
No dia 22 de março de 2018, o rock brasileiro perdia um de seus mais inquietos e visionários agitadores. Carlos Eduardo Miranda faleceu aos 56 anos, em São Paulo, deixando um legado que atravessa gerações e que, seis anos depois, continua sendo redescoberto – especialmente em sua terra natal, o Rio Grande do Sul.
Se estivesse vivo, Miranda completaria (dia 21/03) 64 anos. Mas a data, inevitavelmente, se transformou num marco para relembrar o trajeto de um artista que nunca coube em uma só definição: foi músico de banda de garagem, produtor de sucessos nacionais, jornalista, jurado de TV e pioneiro da música digital na América Latina.
Antes de estourar como o produtor que “descobriu” Raimundos, Skank e O Rappa, Miranda foi peça central da cena porto-alegrense. O Relicário do Rock Gaúcho, site que preserva a memória musical do estado, documenta com riqueza de detalhes (com base apenas em nosso banco de dados).
Origens: Porto Alegre, os anos 80 e as bandas
Antes de estourar como o produtor que “descobriu” Raimundos, Skank e O Rappa, Miranda foi peça central da cena porto-alegrense. O Relicário do Rock Gaúcho, site que preserva a memória musical do estado, documenta com riqueza essa fase inaugural.
Sua trajetória nos palcos gaúchos começou ainda no final dos anos 70 (1978/1979), no Taranatiriça. Uma fotografia de 1981, preservada pelo Relicário, mostra Miranda ao teclado ao lado de Marcelo Truda (guitarra), Cau Hafner (bateria), Flávio “Flu” Santos (baixo) e Rodrigo Correa (guitarra), em apresentação na piscina do Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre. Naquele período, a banda ainda fazia apresentações de rock instrumental, antes da entrada do vocalista Alemão Ronaldo em 1983. Essa experiência inicial, de sonoridade mais pesada e influenciada pelo metal, contrastava com os projetos experimentais que viriam em seguida – mas já revelava a versatilidade de um músico que transitava entre gêneros sem amarras.

Em 1983, Miranda fundou o Urubu Rei, banda que unia sintetizadores, vozes femininas e uma estética tecnopop – rótulo que ele próprio detestava, mas que ajudou a definir a modernidade do rock gaúcho. O grupo chegou a ensaiar uma contratação por uma grande gravadora, e registros em vídeo da época, recentemente restaurados, mostram um Miranda já dono de um olhar de produtor: alterava arranjos propositalmente, buscando um som único.
A partir de 1984, ainda em paralelo ao Urubu Rei, veio o Atahualpa Y Us Panquis, descrita como “a mais chinela banda do rock gaúcho”. Com uma mistura de irreverência, influências latinas e punk, o grupo se apresentava nos palcos históricos de Porto Alegre – Vortex, Bar Ocidente, Teatro de Arena, Gigantinho – e ensaiava, segundo relatos, “no pátio da avó de Miranda”. A banda deixou registros em coletâneas como Rock Garagem II (1985) e a fita Zona Mortal (1986), hoje digitalizadas e disponíveis graças ao trabalho de restauração do site.
A efervescência daqueles anos também o levou a projetos efêmeros, como A Vingança de Montezuma, cujo release, publicado no Jornal Zero Hora em 1987, já trazia a verve provocadora que marcaria sua carreira: “Pegue garrafas vazias, instrumentos nada convencionais […] mais Black no baixo e o agitador Miranda cantando, gritando, arfando, fungando e tocando sintetizador.”
De Porto Alegre para o Brasil: o produtor que mudou o jogo
Nos anos 90, Miranda migrou para São Paulo e iniciou a fase que o tornaria conhecido nacionalmente. Como diretor artístico da Sony Music, foi o responsável por contratar e produzir os primeiros discos de bandas que virariam fenômenos: Raimundos (1994), Skank (1993) e O Rappa (1994). Seu olhar de A&R (artistas e repertório) privilegiava autenticidade e atitude, algo que ele exercia com uma franqueza que mais tarde o acompanharia na televisão.
