“Dia histórico para o rock gaúcho” prenunciava o 2º Caderno de 11 de setembro de 1985 sobre o festival Rock Unificado. Não era para menos: o show foi a semente que deu origem ao álbum Rock Grande do Sul, disco que colocaria o rock gaúcho no mapa da indústria musical brasileira.
O FESTIVAL ROCK UNIFICADO estabeleceu um novo marco para o rock produzido aqui, entra para a história do rock gaúcho e passa a ser um divisor de águas, assim como foi o Rock Garagem, do ano passado (1984) (que gravou pela primeira vez dez bandas e vendeu mais de dez mil cópias). No Festival foram novamente dez bandas. O público foi record para evento local, novamente mais de dez mil pessoas, 4 horas de música com as bandas Prize, Engenheiros do Hawaií, TNT, Astaroth, Banda de banda, Julio Reny & KM0, Os Eles, Garotos da Rua e Replicantes.
Transcrição na íntegra:
Rock gaúcho lota o Gigantinho
O público bateu recordes
O Festival Unificado estabeleceu um novo marco para o rock produzido aqui
A “suspeita” se confirmou: o Festival Unificado entra para a história do rock gaúcho e passa a ser um novo divisor de águas, assim como foi o disco Rock Garagem, do ano passado (que gravou pela primeira vez dez bandas e vendeu mais de dez mil cópias). O número 10 estava presente também quarta-feira no Gigantinho. Foram novamente dez bandas, e o público, recorde em termos de Porto Alegre em shows com ingresso pago, ultrapassou as dez mil pessoas. Uma garotada empolgante, que vibrou e dançou com suas bandas preferidas durante quase quatro horas. Todas as facções – ou tendências – do rock gaúcho estavam representadas: Taranatirica, Prize, Engenheiros do Hawaii, TNT, Astaroth, Banda de Banda, Júlio Reny & KM Zero, Os Eles, Garotos da Rua e Replicantes.
Algumas dessas bandas provaram mais uma vez estarem prontinhas para excursionar pelo Brasil, porque são, inclusive, melhores e mais originais do que muitas que andam fazendo sucesso por aí. Nosso rock tem uma personalidade diferente daquele feito no centro do País, e esse é um dos seus cacifes. O acontecimento do Gigantinho mostrou que a história já tem um ponto de partida bem forte, porque nunca antes a cidade viveu uma movimentação rockeira tão definida. Não falta sequer o atributo prévio essencial da qualidade, que é a quantidade – quanto mais melhor, para a seleção natural. Nesse caso, o público está tendo e terá uma participação muito importante, porque identificar-se com estas ou aquelas bandas faz parte do processo.
Paralelamente a isso, hoje Porto Alegre já tem algo que há até pouco tempo não tinha, que é infraestrutura técnica. Ao lado disso, também, a coragem de algumas pessoas em pensar alto, saindo da “coitadice” e do eterno “espero-que-me-ajudem”, que nunca levou a nada. A ideia do Unificado, que recebeu imediato apoio da Rádio Atlântida FM, deu tão certo e empolgou tanto os produtores, que na quarta-feira mesmo eles anunciaram ao microfone a realização do segundo festival em setembro do ano que vem. No caso da infra-estrutura técnica, o festival mostrou que as condições são a cada dia melhores. O equipamento de som de Bugo Silveira preencheu os espaços do Gigantinho com a potência necessária (nenhum grupo de rock do centro mostrou som superior) e foi também operado com competência pelo próprio Bugo. A iluminação de Gerry Marquez foi a melhor que o rock daqui já teve assim em um grande espaço. Gerry cobriu o palco de luz, usando inclusive canhões colocados (inédito) em duas torres.
Por tudo isso, o ótimo público que estava no Gigantinho teve a mesma sensação de quando assiste a um grande show nacional. Tanto em termos de produção como de clima, astral, acontecimento. Não vou falar de cada uma das bandas, mas digo que reafirmei algumas impressões que já tinha. Os grupos mais completos e com segurança de trabalho são Taranatirica, Garotos da Rua, Astaroth e Replicantes (não necessariamente nessa ordem). O Tara é a impulsão, o peso redondo, a força. Astaroth é disparado o nome do heavy-metal aqui, inclusive com uma impactante mise-en-scène e domínio de palco, porrada mesmo desde o visual típico. Os Garotos fizeram a melhor apresentação que já assisti deles, com seu rock básico enxutíssimo, energético e envolvente, popular. E Os Replicantes é hoje talvez a banda mais curtida da cidade, com seu punk corrosivo e altamente personal. Mas também Os Eles tem evoluído bastante – só lhe falta um pouco mais de decisão de palco, quem sabe, de opção final pelo rock.
Mas o público indicou que gosta muito de sua música. Como detalhe, quero chamar a atenção para a guitarra de Edu K., do KM Zero e o DeFalla, que está cada dia melhor e mais fulminante. E dar parabéns ao Unificado e ao produtor executivo Peixoto, que conseguiram materializar esse novo divisor de águas.
Esta matéria foi publicada após o show, no jornal ZERO HORA, dia 14 de setembro de 1985.

Respostas de 4
O 1° Rock Unificado teve livreto?
Teve, está no link: https://www.relicariodorockgaucho.com/1985-09-11-ru/
O 1° Rock Unificado não teve livreto? Lembro de ter o livreto do II e do III, mas não lembro de ter do I
Teve, está no link: https://www.relicariodorockgaucho.com/1985-09-11-ru/