[PRESS] Bebeto Alves – Estreia no Teatro Ipanema [1982]

Transcrição da matéria publicada no jornal O GLOBO, segunda-feira, 26/04/1982, página 17 (leitura facilitada).


Bebeto Alves e seu grupo gaúcho estreiam hoje no Teatro Ipanema ‘Notícia Urgente’.

Bebeto Alves promete revelar em seu show ‘um Lupicínio Rodrigues pouco conhecido dos Cariocas’


A primeira ideia foi a de fazer um passeio pela praia de Ipanema, com todo mundo a cavalo e e vestido a caráter, de botas. bombachas e chapéus. A segunda ideia, um pouco mais modesta, era a de amarrar uma cavalhada na porta do Teatro Ipanema, em plena Rua Prudente de Morais. Mas corno a verba reduzida da produção vetou sumariamente “esses folclores que o carioca adora”, Bebeto Alves e seus oito convidados – todos gaúchos. como ele – vão transformar o Teatro Ipanema numa espécie de ‘galpão do pampa’ só com a torça de seu Canto e seus instrumentos.

De hoje até 1 de maio ele estará às 18h30m naquele teatro com seu show “Noticia Urgente” e a disposição de mostrar ‘não um movimento, que nem tem espaço na música popular para isso, hoje em dia, mas a emergência cultural e musical gaúcha.”

Para isso. ele conta com seu repertório “muito gaúcho mesmo. ortodoxo, fronteiriço”, divulgado em parte no seu disco de estreia, lançado no ano passado, o acompanhamento de uma banda quase toda de conterrâneos – Mimi (Lessa) na guitarra, Marquinhos (Lessa) no baixo, Edinho (Espíndola) na bateria, Paulo Machado nos teclados e Sergio Boré na percussão – e o apoio de vários convidados especiais, que se apresentarão um em cada dia: Jeronimo Jardim (o autor de “Purpurina”) na segunda (quando o show é as 21 horas), Raul Ellwanger e Nana Chaves na terça. Kleiton e Kledir na quarta, Mónica Schimdt na quinta, Loma na sexta e Mauro Kwitko no sábado.

– Eu sinto que não estou sozinho, que são sou só eu – diz Bebeto. Há toda uma geração de músicos e de cantores com quem me sinto inteiramente integrado. Por isso fiz questão de que todo mundo viesse para o palco comigo. Nós gostamos mesmo de lazer esses mutirões juntos, e depois está tudo difícil para todo mundo, então não custa nada estender a mão, não é?

Nascido em Uruguaiana há 27 anos, Bebeto começou sua carreira de músico e compositor em Porto Alegre, no inicio dos anos 70, tocando rock como a maior parte de sua geração. Seu grupo chamava-se Utopia e tinha “um som pop bem lisérgico mesmo, uma loucura”. Em 78, depois de participar de uma notável antologia de música do Rio Grande, o LP Independente “Paralelo 30”. o Utopia desfez-se e Bebeto começou a reformular inteiramente seu trabalho:

– Comecei a pensar muito seriamente no que eu era, o que eu queria ser. Fui limpando minha cabeça, limpando meu trabalho de tanta influência e. depois que tirei tudo apareceu minha infância. o rádio do meu pai tocando música argentina. os programas sertanejos. Redescobri a mitonga, que hoje é a essência do que eu faço, e que não é nem um ritmo, é um sentimento, um modo de cantar.

Com esse trabalho novo Bebeto subiu para São Paulo em 80 e, no ano seguinte, já estava no Rio participando do festival MPB-81 com a música “Kraft mesmo’ e gravando seu primeiro LP individual. Esse material, e mais toda a produção dos últimos meses no Rio estará no show “Noticia urgente”, que promete também a surpresa de um Lupicínio Rodrigues pouco conhecido dos cariocas – o Lupicínio regional, gauchesco, que compôs “Felicidade” não como a lenta canção que Caetano gravou, mas como o ágil xote que Bebeto Alves cantará no Teatro Ipanema.

– Descobrir Lupicínio para mim foi como descobrir a mim mesmo. Como candidato ã MPB – que eu sou – precisava me situar, saber se o que fazia era novo ou não, de onde vinha. E. ao descobrir Lupicinio, vi que não era nada novo. era sé desconhecido. Muito antes de mim ele já tinha feito tudo o que eu queria fazer, com o mesmo sentimento.

 


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