[PRESS] Música: DEFALLA um ano depois (1989)

DeFalla um ano depois

É algo no ar, além de discos-voadores e poluição, que prenuncia que o grupo DeFalla não fará um show normal, dentro do normal ao qual nos habituamos. Hoje à noite, 21h30min, no Teatro Presidente, a banda liderada pelo irrotulável vocalista Edu K. faz, para começar, o primeiro show fora da antiga gravadora, a BMG, executada pelo quarteto gaúcho, com a qual rescindiram contrato recentemente. O motivo a maioria daqueles que seguem a trajetória do grupo já conhece: o descaso dispensado à banda no tratamento promocional a ambos os discos já lançados que, somados, chegam a cerca de insignificantes nove mil cópias vendidas.

É pouquíssimo, levando-se em conta as críticas amplamente favoráveis que os dois discos mereceram por parte de toda a crítica brasileira, que viu no trabalho do grupo — que tem Biba Meira na bateria, Castor Daudt na guitarra e segunda bateria, e Flávio Santos no baixo — o sopro mais vigoroso sobre o patético rock nacional dos últimos anos. Rasgações à parte, Edu K. traduz seu sentimento de revolta inspirado pelo tratamento dado ao DeFalla.

Eles não sabem como trabalhar com rock, embora nunca tenhamos sido discriminados em função de nossa linha de trabalho ou eles se preocupassem com o assunto, dentro da gravadora. Isso acontece também com os Engenheiros do Hawaii e com o Nenhum de Nós, que vendem bem porque já têm um trabalho embaladinho, pronto. É uma gravadora voltada para o brega, que é mais simples de trabalhar e tem todo o jabá à disposição para colocar as músicas nas rádios.

Fora do esquema

Talvez eles nem tivessem vendido aquele número de cópias se não fosse a iniciativa de divulgar os discos na base do boca-a-boca — de maneira, pode-se dizer, independente, mesmo integrantes do cast de uma gravadora multinacional, com verba específica para isso. Agora fora do esquema (ou da falta de um) da BMG e com duas gravadoras interessadas em contratá-los (EMI e WEA), eles não pretendem se lançar de forma independente e Edu K. nega que o fato sirva de motivo para se pensar dissolução.

O segundo motivo que dá a entender que esta apresentação do DeFalla será “histórica” — afastados profissionalmente há um ano de Porto Alegre, dividindo o tempo entre Rio e São Paulo —, este será um show de lançamento do segundo LP com gostinho de pré-lançamento do terceiro, que poderá ser gravado ao vivo, mas não agora. É isso mesmo. Segundo informa o Edu K., neste show vão ser apresentadas pelo menos quatro novas músicas, menos funk no estilo, e muito, mas muito mais hard-rock puro. São elas: Fucchin’ a wall (inspirada no caso verídico de um rapaz que teve seu órgão genital preso num cano de piscina), Tasmanian devil, Crazy weight e Useless babe. Tudo em inglês, porque a tendência das letras é cada vez mais pornográfica.

Outro indicador do que o DeFalla aprontará no palco, em máximo volume, são os covers que pretendem executar como Paradise City, I used to love her but I had to kill her, todas de sua banda preferida do momento, o Guns N’Roses, além de Shout at the devil, do Mötley Crüe, dois grupos de Los Angeles. Para carregar mais no peso, participa como músico convidado o guitarrista Marcelo Truda. Vento Norte no som; Wander Wildner na luz e Lado Inverso na realização, com Kanto Kente e Video Hair no apoio.

Por LUIZ PAULO SANTOS
Editoria 2º Caderno/ZH


DeFalla um ano depois – Lodaçal imprevisível

Não causa nenhuma surpresa o fato de o DeFalla ter decidido romper o contrato com a BMG-Ariola, alegando descaso na divulgação de seu trabalho. Posso estar enganado, mas acho que dificilmente a banda encontrará uma gravadora que atenda suas exigências promocionais. Dos grupos brasileiros de rock que chegaram ao disco, o DeFalla é o mais radical de todos e aí começam as dificuldades.

As filiais matosas das gravadoras não estão “aparelhadas” para administrar um tipo de música/comportamento que escape ao seu controle. Os Replicantes também é uma banda gaúcha, teoricamente radical, que grava para o mesmo selo onde estava o DeFalla até a semana passada. Com eles não há problema, em primeiro lugar porque não parecem pretender promoção diferenciada e, em segundo, porque seu som é previsível. Já com o DeFalla, nunca se sabe o que poderá acontecer amanhã. Tentar entender seus projetos equivale a entrar num lodacal. Prova disso são os dois LPs que gravou. Não há rótulo que o grupo possa merecer para identificá-lo. Não há compartimento em que se possa deter sua vertigem.

O DeFalla desestabiliza o raciocínio ilógico dos executivos das gravadoras e por isso, enquanto for como é, sempre vai causar problemas e desconfianças. Não interessa às gravadoras que uma música como a do DeFalla seja um tufão de anarquia e vitalidade no rock brasileiro. Elas não estão preocupadas com história ou com significações semiológicas. Querem levar uma vida tranquila. E o DeFalla é a museus na soja, é a escassez total do colfoto e dá vaselina, é o exílio das orelhas ensandecidas e aflitas atrás do último grito. Mas pensando bem, pra que gravadora? É legal ser uma banda “cult”? Será que Edu K. pensa mesmo em conquistar o mundo?

(JUAREZ FONSECA)


Edu K., Castor, Biba e Flávio

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