[PRESS] O Rock Gaúcho não tem idade – PoA Rock Festival (2018)

O rock gaúcho não tem idade

AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA foi palco do POA Rock, evento que reuniu no domingo nomes históricos do gênero no Estado e bandas novas apresentadas em coletânea

A Redenção abrigou dois grandes eventos no domingo. De um lado, milhares de pessoas se aglomeravam na Parada do Orgulho LGBTI. Do outro, no Auditório Araújo Vianna, a velha guarda e a nova geração do rock gaúcho se apresentaram no POA Rock Festival com mais de 20 bandas e artistas da cena regional – entre eles oito que estão sendo apresentados em um CD, após serem selecionados por edital.

Entre os artistas consagrados, apresentaram-se Claudio Veracruz (Bixo da Seda), Zé Flávio (Almôndegas), Julio Reny e Irish Boys, Frank Jorge, Egisto dal Santo e as bandas Taranatirica, DeFalla e Tenente Cascavel (integrada por ex-membros do TNT e dos Cascavelletes).

Na lista dos novatos, entraram em cena Adrielle Gauer e os grupos Le Batilli, O Mensageiro, Quem é Você Alice?, Radio Russa, Matéria Plástica, Jota Emme Electroacústico e Piratas do Porto.

O festival destacou uma dinâmica afetiva: os mais velhos “apadrinhavam” os mais novos e tocavam ao menos uma música em conjunto. Frank Jorge, por exemplo, tocou Amigo Punk, clássico do rock gaúcho que imortalizou com a Graforréia Xilarmônica, ao lado de Le Batille.

– Hoje, há uma profusão de novas referências para os mais novos, inclusive além do rock, o que acho normal. Muitas bandas têm influências de jazz, MPB e até R&B. O rock não é conservador, não sei por que dizem isso. É o gênero que mais se metamorfoseia – disse Frank.

Após ver o público cantar Amigo Punk de pé e batendo palmas, Leandro Batista Lima, 31 anos, o vocalista de Le Batille, diz que tocar com Frank Jorge foi “a realização de um sonho“. Entre suas referências musicais, ele cita também TNT, Cascavelletes, Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua e até Araketu, além de música instrumental ouvida no Spotify.

– O Frank é um cara muito humilde. A energia fluiu muito bem – destacou Lima.

Outro veterano presente no festival, Edu K elogiou o evento por valorizar a cena local de rock, estilo que, na sua visão, tem como papel social propor o questionamento, mas que deixou de ser mais mainstream.

– Porto Alegre sempre teve diferentes estilos de rock. Os guris (grupos novatos) são afude, abobados que nem eu, têm letras muito boas. Mas o rock perdeu força com a criançada. O funk e o sertanejo são o novo rock. A gente tem que levar para os guris de 10, 12, 14 anos apontarem no colégio. O funk tem putaria, mas não tem a explosão do rock

afirmou Edu, que fez show com faixas de seus trabalhos solos e depois à frente do DeFalla.

Felipe Rodrigues, 33 anos, vocalista da Radio Russa, representa a nova geração do rock gaúcho. Entre as influências musicais para além dos ídolos que estavam no festival, cita até o tango, música que inspirou uma canção do grupo do mesmo nome do gênero musical:

– É sensacional estar no meio desses caras, que fazem o papel de padrinhos. Ainda mais tocando no Araújo, perto da Osvaldo Aranha, que é algo simbólico. Nossa música Campo Afora conversa com Amigo Punk.

 


 

META É REALIZAR FESTIVAL ANUALMENTE

O produtor do POA Rock, Pedro Floss, também responsável pela Serenata Iluminada, diz que o festival será realizado anualmente – sempre selecionando novas bandas por meio de editais e convidando mais artistas consolidados no cenário cultural. Floss, no entanto, lamenta o público menor do que o previsto:

– Alguém hackeou nosso evento no Facebook e o cancelou, aí todo mundo que havia se interessado recebeu a notificação de que não teria mais nada. Isso nos prejudicou, mas vamos ir na polícia e achar o responsável.

O técnico em segurança do trabalho Alex Rodrigues, 41 anos, e a professora Saionara Fonseca, 44 anos, vieram de Gravataí especialmente para conferir Taranatirica, Tenente Cascavel e DeFalla. Casados há 24 anos, refletiram sobre a passagem do tempo ao notarem a média de idade mais alta do público.

– Essas bandas foram o ápice da nossa adolescência. Não dá para deixar o rock morrer – disse Saionara.

– A gente até gosta da nova geração, mas se identifica mais com os veteranos. Sou professora e sinto que a gurizada curte mais rock internacional e menos o que é daqui. O rock me fez pensar muito: olha as letras do Legião Urbana e do Capital Inicial.

A nostalgia também moveu as amigas Ana Cláudia Riffel, 30 anos, e Gabriela Anhais, 29 anos, a assistirem ao festival.

– Esse pessoal fazia muito show no Interior – destacou Ana Cláudia. – Sou de Santo Cristo e todas as bandas da minha cidade só tocam rock gaúcho. O festival está bom, mas faltou Bidê ou Balde, ou Replicantes. Somos fãs da Biba Meira (baterista do DeFalla, que fundou As Batucas, o primeiro grupo de percussão e bateria formado só por mulheres). Acho legal ter as bandas mais novas junto com as mais velhas, para conhecer. Mas é claro que temos uma relação com as mais antigas.

 


 

Fonte: ZERO HORA, 3 de julho de 2018 (printscreen)
MARCEL HARTMANN marcela.hartmann@zerohora.com.br

Frank Jorge (destaque), Alemão Ronaldo (acima) e Julio Reny (abaixo) marcaram presença no palco

 

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