jul 152022
 

Artista brasileiro, especificamente quando se coloca no papel de defensor da genuína cultura do País, costuma apostar em uma velha dicotomia: nacional versus estrangeiro. A discussão sobre a qualidade cede lugar ao critério da naturalidade. Quando alguém diz isto é bom para a música, o cinema ou a literatura nacional, é melhor sair correndo. Os sambistas adoram bombardear a invasão do rock para justificar o raquitismo interno. Os escritores condenam o condicionamento que obriga os leitores a voltarem-se ao externo. Desejariam que o Estado impusesse, condicionasse à população a leitura exclusiva de suas obras-primas.

Os sambistas gostariam que a batucada (nacional) enterrasse o rock (internacional) em nome do popular (nacional) contra o burguês alienado (internacional), odioso destruidor dos valores puros (nacionais) com ideias alienígenas (internacional) e onde a massificação (internacional) suprime a arte (nacional).

Nei Lisboa, em uma linha defendida pelo jornalista norte-americano Tom Wolfe, parou de brincar. O rock da banda DeFalla (regional) também.

Ao malandro do golpe (nacional), da sorte (nacional), da categoria (nacional) e do jeitinho (nacional), eles opõem o malandro pós-moderno (apátrida), que investe no conteúdo e fulmina as relações de poder (internacionais). A política (nacional ou internacional) é varada pela crítica impiedosa.

Já as escolas de samba do Rio do Janeiro, em 1990, estão, outra vez, predominantemente, com a velha malandragem. (nacional), que pretende ficar bem com os poderosos. Assim é que perpetua o pacto de mediocridade (nacional) e elimina-se a criação (universal). O universo nacional, porém, é perpassado por uma categoria nacional eternizada: o protecionismo.

FONTE: JORNAL ZERO HORA, 25/02/1990

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