[ALBUM] Byzarro e o EP encontrado 40 anos depois

BYZARRO

Curiosamente, aqui no Sul, na década de 70, não tivemos nenhuma banda de Rock Pesado que tenha deixado algum registro sonoro, tal qual lá fora, onde havia Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, e muitíssimos outros; o que mais se aproximou foi o Byzarro.

O grupo iniciou suas atividades das cinzas do Prosexo, que se formou em 1968, e recebeu o nome provisório de Bizarro e depois mudando definitivamente para Byzarro.

Incluindo o incomum formato da banda, um power trio, o Byzarro mostrava desde seus primórdios um lustro mais autodidata e o gosto pela experimentação e aproximação com artistas que tinham pegada mais Hard, como Cream e Jimi Hendrix. A banda era formada por Gelson Schneider (bateria), Carlinhos Tatsch (guitarra) e Mário Monteiro (baixo).

O som, pesado para a época, também flertava com o Rock Progressivo e mais tarde com o Jazz Rock, inclusive com sintetizador para guitarra, fabricado pelos componentes do grupo. “O som era pesado e viajante”, classifica Gelson Schneider.

Anos mais tarde, no lugar de Mário Monteiro entra o baixista Mitch Marini. Logo após a entrada de Mitch trocam o nome para Byzarro; essa alternância entre os dois baixistas acontece mais vezes e termina quando Mitch Marini vai morar em Londres e Mário assume definitivamente o lugar de baixista da banda.

Remanescentes do final dos anos 60, o Byzarro alternava suas influências em canções como “Sombras” e “Betelgeus Star”. As melhores e mais furiosas performances do estilo do trio poderiam ser conferidas nos intervalos dos shows nos clubes da cidade e causavam frisson por conta dos instrumentos empunhados pelos músicos.

Mário Monteiro usava um baixo com pedal de distorção e Carlinhos tocava em uma guitarra de dois braços, cujo modelo similar foi confeccionado conjuntamente para o guitarrista Sérgio Dias, do Mutantes, durante visita de ambos à fábrica de instrumentos musicais Giannini, em São Paulo.

Além do visual de guerreiro viking em alguns shows, o baterista Gelson Schneider tornou-se instantaneamente uma atração por suas batidas violentas e imprimindo pequenos discursos nas apresentações como: “Vamos para a quadra”; ou quando uma vez proclamou: “Nós vamos fazer música para vomitar e não para jantar”, recorda Carlinhos Tatsch.

De tanto tocar ao vivo e até abrir shows de bandas mais famosas como Bill Haley & His Comets, e em parte pela ligação de Carlinhos Tatsch com lojas especializadas em instrumentos musicais, o Byzarro tornou-se mais próximo dos seus contemporâneos do Bixo da Seda. “Trabalhei vinte anos na MaRocke e depois fui para a loja Mil Sons. Isto abriu muitas portas no meio musical da época”, salienta Tatsch.

Com todos esses ingredientes, o grupo se transformou em uma espécie de Blue Cheer dos pampas e ganhou rápida reputação nacional após apresentações antológicas ao lado do Bixo da Seda nos festivais de Palhoça, em Santa Catarina, ainda como Prosexo, em 74, e em Praia do Leste, no Paraná, em 75.

Durante estadia no festival paranaense, os integrantes do grupo ficaram no mesmo hotel onde estavam hospedados: o ditador paraguaio Alfredo Stroessner, cercado por seus guarda costas, e Rita Lee, que costumava passear à noite por Praia do Leste com sua jaguatirica.

“O equipamento era gigantesco. Havia dois Marshall para mim e mais dois para o Mário. Aquele hotel virou uma fumaceira”, ressalta Carlinhos.

O Byzarro desde o início realizou a produção dos próprios shows e depois de bem conhecidos, em 1978, os caras fizeram apresentações em dois dias seguidos, com lotação máxima, na Assembleia Legislativa. Tatsch relembra: “Ganhei em dois dias nestes shows mais que em um ano trabalhando e pagamos todo mundo”.

Posteriormente, adicionaram um tecladista (José Prediger), formando um quarteto, para encenação única com o músico convidado no seu espetáculo “Bakaklawata” (título de uma das canções do grupo), no Teatro Leopoldina.

Apesar de não ter a oportunidade de gravar um registro sonoro original na época, o Byzarro fugia às regras e se dava ao luxo de ter local próprio para ensaios, localizado num porão de um antigo estúdio de fotografia na Rua Barros Cassal. “Montamos um estúdio na marra, compramos um gravador de quatro pistas, de rolo, mas de alta qualidade e instalamos em um estúdio em um porão”, acrescenta Tatsch. A banda encerrou suas atividades em 79. Mais tarde, em 1982, Mitch Marini e Schneider criavam a Swing.


ADENDO: Em 2015, na época da publicação do livro A História do Rock Pesado Gaúcho era desconhecido o paradeiro da fita gravada em estúdio da banda Byzarro, na época das gravações da coletânea PORTO ALEGRE ROCK (1984). O áudio abaixo foi resgatado no ano de 2022 do acervo encontrado da Rádio Ipanema, cedido ao Relicário pela Toca do Disco.

 

 


Fonte: Leite, M., Aguiar, L. A., & Torraca, D. (2015). Tá no Sangue! A História do Rock Pesado Gaúcho. Edição dos Autores.

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