[PRESS] A Primeira Vez de Edu K (2011)

O frontman Edu K no histórico show do DeFalla na noite de quinta-feira

A primeira vez com Edu K

ZERO HORA | 2ª CADERNO | 28.05.2011 – Segundo Caderno
GUSTAVO BRIGATTI

E estava tudo bem assim até vir a Porto Alegre e quase ser linchado por não conhecer necas da “fase clássica” do DeFalla nem nunca ter visto eles ao vivo. “Você precisa preencher essa lacuna”, diziam uns, “vergonha alheia nunca ter ouvido Sodomia”, se arrepiavam outros, “It’s Fucking Boring to Death, meu filho, baita hino”, cravaram, cantarolando o trecho de “It’s my rifle, it’s my gun”. Tá certo, tá certo, vou vê-los “de verdade”, então.

Claro que muito mais gente teve a mesma ideia de conferir a volta (por uma noite, pelo menos) do Edu, Flu (baixo), Castor (guitarra) e Biba (bateria), lotando o andar superior do Beco, a maioria na faixa do 35-40 anos – menores que isso ou estavam a trabalho (eu) ou eram curiosos (eu também). Por isso, o clima era de reencontro de turma, de resgate de um tempo em que a anarquia tinha rostos, nomes e música.

E música boa, para minha feliz surpresa. Não conseguia acreditar que aquela prensagem à frio de funk, punk rock e psicodelia havia sido feita no Brasil em 1987 e eu só estava ouvindo agora. Uma banda coesa, ousada, competente, que – eles negam – estava à frente do seu tempo e dona de um punhado de músicas que não envelheceram um minuto sequer. Sem contar a capacidade de levantar o público, missão ingrata para qualquer banda que toque em Porto Alegre.

Também ficou fácil entender por que o mise-en-scène do Edu o coloca como um dos maiores frontmen do pop nacional – o nível de interação/provocação entre ele e o público beira uma guerra em determinados momentos. Mandar ficar pelado, fui perceber, era o que de mais comportado eles poderiam pedir e a coisa mais fofa que Edu ouviria ao longo da noite.

O DeFalla sobe ao palco e a primeira coisa que alguém grita da plateia é: “Fica pelado!”. Era o que eu temia. Posicionado bem em frente aos quatro músicos, na noite do primeiro show da formação clássica da banda em mais de 20 anos, na quinta-feira, no Beco, tudo o que eu menos gostaria de ver era o Edu K em pelo.

– Mas já? Ainda não, pô! – respondeu o vocalista.

Senti algum alívio. Mas, por via das dúvidas, dei uns passos para o lado. Sei lá, sou do interior de São Paulo, não me sinto confortável com a ideia de um sujeito na chacoalhando a poucos centímetros de mim. De qualquer forma, já haviam me dito (alertado) que um show do DeFalla era mais que uma experiência musical e eu deveria estar preparado. Principalmente porque aquela seria minha primeira vez com a banda – e talvez a última, vai saber.

Nascido e criado na periferia de Americana, conhecia o DeFalla apenas por notas nas finadas Bizz e Showbizz, quase sempre ligadas a alguma estripulia do Edu. Na época, o rock no Rio Grande do Sul, pra mim e mais um monte (um monte mesmo) de gente, se resumia aos Engenheiros do Hawaii e ao Nenhum de Nós – que eu vivia confundindo, preciso admitir.

Para não dizer que eu não conhecia nada do DeFalla, escutei por um tempo o hit Popozuda Rock’n’Roll, que constava em uma coletânea de alguma dessas revistas entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000. Então eu tinha comigo que o DeFalla era uma espécie de pai dos Mamonas Assassinas, uma banda engraçadinha que se aproveitava do imaginário musical de uma determinada época para debochar.

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