[RELEASE] O Papel dos Fanzines na Divulgação do Rock Gaúcho nos Anos 80

Os fanzines foram cruciais para a cena underground.

Fanzine da loja de discos SOUND & VISION

Antes da internet, das redes sociais e dos algoritmos, a informação musical no Brasil fluía por um caminho muito mais artesanal e, por isso mesmo, mais visceral. No Rio Grande do Sul dos anos 80, enquanto o rock nacional explodia nas rádios com o pop rock de Brasília e São Paulo, uma cena paralela, crua e genial fervia nos porões de Porto Alegre. Mas como saber o que estava acontecendo? Como descobrir a data do próximo show da banda que você ouviu falar na esquina? A resposta, para uma geração inteira, estava em páginas xerocadas, grampeadas e distribuídas em sebos e shows: os fanzines.

Neste artigo do Relicário do Rock Gaúcho, vamos mergulhar no universo dessas publicações underground que não apenas documentaram, mas foram o motor de divulgação e crítica do rock gaúcho na década de 1980.

O Que Era o Fanzine e Por Que Ele Era Essencial?

O termo “fanzine” vem do inglês “fanatic magazine” (revista de fã). Mas, na Porto Alegre dos anos 80, o conceito foi muito além do mero fã-clube. Eram publicações independentes, feitas à mão ou com máquinas de escrever, reproduzidas em mimeógrafos ou fotocopiadoras baratas. A tiragem raramente passava de algumas centenas de cópias, mas cada exemplar circulava de mão em mão até se desfazer.

Para a cena do rock gaúcho, o fanzine era o único veículo que levava a sério as bandas locais. Enquanto a grande imprensa ignorava solenemente os shows no Ocidente ou no Bar Opinião, os fanzines traziam resenhas detalhadas, entrevistas longas e profundas, e letras de músicas que nunca tocariam no rádio. Eles criavam uma rede de comunicação que conectava bandas, produtores e o pequeno público que consumia a música pesada e experimental feita no estado.

Principais Publicações e Seus Guardiões

Não era um movimento unificado, mas sim um arquipélago de iniciativas. Alguns títulos se destacaram pela regularidade e qualidade. O fanzine SP/70, por exemplo, era um dos mais respeitados, com uma pegada mais voltada ao punk e hardcore. Já o Ruído (que mais tarde viraria um programa de rádio) era conhecido por suas resenhas ácidas e pela defesa ferrenha da cena local.

Nomes como o de Carlos Eduardo Miranda (que depois se tornaria um famoso produtor e A&R), antes da fama, já escreviam e editavam publicações independentes. Esses editores eram, na verdade, os verdadeiros “influenciadores” da época. Eles detinham o poder de legitimar uma banda. Uma resenha positiva no fanzine certo poderia lotar um show no fim de semana seguinte. A curadoria era feita na base da paixão e do financiamento próprio, com dinheiro do bolso do próprio editor, que muitas vezes também era o diagramador, o vendedor e o principal articulista.

A Estética Xerocada e o Conteúdo Ácido

Entrevista do Edu K em Fanzine

Havia uma estética própria nos fanzines gaúchos. A capa, muitas vezes, era um desenho expressionista feito com caneta nanquim, e o miolo era uma colagem de recortes, tipografias diferentes e muitas vezes ilegíveis de propósito. Essa “sujeira” visual não era um defeito; era uma declaração de princípios. Era a antítese da produção limpa das revistas comerciais como a Bizz.

O conteúdo editorial era igualmente direto. Não havia espaço para meias-palavras. As brigas entre cenas (punk vs. metal, por exemplo) eram travadas nas páginas desses zines. Era comum ver editoriais inflamados criticando bandas que “vendiam o som” ou elogiando um disco independente que ninguém mais tinha coragem de lançar. Essa linguagem crua ajudou a forjar a identidade do underground porto-alegrense, criando um senso de pertencimento e exclusividade que fortaleceu a cena.

A Ponte Para o Mundo e o Legado

Os fanzines também eram a janela para o mundo. Através de trocas postais (os famosos “trades”), editores gaúchos recebiam fanzines da Europa, EUA e de outros estados brasileiros. Essa troca de informação trazia novidades sobre bandas como Sepultura (de BH) e, principalmente, alimentava a cena com referências do pós-punk e hardcore americano. Essa ponte cultural foi fundamental para que o som produzido no Rio Grande do Sul não ficasse defasado ou isolado.

O legado dessas publicações é imenso. Se hoje temos o Relicário do Rock Gaúcho resgatando a memória da cena, é graças ao trabalho arqueológico que os fanzines fizeram na época. Eles foram os primeiros a registrar a história, a arquivar fotos e a documentar a discografia de bandas que hoje são lendas. Quando vemos um registro de show da banda Defalla ou um release da Graforréia Xilarmônica, estamos olhando para a consequência direta daquele esforço inicial.

O Fim da Era e o Início do Arquivo

Peek-a-boo, zine e comics, primeira edição, Porto Alegre

Com a chegada da década de 90, os fanzines começaram a perder espaço para as revistas profissionalizadas, como a Rock Brigade, e, mais tarde, para as primeiras listas de discussão na internet. No entanto, quando as últimas edições saíram de circulação, eles deixaram um vazio que demorou a ser preenchido. A informação, que antes era quente e urgente, tornou-se escassa novamente.

Hoje, esses fanzines sobrevivem em acervos particulares, empoeirados em caixas de colecionadores ou digitalizados em arquivos como o nosso. Eles são a prova material de que a cena do rock gaúcho nos anos 80 não foi um acaso, mas sim o resultado de um trabalho apaixonado e coletivo de divulgação, que usava uma fotocopiadora como arma e a cola branca como combustível.

Conclusão

O papel dos fanzines na divulgação do rock gaúcho nos anos 80 é inegável. Eles foram mais do que meros veículos de divulgação; foram agentes de transformação cultural, formadores de opinião e arquitetos de uma comunidade. Em um período pré-digital, eles criaram um ecossistema de informação que permitiu que a música feita em Porto Alegre e no interior do estado encontrasse seu público e seu valor.

Para quem viveu, era a emoção de comprar o zine novo no show. Para quem não viveu, fica o registro de uma época em que a paixão pelo rock era medida pela disposição de sentar, escrever, xerocar e distribuir a palavra, mesmo que a palavra fosse impressa em papel barato e com tinta que borrava. Eles são, sem dúvida, a pedra fundamental do nosso acervo cultural.

Se você tem um fanzine antigo guardado ou histórias da cena, compartilhe com o Relicário. Sua memória é parte da nossa história.

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