[PRESS] Os Titulares do Rock Sulista (1997)

Em 1997, a ZERO HORA no 2º Caderno dominical, publicou esta ‘matéria de capa’, sobre 67 álbuns (de pop e de rock gaúcho) votados por músicos e jornalistas na eleição que definiu os titulares do pop rock sulista naquele ano. Onze discos se destacaram na apuração. Com quatro votos, Paralelo 30 liderou isolado. Outros dez álbuns empataram com três votos cada, ocupando a 124ª posição. Confira os depoimentos dos artistas que integram os 11 mais votados, a lista dos melhores pelo conjunto da obra e, na sequência, as 10 músicas mais lembradas.

Transcrição na íntegra, fotos em detalhes no final.

 


O DeFalla foi o grande vencedor, Vitor Ramil fez dobradinha e uma coletânea entrou na lista dos discos mais votados na eleição proposta por Zero Hora para os melhores trabalhos do pop rock gaúcho. Sessenta e sete diferentes obras receberam votos. Onze delas se destacaram. Depois de Paralelo 30 (quatro votos), 10 discos ficaram empatados naquela que seria a 124 posição, com três votos cada.

Para não fazer injustiça aos artistas que receberam votos para diferentes trabalhos, foi feita uma contagem paralela, de conjunto da obra. Novamente o DeFalla, com 16 votos, obtidos da soma de três álbuns – DeFalla 1 e 2 e Kingzobullshitbackinfulleffect92 – ficou na primeiro colocação. Nei Lisboa teve quatro discos destacados Pra Viajar…, Carecas da Jamaica, Amém e Hein? – e somou 15 votos. A novidade é a inclusão de Bebeto Alves na parada, pela soma dos votos de seis álbuns: Bebeto Alves, Noticia Urgente, Pegadas, Paisagem. Nove Pais e De Aço e Algodão.

 

Confira abaixo os depoimentos dos artistas que tiveram seu discos entre os 11 vencedores e a lista dos melhores pelo conjunto da obra e, na próxima página, as 10 músicas mais votadas.

 


 

  • “Tivemos uma grande sorte no Defalla. Primeiro por termos sido contratados pela BMG, porque nosso show era muito estranho. Claudinho Pereira foi um cara que nos deu muita força. Depois por pegarmos um produtor muito legal, o Reinaldo Barriga, que nos garantiu total liberdade. Ele teve a ideia de mostrar o disco todo pronto para os executivos da gravadora, para que eles não pudessem interferir na produção. Era muita doideira. Gravamos muitas coisas na rua e sampleamos nas músicas. O Sady, do Nenhum de Nós, canta ‘Me Dê Motivo‘ numa faixa, imitando o Tim Maia. O técnico de som era um velhinho que tinha gravado discos dos Mutantes. Como o Carlo Pianta saiu do Defalla um pouco antes da gravação, este disco também é uma coletânea de várias bandas, nas quais tocavam o Castor e o Flávio.” (Edu K, vocalista do Defalla)

 

  • “O Liverpool abriu a porta e o Bixo entrou com tudo. O Bixo da Seda era mais roll, era maduro. Já tínhamos o domínio da composição. Gravamos o primeiro disco no sítio do Renato Ladeira, no Rio. Ficamos uns 15 dias fazendo as músicas. Vivíamos numa comunidade, compúnhamos embaixo de árvores. Gravamos rapidamente no estúdio, pois já tínhamos o aprendizado. A intenção era fazer o som como nos shows ao vivo. O Liverpool foi uma maravilha. Era o início da minha vida. O Liverpool ensaiava muito, éramos todos muito dedicados:’ (Fughetti Luz, vocalista das bandas Liverpool e Bixo da Seda)

 

  • “Fomos para São Paulo com medo: tínhamos certeza que os caras da gravadora tentariam limpar o som da banda. E combinamos que o disco poderia ser tudo, menos limpo. Mas o Maluly e o Barriga (os produtores da gravadora BMG), depois de ouvirem algumas fitas de punk rock (gênero que não conheciam), acabaram compreendendo o que queríamos e nos ajudaram. O mais surpreendente é que, ouvindo hoje O Futuro é Vórtex, fica evidente que a guitarra distorcida, o vocal gritado, a bateria mais torta do que reta e o baixo trastejado combinaram-se para formar um disco límpido, quase cristalino, em sua pureza de sons e intenções. E nem as censuras da gravadora (que apagou “Eu quero que o Caetano vá pra puta que pariu“) e do governo (que proibiu a execução pública de outras três faixas) conseguiram retirar do disco o seu caráter adolescente, rebelde (sempre com causa) e, no fundo, muito romântico. O resto é história, escrita por todos os que ouviram o disco e decidiram que também poderiam fazer música. E fizeram.” (Carlos Gerbase, Os Replicantes)

 

  • “Não é nosso melhor disco, mas eu gosto do Revolta dos Dândis. Lembro que gravamos das 8h às 14h, e minha voz ficou horrível. Era de quem tinha dormido pouco. O Pitz, que era baixista, tinha saído e ensaiei tocando baixo com o Maltz. Gostei tanto que acabamos chamando um guitarrista para a banda. Quando lembro deste disco vem a imagem de um baixo Rickenbaker.” (Humberto Gessinger, vocalista e baixista dos Engenheiros do Hawaii)

 

