Crítica do 1° álbum (LP) da banda OS REPLICANTES, lançado pela BMG
O Futuro dos Replicantes será Vortex?
A Banda ‘hardcore’ chega ao primeiro LP demonstrando impasse
Por Gilmar Eitelvein
Editoria 2º Caderno/ZH, dia 10 de março de 1996,
Quando os Replicantes surgiram, em dezembro de 1983, a música Nicotina era um achado que acendeu de vez o espírito anárquico que o movimento punk instaurou a partir da Inglaterra através dos grupos Sex Pistols, The Clash e outros, em 1976. Sem paciência em demonstrar virtuosismos sonoros, a banda foi clara: notas e harmonias não interessam, volta-se tudo para a energia no palco, o grito primai e sentido básico do rock. “Apesar de rigorosas investigações, não foi apurada qualquer experiência ou educação musical; não temos passado“, alardeavam. No máximo meia dúzia de acordes, um baixo para manter o ritmo que pode ser tocado em uma corda ou nota só, um vocalista que berra palavras de ordem voltadas à desobediência civil através de uma voz rasgada. Nicotina era o pontapé inicial: se o fumo faz mal, então viva o fumo e o mal. Morramos intoxicados!
Os Replicantes estrearam em maio de 84 num show no Bar Ocidente, lançaram um compacto duplo que esgotou – com as músicas Nicotina, Surfista Calhorda, O Futuro é Vortex e Rockstar – e fecharam o ano como o maior destaque do rock gaúcho justamente por serem os únicos com uma proposta mais clara, retirada do punk inglês e que eles mesmos definiram como “hardcore“. 85 continuou pródigo para a banda e 86 tende a continuar sendo. Mas aí entramos no lançamento do seu primeiro LP, gravado pela RCA, e vem a pergunta: Os Replicantes resistirão? Em Blade Runner, no futuro programado, eles tinham apenas oito anos de vida. Em Porto Alegre eles podem não ir tão longe. Porque as ideias passam como um raio nestes tempos de máxima adrenalina. E os Replicantes não evoluíram.
Estética e superficialmente funciona a imagem de radicais morteiros da hipocrisia social, mas o niilismo característico do verdadeiro punk, o do subúrbio, pobre, soa como falso nos Replicantes (…”Minha casa era um canto do porão/O meu futuro era viver na escuridão/O meu destino era morrer na contramão…”). Fora dos shows, do disco, nenhum deles pensa ou age como rato de porão. Menos irreais eles figuram em O Futuro é Vortex (“A barra é braba no futuro/Tá tudo no mesmo lugar/Lá também se nasce duro/ Pra comer tem que matar“), um prognóstico amargo mas não distante da realidade, na atualidade de O Banco (“Fecho toda minha casa/Com medo de ladrão/Mas quem meu bolso arrasa/Não é pobre não/Eio! é o banco/Eio! , é o banco“) ou no desejo de todos em Censor (“Eu quero ver/A verdadeira cara do poder/Na bandeja com couve-flor /Eu quero a cabeça do censor“). Em Mulher Enrustida (“Estou de saco cheio de mulher enrustida/Eu quero ser levado e servir de comida“) eles conseguem ir mais além que na ultrapassada Porque Não (“Já pequei no pé do Gil/Quero que o Caetano/Vá pra pqp… O Samba me dá asma/Prefiro tocar b…/ E punkar até morrer“). Convenhamos, não há quem cresceu sem a influência dos baianos e do samba.
Ou seja, os Replicantes chegaram ao impasse. Ainda são a melhor novidade no rock gaúcho, mas batem na nesta tecla de quando surgiram. E se passaram mais de dois anos… Carlos Gerbase, Cláudio e Heron Heinz e Wander Wildner são uns caras comportados, travestidos de contestadores no palco e no disco. Não são claros, as letras ficam no meio de campo, mas mesmo assim sacaram muito bem um momento especial do rock e se adornaram do espaço. Não são burros, apesar de muitas músicas soarem inconsequentes, como Hippie-Punk-Rajneesh e Surfista Calhorda (continuo considerando um achado aquele solo de guitarra) ou depressivas depreciativas como One Player (“Não volto mais/Não quero paz“). Da mesma forma fica gozado pregar “o mundo que morra”. Realmente, prefiro salvar o mundo.
Quem não conhecia o trabalho dos quatro Replicantes tem neste LP de 14 músicas uma visão ampla do que pensam e fazem. Da geração rock que estourou a partir de 82, é a primeira banda gaúcha que chegou ao LP pelas mãos de uma grande gravadora (fora deles apenas o Taranatiriça gravou, pela Acit). Com isso eles terão distribuição nacional. Todas as músicas seguem a mesma linha, não dá para destacar nenhuma. A banda também não quer trabalhar alguma especificamente. Quanto à censura que caiu sobre as músicas Choque, Mulher Enrustida e Porquê Não, eles dizem: “A censura é idiota, não ligamos“. O lançamento do disco será dia 21 de março no clube União e Progresso. Depois eles saem para vários shows em São Paulo. E o futuro? Talvez ele tenha passado ontem…
