GUETOS DA ESQUINA MALDITA

O lado obscuro da Banda Byzarro não estava apenas associado à sua sonoridade. Eles (e outras pessoas) costumavam frequentar a “esquina maldita”, tradicional reduto boêmio na década de 70, escondido entre a Rua Sarmento Leite e a Av. Osvaldo Aranha, bem próximo ao Campus da UFRGS. No local, havia três bares, os mais destacados eram o Alaska e o Mariós. Sem uma cena constituída em Porto Alegre, os dois botecos serviam de ponto de encontros de boêmios, artistas, reacionários, roqueiros e simpatizantes de outras tribos. Esses locais não sediavam shows de Rock, que geralmente aconteciam de forma coletiva no Araújo Vianna e em teatros.
O Alaska, bastante frequentado por militantes de esquerda, resistiu bem ao tempo e durou até o início da década de 80, de acordo com informações do pesquisador Rogério Ratner. Após a inauguração do Ocidente, em 1980, o movimento migrou mais para aquele lado da Osvaldo Aranha, marcando a decadência da “esquina maldita”.
As experiências do pessoal daquela época iam além dos encontros e bebidas na “esquina maldita”. Foi também quando surgiu como válvula de escape em suas vidas drogas como a maconha, a mescalina e o psicodélico artefato LSD, o alucinógeno da moda no momento.
Mas, Gelson Schneider (Byzarro) também dá uma canja especial sobre o assunto: “Droga era divertimento. Nós tomávamos uma cerveja, um conhaquezinho e cigarrinho para tirar a asma e já estávamos legais. Nós estávamos tão centrados no Rock’n’Roll, que a música já era uma viagem, não precisávamos de droga.”
Eram naqueles guetos que Tatsch (Byzarro) também buscava inspiração. “O cara que cria música não depende, ele domina a droga. É a família que prepara o cara contra as drogas, não venham culpar o Rock por isso”, revela.
O jornalista Juarez Fonseca ainda lembra outro aspecto muito interessante da questão: “Não temos como falar sobre esta época sem citar as drogas. Nos anos 70 era uma época de maconha e também da ‘panca’ (xaropes comercializados em farmácia, que continham álcool e deixavam as pessoas meio grogues). Havia ainda muita coisa de ‘pico’, tipo Pervitin”.
CENSURA

Além das drogas, aliada a todas as dificuldades, outro fator relevante que incomodou a comunidade da época foi a censura imposta pelo regime militar, segundo o escritor Rogério Ratner. A perseguição contra os dissidentes não ocorria apenas em relação aos ativistas políticos, mas também em relação aos jovens que não se ‘enquadravam’ na moral vigente, especialmente aqueles envolvidos com o uso de drogas, ou simplesmente porque eram ‘cabeludos’. “Muita gente foi perseguida pelo seu estilo de vida na ditadura militar, e não foram apenas figuras famosas, que foram bastante visados pela polícia, que ao mesmo tempo era política e de costumes”, descreve Ratner.
De fato, a censura também preocupava os outros rockeiros. “Havia liberdade para criar, embora tivéssemos que dar explicações para a Polícia Federal sobre cada show, cada letra de música. Algumas músicas eles não deixavam passar. Ficava uma pessoa na bilheteria com as letras das músicas carimbadas pela censura e cada músico tinha que ter uma carteirinha da censura. Se não estivesse com aquele documento, não poderia se apresentar no show. Se tocasse alguma música sem autorização, eles mandavam parar o show”, observou Deio Escobar.
Por sua vez, Carlinhos Tatsch afirma que nunca teve problemas com os censores. “A censura às vezes falava: ‘esta letra não vai passar em Brasília, quem sabe tu troca esta palavra por esta’…”, revela o integrante do Byzarro.
“O grande reduto do pessoal eram os shows. Íamos para os shows, mas não tinha aquela rebeldia, a gente ia porque aquilo era contravenção. Ir num show de Rock era contravenção! Nos anos 70 as pessoas não eram rockers, eram ou ovelhas ou contravenção, no bom sentido: usar uma calça boca de sino e cabelo comprido. Usar brinco nos anos 70, quem usava tomava porrada na rua, era preso”, recorda Ivan Zukauskas.
Fonte: Leite, M., Aguiar, L. A., & Torraca, D. (2015). Tá no Sangue! A História do Rock Pesado Gaúcho. Edição dos Autores.