  • “Acho muito legal ter sido lembrado. O Pra Viajar no Cosmos não Precisa Gasolina foi um disco que fugiu do meu controle. Se tornou ícone de uma época, por mais localizada que tenha sido. Eu gosto mais de outros trabalhos que fiz, mas este disco acabou tendo um significado maior sobre as pessoas. É um registro de um bando de gente. Tem um caráter muito coletivo, até porque foi feito através da arrecadação de bônus. Eu tive ainda a colaboração muito importante do Augustinho Licks e também do Glauco. Sagebin.” (Nei Lisboa)

 

  • “O primeiro álbum dos Almôndegas tem um repertório muito pensado e refletido. Tínhamos o desejo de criar uma música nova e a coragem de propor uma sonoridade diferente para o Brasil. Percebemos na época que havia um tipo novo, o gaúcho moderno, que amava seu Estado e buscava novidades. Infelizmente chegamos antes do nosso tempo e não tivemos a penetração esperada. E o disco, apesar de bom musicalmente, tinha más condições técnicas. Mas foi a plataforma para nossas carreiras.” (Kleiton Ramil, violinista e violonista dos Almôndegas)

 

  • “Saracura foi um disco independente lançado logo depois do Juntos, do Nélson. Naquela época, ser independente era entrar na terra de ninguém. Mas fizemos muitos shows e bancamos o disco. O Ayres Pothoff produziu e eu dei uma ajuda. Nós mesmos divulgamos o disco, com a força do Careca da Silva. Saracura foi um disco independente lançado logo depois do Juntos, do Nélson. Naquela época, ser independente era entrar na terra de ninguém. Mas fizemos muitos shows e bancamos o disco. O Ayres Pothoff produziu e eu dei uma ajuda. Nós mesmos divulgamos o disco, com a força do Careca da Silva. Tínhamos muito material, nossos shows eram viajandões, mas acabamos optando por faixas mais pop na hora da gravação. O álbum teria 10 músicas, mas duas foram vetadas: uma pelo próprio autor, o Nei Duclós, outra pela censura, porque falava da história de um homossexual, o Alfredo.” (Fernando Pezão, baterista do Saracura)

 

  • “Quando fiz o ‘Paixão de V‘ queria mexer com as questões formais da música. Abri meu leque de opções e fiz um disco amplo, de grande esforço. Era um projeto sério e ambicioso, intimista e porra-louca, cheio de coisas catárticas. Tango é um disco mais pensado, de uma época em que decidi romper com meus parceiros e me dediquei a fazer letras e músicas boas. O time que toca no álbum é concentrado e excelente, e também há menos músicas?’ (Vitor Ramil)

 

  • Paralelo 30 é uma coletânea de músicos muito identificados com Porto Alegre: Bebeto Alves, Cadinhos Hartlieb, Nélson Coelho de Castro, Nando D’Ávila, Cláudio Vera Cruz e Raul Elwanger. É um trabalho superpop, acústico e universal. Foi gravado numa mesa nova adquirida pela gravadora Isaec, na época em que o Geraldo Flach estava assumindo como diretor artístico. Eu fui fazer uma matéria sobre a nova mesa, de 24 canais, e acabei propondo o disco. Depois de lançá-lo, fui ao Rio e a São Paulo para divulgá-lo. O disco teve uma ótima repercussão na crítica?’ (Juarez Fonseca, produtor da coletânea)

 


 

QUEM VOTOU

São 35 nomes, entre músicos, jornalistas e produtores

Alemão Ronaldo (Bandaliera), Pery Souza (ex-Almondegas), Arthur de Faria (músico e jornalista), Frank Jorge (Graforréia Xilarmónica), Bebeto Alves (músico), Cau Hafner (Cidadão Quem), Carlos Gerbase (Replicantes), Marcelo Birck (Aristóteles de Ananias Jr) Jimi Joe (músico e jornalista), Thedy Corrêa (Nenhum de Nós), Carlos Eduardo Miranda (musico e produtor), Fernando Pezão (Papas da Língua), Nico Nicolaiewsky (músico), Hique Gomes (musico), Edu K (De Falla), Júlio Reny (músico), Wander Wildner (Repficantes), Ricardo Cordeiro (Garotos da Rua), Egisto (Colarinhos Caóticos). Nei Lisboa (músico). Luiz Henrique “Tchê” (Bandaliera), Nelson Coelho de Castro (musico), Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii), Fughetti Luz (músico), Kleiton Ramil (músico), Marcelo Ferla (jornalista), Juarez Fonseca (jornalista), Gilmar Eitelvein (jornalista), Tonho Meira (produtor), Luiz Paulo Fedrizzi (produtor), Carlos Branco (produtor), Kátia Suman (radialista), Mary Mezzari (radialista), Mauro Borba (radialista), Thadeu Malta (radialista).

 

CONJUNTO DA OBRA

Confira os artistas com maior número de votos para melhor disco

  1. De Falla 16 votos
  2. Nei Lisboa 15 votos
  3. Vitor Ramil 14 votos
  4. Almondegas 12
  5. Bixo da Seda 10 votos
  6. Replicantes 10 votos
  7. Bebeto Alves 8 votos
  8. Engenheiros do Havaií 7 votos
  9. Saracura 7 votos
  10. Liverpool 6 votos

 

 


 

 

 

 

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