[PRESS] DEFALLA – Crítica sobre show no FUNARTE (1988)

Sabemos todos que o retorno de grana é o que interessa às produtoras, ou seja, quantidade de gente pagando entrada. Para assegurar o investimento, nada mais óbvio que Titãs no Circus Show, Heróis da Resistência na Zoom ou qualquer outro tipo de som fácil, previamente pasteurizado pelas FMs.

É graças a comercialização sem precedentes de tudo que aparece pela frente, que não fomos (ainda) premiados com o que realmente queríamos: Patife Band, Mercenárias, Gueto, Violeta de Outono ou mil outras bandas. É uma pena!

Amargar tal realidade é fato, mas, em 1987, quem passou o final de ano em Brasília teve (ou perdeu) uma oportunidade única: assistir ao concerto de uma das melhores bandas fora do circuito comercial – pobre de shows; o DeFalla.

DeFalla? É o nome de um compositor erudito espanhol. É também o nome da banda gaúcha que se apresentou em três shows na sala Funarte junto ao Nexo. Basicamente juntos desde 1985, foi assim que uma das poucas cult-bands do rock brasileiro se apresentou ao público brasiliense: Biba na bateria, Flávio no baixo, Castor na guitarra e Edu K na voz e guitarra. Castor e Flávio vêm de outras bandas gaúchas; Expresso Oriente e Miguel e Almas, ambas desconhecidas aqui em Brasília. Biba e Edu K estão juntos desde o começo do DeFalla.

No show da Funarte impressionaram, e muito, o público brasiliense. A base é marcante, segura o bastante pra não sucumbir ao brilho estrelar de EduK. EduK, aliás, é a própria encarnação de conceitos, anjos e demônios dos anos 80, só que nele já está tudo filtrado, e isto se sente na energia que ele passa quando está no palco. De saias e bonezinho “Teddy boy”, EduK dá mostra da personalidade da banda. Eles afirmam não querer saber de qualquer tipo de pré-conceito, nem estabelecer uma expectativa X em relação a sua música. O DeFalla busca uma transa universal em termos musicais – e poupem-nos de rótulos.

O DeFalla é uma mistura de todos os sons absorvidos pela modernidade dos anos 80, é dançante, são ritmos negros, brancos, verdes, amarelos (sem ufanismos), é microfonia, é ruídos, é o som vindo do mundo que vivem, interpretado da maneira que sentem. O resultado é a sonoridade própria do grupo. Bingo!

Quem perdeu um dos mais cotados cult concerts da última temporada, ainda tem chance de conhecer o DeFalla através do seu primeiro disco, mas tente comprá-lo em outra cidade, porque aqui na capital as maiores discotecas (2001 e Gabriela Discos) até agora não entenderam porquê a RCA não manda os discos do grupo (?!!). Bem, nem nós. Mas o disco traz inúmeras surpresas para o ouvinte atento. Além de EduK se rasgando nos vocais (and trying not to lose his voice), o DeFalla mostra acima de tudo que é possível manter-se uma personalidade frente à mesmice requerida pelos interesses mercadológicos. Coisa rara.

“I have to sing a song in Portuguese, I just don’t know Why…”

“Faça alguma coisa por mim. Faça alguma coisa por mim. Faça alguma coisa por mim. Antes que seja tarde. Antes que seja tarde. Antes que seja tarde demais. Você sabe que seu corpo é minha terapia matinal. Não importa as posições e muito menos as confissões. Nosso amor é uma fantasia. Supersônica. Amenizando a tara violenta da tua boca. Luz de mercúrio toda noite. Casual. Faça alguma coisa por mim. Faça alguma coisa por mim. Mais um drink para nós dois antes que você fique nua. Eu não aguento essa febre de amor. Preciso de um tratamento de urgência. Acho que vou delirar. Faça alguma coisa por mim. Faça alguma coisa por mim.”

Alguma coisa, DeFalla.

 

Fonte: jornal FUNARTE – Rio de Janeiro, 12/06/1988

 

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