[PRESS] DeFalla: sucesso de crítica, sem aparelhagem para tocar

DeFalla: sucesso de crítica, sem aparelhagem para tocar

Juntos eles faturaram a maior premiação já destinada a um grupo em toda a história do rock gaúcho. Edu K. e Biba Meira, vocalista e baterista do DeFalla, são os responsáveis diretos pelos prêmios de segunda melhor banda do ano e terceiro melhor disco do ano na música brasileira, segundo os 22 críticos da revista Bizz. Biba faturou também o prêmio de segundo melhor instrumentista nacional atrás apenas do guitarrista Edgar Scandurra, da banda paulista Ira!. Edu K. levou o prêmio de terceiro melhor vocalista do ano, atrás de Renato Russo (do Legião Urbana) e Luiz Melodia. Uma façanha contada no primeiro LP da banda pelo selo Plug, e numa apresentação fulminante no Canecão do Rio de Janeiro, quando do lançamento de todas as bandas do selo. Este show deixou os críticos de quatro e foi um dos grandes responsáveis pela excelente votação que receberam.

Edu K. a princípio ironizou a premiação:

“Achei legal, uma prova de que é importante fazer amigos no meio”. Mas Biba levou a sério: “Não é porque somos amigos dos caras que eles votaram em nós. Foi um reconhecimento, eles gostaram do trabalho mesmo. Tanto que recebemos votos de gente que nunca vimos na vida”. Mas Edu K. acha que deveria haver uma distinção entre bandas novas e consagradas, citando, por exemplo, o caso dos Titãs, que abocanhou os dois primeiros lugares. “Sei que teríamos premiações ainda maiores se não tivesse entrado o disco dos Titãs na última hora”, avalia. Biba se atravessa: “Você queria mais prêmios?”.

Segundo eles, este primeiro disco não representa ainda o DeFalla em sua atual formação, até porque ele foi gravado em seguida à mudança do grupo com a saída do baixista Carlo Pianta e a transformação em um quarteto com a entrada de Flávio Santos e Castor Daudt, passando Edu K. apenas para os vocais.

“Acho que no segundo disco é que vai pintar a verdadeira cara da banda, uma vez que este foi uma coletânea desde a nossa formação. Incluímos músicas até de bandas anteriores que a gente tinha tocado, caso do Urubu Rei!”, afirma Biba. Ela acha que o DeFalla ainda não é um nome muito conhecido no Sul, embora a crítica tenha recebido o disco muito bem. Continua sendo uma “cult” band. “O disco não vendeu bem, muito por culpa da gravadora que não vem dando o mínimo apoio na divulgação”.

Edu K:

“Nosso disco não traz inovações. Os Mutantes já tinham feito o que estamos fazendo. Mas para o tipo de mercado atual e o tipo de bandas que estavam aparecendo, somos mesmo bastante diferentes. Usamos muitos efeitos no disco, como barulhos de fora do estúdio e a gravação um pouco mais ‘suja’ que a normal. Então, este dado, junto à personalidade da banda, que se revela muito mais ao vivo, contribuíram para a votação. As pessoas que votaram em nós nos viram ao vivo, o que é fundamental para compreender o DeFalla”.

Biba concorda, desta vez:

“Qualquer um que vê a banda ao vivo e compara com o disco gosta bem mais do show. Somos mesmo tri-ignorantes no palco”.

O fato de não fazer sucesso de público, como Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós, que inclusive é uma formação bem mais recente, “é porque não temos um ‘hit’ como Camila, Camila”, diz a baterista Biba Meira. Para Edu K, “o público não está preparado para ouvir certas coisas que fizemos; mas as pessoas não entendem porque não querem entender”. Biba acha que

“é preciso sair do Rio Grande do Sul para fazer sucesso no país, embora Engenheiros e Nenhum de Nós não precisem disso necessariamente, já têm um grande sucesso aqui. Acho que o DeFalla está mais para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde somos bem mais aceitos, do que aqui”.

Apesar de tudo, a banda passa por dificuldades enormes, que nem de longe espelham esse reconhecimento da crítica. Está muito mal aparelhada, por exemplo. Edu K. não tem mais tocado guitarra nos shows “porque a situação da banda é precaríssima, ninguém tem dinheiro pra nada. Tô há horas sem instrumento, o Castor (guitarrista) também está sem instrumento”. Biba completa:

“Estamos nos sacrificando pra caralho na banda, continuo devendo passagens aéreas de nossas viagens para o centro do país, já que sempre temos que bancá-las. É uma situação super contraditória. A grana que entra sempre sai na hora. Mas é uma coisa que vale a pena, que gostamos de fazer pra caralho”.

ZERO HORA 26 de fevereiro de 1988

 

Comente sobre este post: