ano, um ferrenho defensor da alta cultura nacional como o apresentador Chacrinha lançasse uma campanha contra o que ele – e muita gente – chamava de A Praga do Rock.

Já pelo sul, a Rádio Gaúcha estreava o Programa Julio Rosemberg – pelotense radicado em São Paulo, Julio ia semanalmente a Porto Alegre para apresentar o primeiro programa que dá considerável espaço ao rock, direto do Teatro Presidente. Toca não só a “brotolândia” como as – olha elas aí! – bandas de guitarra que então surgiam em enxurrada. Em parte, também por causa do cinema, através dos chamados “filmes de praia” – onde elas, invariavelmente, faziam a trilha.

E é no mesmo 1962 em que Roberto Carlos emplaca seu primeiro sucesso, Splish, Splash, que os primeiros roqueiros porto-alegrenses montam a pioneira Banda Apache, o Marco-Zero do rock gaúcho. Num primeiro momento, guitarra, violão e bateria, com o nome inspirado num tema – Apache – que todas essas bandas tocavam.

AS BRASAS – Banda de Rock do RS, ano de 1964

A formação padrão do rock se estabeleceu ali: duas guitarras, bateria e a suprema novidade: o baixo elétrico! Sim, porque a guitarra elétrica já era de casa – mesmo nesse sul de mundo chamado Porto Alegre Antoninho Gonçalves já tocava uma em 1938, na orquestra do pianista Paulo Coelho. Eventualmente os grupos se completavam com um sax. Vocais, só a partir dos Beatles. Sim. Como os melódicos, essas bandas faziam um som estritamente instrumental. E tocando tudo que estivesse na moda: mambos, temas de filmes, baladas e até, veja só, rock. A Apache surgia nessa praia, fazendo covers de outras bandas de guitarra. Deu tanto pé que, em um ano, já eram dezenas de bandas de guitarra em Porto Alegre.

Ou seja: exceto pelos dois primeiros LPs de Elis Regina, a cidade não tem representantes na primeira geração do rock nacional – aquela capitaneada pelos irmãos Campello, e que vai de 1958 a 1962 (aliás, os mesmos anos da primeira bossa nova).

Mas na segunda, a das bandas como Jordans, Jet Blacks, Clevers etc, já estava a cidade alinhadíssima com Rio e São Paulo.

Detalhe: antes mesmo de nossos irmãos de cone sul. O rock na Argentina só começo de verdade em 1966, com Los Gatos – ainda que desde 1958 os hermanos tivessem um clone local de Bill Haley; Billy Cafaro. Gatos que, por sua vez, eram influenciados pela primeira banda relevante do Uruguay, Los Shakers – que nasceram do impacto pela chegada dos Beatles, em 1964. Pois o rock em Porto Alegre, como em outras partes do Brasil, começa em 1962. Ou seja: é pré-Beatles.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).


O original está na URL à seguir, que foi lida em 10/02/2021; reformatado, incluímos imagens:  Arthur de Faria: História do rock gaúcho – capítulo 2 em janeiro 17, 2020

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