Em 1999, deu um passo que poucos entenderiam à época: criou a Trama Virtual, a primeira loja de música digital da América Latina. Anos antes do iTunes e do streaming, Miranda já defendia que o futuro da indústria passaria pelo download online. A iniciativa, à frente de seu tempo, consolidou sua fama de visionário.
A figura pública: jurado, polêmico e formador de opinião
Para o grande público, Miranda tornou-se um rosto familiar nos programas de calouros do SBT: Ídolos, Astros e Qual é o Seu Talento?. Com comentários diretos e muitas vezes duros, ele se transformou num dos jurados mais lembrados da televisão brasileira, dividindo opiniões, mas sempre defendendo o rigor artístico como princípio.
Antes disso, já tinha sido repórter da Revista BIZZ e colaborador em diversos veículos, onde sua escrita espirituosa e sem rodeios já antecipava o personagem que depois ganharia as telas.
Legado e memória preservada
Miranda faleceu em 22 de março de 2018 A notícia abalou os meios musicais e rendeu homenagens de artistas que vão de João Gordo a Dinho Ouro Preto.
Anos depois, o Bar Ocidente — em Porto Alegre — sediou uma edição especial do Tributo Miranda, reunindo mais de 30 convidados e resgatando formações históricas: Urubu Rei completou 40 anos na mesma noite, enquanto Atahualpa Y Us Panquis e Graforréia Xilarmônica voltaram ao palco em encontros emocionantes. A renda do evento foi revertida ao Relicário do Rock Gaúcho, que hoje mantém digitalizados vídeos, áudios e documentos que contam, com riqueza de detalhes, a trajetória do artista.
Seu acervo pessoal, suas entrevistas raras e os registros das bandas dos anos 80 seguem sendo redescobertos por novas gerações — uma prova de que, para Carlos Eduardo Miranda, o palco nunca foi pequeno demais, e sua influência, longe de se apagar, só se expande com o tempo.
Miranda na Vortex: O Laboratório Criativo do Rock Gaúcho
Nos anos 1980, em Porto Alegre, surgiu um dos selos mais influentes da cena independente brasileira: a Vortex. Criada pelos integrantes da banda Os Replicantes — Carlos Gerbase e Wander Wildner — a Vortex era um empreendimento múltiplo que funcionava como gravadora, produtora de vídeo, selo fonográfico e, mais tarde, até como um ponto de encontro para a turma do rock gaúcho -6.
Foi nesse caldeirão criativo que Carlos Eduardo Miranda encontrou o ambiente perfeito para expandir seus experimentos musicais, atuando como produtor, idealizador e artista.
O Selo que Fez a Diferença
A Vortex operava sob a lógica do “faça você mesmo” — herdeira direta da ética punk que dominava a cena porto-alegrense. Seu método de produção era peculiar: a maioria das bandas gravava ao vivo, diretamente em estúdio, sem os recursos sofisticados das grandes gravadoras -4. O resultado eram fitas cassetes distribuídas de forma independente, que rapidamente se espalharam pela cidade e hoje são peças de colecionador -6.
O selo produziu dezenas de fitas, lançando nomes que se tornariam lendas do rock gaúcho: Graforréia Xilarmônica, Os Cascavelletes, Os Obsolethos, Verdruss, Smog Fog, entre tantos outros -4.
Miranda nos Bastidores da Produção
Em muitos desses lançamentos, quem pilotava a produção já era Carlos Eduardo Miranda. Sua atuação como produtor na Vortex é documentada no acervo do Relicário do Rock Gaúcho, que destaca:
“Em muitas delas, pilotando a produção já estava Carlos Eduardo Miranda” -6.
Miranda já vinha de uma trajetória intensa pelas bandas da cena — Urubu Rei, Atahualpa Y Us Panquis, A Vingança de Montezuma — e trazia para a Vortex não apenas sua habilidade como músico, mas também um olhar aguçado para o que funcionava em estúdio.
Sua participação mais antiga registrada remonta a 1984, quando ajudou os Replicantes a gravarem a música “Nicotina” em um estúdio de jingle de apenas quatro canais. A fita foi levada para a recém-criada Rádio Ipanema FM, que incluiu a música em sua programação — um dos primeiros passos do punk gaúcho rumo à visibilidade.
