[PRESS] A fábrica maluca de novos sons: estúdio Dreher (1998)

A fábrica maluca de novos sons
No estúdio Dreher, dos irmãos Thomas e Gustavo, é gestada a nova cena rock porto-alegrense

Por Paulo Moreira

Nove entre dez roqueiros da nova geração porto-alegrense já passaram pelo Dreher Estúdio, dos irmãos Gustavo e Thomas. O local, uma verdadeira fábrica de sonoridades das novas bandas gaúchas, tem se caracterizado por dar espaço às mais variadas experiências sonoras. Do country-rock dos Cowboys Espirituais ao iê-iê-iê da Graforréia Xilarmônica, passando pelo rap dos Manos do Rap às maluquices ensandecidas de Plato Dvorak e suas inúmeras bandas.

A história técnico-musical da dupla começou muito cedo. Com a mãe professora de música e o pai regente de coral, os Dreher estavam na escola de música desde os seis anos de idade. Na adolescência, foram trabalhar como assistentes de estúdio na Gravadora Isaeck, onde o pai era gerente. “A gente puxava cabos, ajeitava os microfones, servia cafézinho, enfim, fazia de tudo”, lembra Gustavo. Sempre de olho no que acontecia, um ano depois, os dois já operavam as mesas de áudio, fazendo mixagens dos discos de grupos nativistas. Ao mesmo tempo, investiam na carreira, comprando equipamento e fazendo gravações em casa. Até que, em fevereiro de 1996, resolveram ir à luta. Montaram o Ecron Studio. O primeiro trabalho foi a masterização do CD da banda “Aristóteles de Ananias Jr.” e o início das gravações do disco da Ultramen, que foi lançado recentemente. “A versão dub de ‘Get a Pussy’ que está no CD foi feita no computador aqui do estúdio”, destaca Gustavo.

Trabalhando com pouco equipamento mas muita criatividade, os irmãos Dreher compraram uma gravadora suíça Studer, de uma polegada e oito canais, fabricada em 1977, que pertencia à Acit. “Essa máquina é um ‘clássico’. Em termos técnicos, não fica atrás de qualquer uma moderna”, garante.

O investimento num equipamento deste porte significa um cuidado com a sonoridade e uma preocupação com o som que é tirado dos instrumentos. “Gosto de trabalhar com sons antigos. Prefiro ouvir coisas gravadas nos anos 60 e 70 e odeio as gravações dos 80 e não gosto muito do que ouço dos 90”, reforça o músico. Mesmo com este conceito, Gustavo não hesita em classificar o agora denominado Dreher Estúdio de um “lugar chinelo, onde nós e os músicos nos sentimos em casa”. Tanto que as experimentações fazem parte do cotidiano do local. “Numa madrugada, colocamos a Paula Nozzari (baterista do De Falla e Os Argonautas) tocando bateria no corredor”.

Uma figurinha carimbada que sempre inventa algo por lá é o enlouquecido de Plato Dvorak. Thomas lembra que, certa vez, Plato entrou no estúdio como quem não queria nada, tocou chaves numa gravação e se foi tão rápido como apareceu. Segundo Gustavo, “Plato não sabe a diferença entre um instrumento e um objeto. Pra ele, tudo é música”.

No meio de tanta gente e investidas criativas, os irmãos Dreher já enfrentaram a ira dos vizinhos. “Já fizemos rock com guitarras, baixo e bateria a todo volume e ninguém reclamou. Quando alguém veio gravar um violino é que a vizinha chiou”, brinca Gustavo. Estes problemas vão acabar em 99, quando os irmãos Dreher preparam uma grande surpresa para os roqueiros da cidade. “Não vamos contar nada pra não atrair o olho grande”, diz Thomas. Enquanto a surpresa não se materializa, Gustavo e Thomas Dreher continuam na Avenida Iguaçu, 485/205. O telefone é 338-5246.

FONTE: Jornal ZERO HORA em 15/11/1998

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