Julio Reny & Expresso Oriente
Oasis das canções de amor e morte
No programa Negras Melodias, que vai ao ar pela Rádio Ipanema de Porto Alegre, um misterioso locutor denominado D.J.R. dedica parte de seu tempo às mulheres, às suas musas, às fêmeas gaúchas. No palco, esse D.J.R. se transforma em Júlio Reny. E para cada pedido de autógrafo segue-se mais um poema, criado assim, na hora. “Eu sou apenas um gigolô brasileiro / Meu terno é escuro, meus olhos são tristes / Tenho foto no arquivo policial, e às vezes não funcionam no amor…“, diz a letra de “Garota do Carro Vermelho“, uma auto apresentação para mais uma lady que passa, e põe a sensível epiderme do poeta à prova.
Há mais de dez anos Júlio passeia pelas ruas de Porto Alegre levando suas homenagens – canções simples, em ritmo ebulitivo, temperadas com os tons sutis e fulgurantes de um oriente desértico e interminável. Júlio toca para os corações, e é praticamente desconhecido fora de seu universo. Numa entrevista concedida a um fanzine local, ele responde à pergunta: “Por que você não grava um disco independente?” “Acho um desperdício de material humano e de ideias. As pessoas merecem ter meu disco gravado por uma gravadora com todas as condições de distribuição, divulgação e gravação.” A isso junta-se o conceito que Júlio tem de um disco: “Ele vai ser colocado no subúrbio“, diz. E, lembrando-se de Marvin Gaye: “Se não tiver arranjo de cordas, como o guri vai sentir aquele calafrio quando aperta a garota dele? Você está mexendo com algo onde outras pessoas já fizeram coisas maravilhosas. Então você tem que se curvar ao fazer um disco. Ele é para vender mesmo, atingir o coração das pessoas...”
“Eu tenho uma tenda e uma pele de tigre / Não vou lhe contar o que me aconteceu / E por que resolvi ficar aqui / Só poderia te prometer / As estrelas lá no alto e as noites no deserto...” Assim Júlio encerra mais um verso. “O oriente que eu tenho na minha cabeça é o kitsch de Hollywood. Um lugar para onde eu fujo comigo mesmo quando a barra pesa. Como aquele pintor francês (não me lembro o nome) que pintava selvas oníricas dentro de seu apartamento, sem nunca tê-las visto”.
Acompanhando Júlio, o Expresso Oriente, mostra viva dos naipes mais valiosos da música gaúcha: Jimi Joe (também Athaualpa y os Panques, guitarra), Carlo Pianta (ex-DeFalla, baixo), Vasco Piva (sax alto) e Carlos Magno (ex-Cócicx, bateria), mais o vocal e guitarra de Júlio e uma percussão substanciosa.
“Não chores Lola / Um coração partido não é o fim.” “Eu me sinto, nesse ponto, como um cantor de blues. Acho que, aconteça o que acontecer, o amor sempre será a droga que vai mover o mundo e ninguém pode fugir disso. Acho que estou indo ao centro da questão, sem maiores preâmbulos. Essa é minha missão.”
Que as deusas o abençoem!
Fonte: Revista BIZZ, 10 de fevereiro de 1988, por Sônia Maia