O Álbum Solo: “Miranda -85/86” (1987)
O momento mais emblemático da passagem de Miranda pela Vortex, no entanto, foi o lançamento de seu álbum solo, “Miranda -85/86”, em formato cassete, em 1987 -1.
A apresentação do álbum, registrada no próprio selo, já trazia o tom irreverente e experimental que marcava o trabalho:
“Essa fita é uma compilação dos trabalhos realizados por Carlos Eduardo Miranda nestes dois anos. Basicamente são trilhas sonoras de vídeos e peças teatrais. Miranda é a mente organizadora do Atahualpa Y Us Panquis, do Montezuma. Na verdade, o que contém na fita é o que ele pode fazer com um teclado Korg antes de destruí-lo” -1.
O álbum, com 59 minutos de duração, reunia 24 faixas que mostravam um Miranda em estado bruto de criação: trilhas experimentais, ambiências eletrônicas, colagens sonoras — um documento único da fase em que ele ainda estava construindo a linguagem que mais tarde o consagraria como produtor -1.
O Relicário do Rock Gaúcho, responsável por remasterizar e digitalizar o material em 2022, destaca que se trata de “uma das fitas mais desejadas pelos fãs por ser realmente rara”
A Marca Definitiva do Miranda no Rock Gaúcho
O que os materiais reunidos pelo Relicário do Rock Gaúcho revelam, acima de tudo, é um Carlos Eduardo Miranda que jamais pode ser reduzido ao produtor nacional ou ao jurado de TV. Nas fitas cassete da Vortex, nos palcos do Bar Ocidente, nos ensaios no pátio da avó, nos releases provocadores que ele mesmo escrevia para o jornal, está a gênese de um criador que já nos anos 80 exercitava a visão que o tornaria único: a música como território de risco, invenção e autonomia.
Para o rock gaúcho, Miranda foi muito mais que um nome de destaque. Foi um articulador de cena. Na Vortex, ajudou a formatar o som independente que projetaria bandas como Replicantes, DeFalla e Graforréia Xilarmônica. No Urubu Rei e no Atahualpa Y Us Panquis, mostrou que o rock podia ser tecnopop, irreverente, “chinela” e, ainda assim, rigoroso. No álbum solo *Miranda -85/86*, deixou um documento de experimentação que só o selo independente e a mentalidade “faça você mesmo” tornaram possível.
Para os artistas que cruzaram com ele — de Porto Alegre a São Paulo — Miranda representava um estímulo sem concessões. Sua famosa disposição de alterar arranjos propositalmente em plena apresentação não era capricho: era um princípio. Ele acreditava que a música só mantinha sua força quando se permitia ser repensada a cada instante, um ensinamento que levou para os estúdios onde produziu sucessos nacionais e para os programas de televisão onde expôs gerações a um julgamento sem filtros.
Para o público, especialmente o gaúcho que o viu nascer musicalmente, Miranda é hoje uma figura de orgulho e memória afetiva. A comoção em torno dos tributos realizados no Bar Ocidente, a procura pelas fitas raras da Vortex e o trabalho incansável do Relicário em restaurar e divulgar seu acervo mostram que seu legado está longe de ser apenas histórico. Ele permanece presente, revisitado por novas gerações que descobrem, nas gravações restauradas e nos relatos de parceiros, a energia de uma época em que Porto Alegre fervilhava de possibilidades.
Carlos Eduardo Miranda não foi apenas um produtor ou um jurado. Foi um agente cultural na acepção mais plena da palavra: alguém que entendeu que fazer música ia muito além da técnica – era criar redes, provocar debates, antecipar mudanças e, acima de tudo, manter viva a inquietação que move qualquer cena verdadeiramente original.
O Miranda inspirador do Portal Relicário do Rock Gaúcho
O material preservado por nós cumpre um papel essencial: restituir a história em sua dimensão mais autêntica, que começou nas garagens e estúdios improvisados de Porto Alegre, bem antes de o país inteiro saber seu potencial. E, ao fazê-lo, assegura que sua contribuição à cultura do rock gaúcho, à música brasileira como um todo e o próprio site Relicário do Rock Gaúcho – continue sendo compreendida em sua inteireza: revolucionária, generosa e inquietantemente à frente de seu tempo.
