Garagem Hermética: o Cabo Canaveral do rock
Se o Estúdio Dreher é a fábrica maluca de sons, uma casa antiga (com mais de 70 anos de idade, que já foi bordel e pensionato de moças), pintada de cor-de-rosa, localizada na Rua Barros Cassal, 386, pode ser considerada, há seis anos, o Cabo Canaveral do rock gaúcho. Lá está localizada a Garagem Hermética, criada por dois amigos, em 1992: Ricardo Kudla e Leonardo Felipe.
Os dois tocavam em bandas e se ressentiam da falta de espaços para mostrar seus trabalhos em Porto Alegre. “Na época, o Ocidente estava deixando de fazer shows e o Porto de Elis fechava suas portas”, recorda Kudla. Sua intenção era de criar um espaço alternativo que abarcasse todas as manifestações culturais da cidade. “Nossa prioridade era fazer um bar que tivesse espaço democrático para shows, onde qualquer banda de qualquer estilo pudesse se apresentar”, diz. O primeiro show da Garagem foi da Graforréia Xilarmônica, que retornava aos palcos da cidade. Logo, o espaço se tornou ponto de referência para a cena underground. Nesta linha, foram desenhados projetos como o “Hermético Programa de Garagem”, “Sanguinho Novo” e “Segunda 1,99”, além do troféu Garagito aos melhores do ano. Neste período de seis anos, a Garagem Hermética abrigou o que há de mais novo e moderno na música. Passaram por lá De Falla, Ultramen, Os Argonautas, Plato Dvorak e suas bandas Levecraft e os Shazams, além de A Lavanderia Psicodélica de Charlie Chan, do jornalista Jimi Joe, entre outros.
Num ambiente efervescente como este, aconteceram vários lances bizarros. Ricardo Kudla lembra uma passagem em que um grupo fazia show e um casal subiu ao palco e, no afã de curtir ainda mais a noite, resolveu tirar a roupa. A “performance” não havia sido combinada. Nem sempre o espaço se presta para situações como esta. “Não permitimos o uso de drogas aqui na Garagem”, lembra Leonardo. Salienta que, devido ao clima festivo, as pessoas acham que podem fazer o que querem por lá.
Fonte: Correio do Povo, em 15/11/1998

