[PRESS] Aforismos não mentem jamais – Marcelo Birk (2026)

Aforismos não mentem jamais

Cristiano Bastos, especial para JC

Cantor, compositor, guitarrista, produtor musical e professor no curso de música da Universidade Federal de Santa Maria (e que, desde os anos 1980, molda uma proposta que resiste a definições), Marcelo Birck contextualiza seu momento atual a partir de aforismos extraídos dos cadernos O Dia e a Noite (1917-1952), do pintor cubista Georges Braque: “Toda época limita suas aspirações. Daí nasce […] a ilusão do progresso”. De modo complementar, em outro aforismo Braque afirma que a arte não trata de “expandir limites, mas de conhecê-los melhor”. É sob essa premissa que o músico de 60 anos — que, além da carreira solo, integrou os grupos Prisão de Ventre, Graforréia Xilarmônica, Aristóteles de Ananias Jr. e Os Atonais — articula o seu próximo álbum, com lançamento previsto para este ano.

Para a concepção deste novo trabalho, Birck optou por conectar dois núcleos. De um lado, Porto Alegre, com os parceiros Juann Acosta e Rodrigo Avellar. De outro, Santa Maria, através da colaboração com a banda Habbit. Neste segundo caso, o que começou como um convite para atuar como consultor transformou-se em uma simbiose criativa. Kako Von Borowski (integrante da Habbit) diz que o trabalho com Birck se dá com muita facilidade, a partir do total suporte dado por ele. “O Marcelo nos abriu muitas portas, nos levando para tocar na Capital. Também ajudou em projetos e shows. Acabou sendo uma consequência natural tocar n’Os Grafonheiros do Xilaraí (banda de apoio de Birck)”.

Na proposta atual, Marcelo Birck utiliza guias para ensaios com indicações imprecisas, a partir das quais os músicos concebem suas hipóteses. As ideias cruzam-se sem muita combinação prévia, de modo que cada execução tende a surgir mais como etapa de um processo do que um ponto de chegada definitivo. “É uma estratégia de soluções inusitadas, que tende a estimular um senso de responsabilidade inerente à prática musical coletiva. Creio que esta seja a maior lição que aprendi com o free jazz. No mais, as origens permanecem: ié-ié-iê (Jovem Guarda e Invasão Britânica) e o não-idiomatismo do punk de Nova York e seus desdobramentos”.

Eder Wilker Borges Pena — musicólogo da USP e Doutor em Música pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) — afirma que “se há uma coisa que sempre me atraiu em música é a existência de poéticas tão escalafobéticas que possam romper a noção daquilo que amiúde chamamos de música”. Deste modo, o pesquisador considera que a obra de Birck é “a constatação de que a música pode ser diferente sem perder a conexão. Trata-se de uma experiência estética complexa que atravessa o rock, o iê-iê-iê, o punk, o pós-punk, o atonalismo, a música concreta e eletrônica, a criptografia, a Vanguarda Paulista, o Dadaísmo; e, ao mesmo tempo, não é nada disso, e não explico, pois não é necessária lógica”.

Já o carioca Rogério Skylab não poupa elogios a Birck, do qual diz-se grande admirador. Ele conta ter conhecido sua obra através dos discos solo do porto-alegrense, pelos quais ficou legitimamente encantado. O primeiro contato entre ambos se deu no começo dos anos 2000, quando Rogério enviou cópias de seus álbuns para Birck. Em 2008, Marcelo aceitou o convite para compor uma música em parceria, e também participar da gravação do DVD Skylab IX. O resultado foi a música “Samba de Uma Só Nota ao Contrário”. Skylab não deixa por menos: “É do Marcelo Birck o arranjo da canção ‘Eu e minha ex’, do Júpiter Maçã, a qual cantei inúmeras vezes em meus shows. São as minhas maiores referências da música feita no Rio Grande do Sul”. E completa: “O Birck, para começo de conversa, possui como aliado o antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna, o que não é pouca coisa”. Vianna, a propósito, disparou no texto que escreveu sobre o primeiro disco solo de Birck: “Nada prepara o ouvinte para o material sonoro contido nesse CD”.


Quatro explosões musicais de Marcelo Birck

Graforréia Xilarmônica

Marcelo Birck considera que Luis Fernando Veríssimo — no texto intitulado O que é isto, escrito em 1998 — deu a melhor definição a respeito da Graforréia Xilarmônica (da qual Birck é um dos fundadores): “Para começar, isto precisa ser alguma coisa? Precisa. Tudo tem que ter um nome, uma história, um começo, uma definição, não necessariamente nesta ordem. Nome e história eles têm. A Graforréia Xilarmônica já andou por aí o tempo suficiente para ter fases, para parar e voltar algumas vezes e até para ser influência. Definição? Se Schönberg tivesse ganho uma guitarra elétrica no Natal… Não, não. Se os Beatles ainda estivessem todos vivos e ativos e decidissem só se auto-parodiar… Não, não. Se a Jovem Guarda voltasse ao mundo sem as calças boca-de-sino e com um espírito crítico… Não, não. Tente esta: a Graforréia Xilarmônica é tudo que você ouviu nos últimos 40 anos (mesmo que só tenha 17), reunido, batido e servido no seu estilo inconfundível — e indefinível. O que é isto? Só ouvindo”.

Prisão de Ventre

A Prisão de Ventre foi a “banda-laboratório” com a qual Marcelo Birck deu início à sua carreira. “Um bando de guris que não sabiam tocar direito, mas que acharam um nome e diziam que era um grupo musical”, ele define. Na verdade, diz Birck, era mais um conceito que propriamente um conjunto, agregado por referências compartilhadas e pela vontade de estar em uma banda. “Mesmo que não soubéssemos definir o que seria este conceito, de alguma forma ele nos motivava a seguir em frente”. Neste espírito, a Prisão de Ventre realizou algumas ações de provocação. Por exemplo, selecionar a dedo as roupas mais ridículas e sair para uma caminhada pelo bairro. Em 1984, os ensaios se tornaram mais constantes, e o repertório mais definido. Em seguida, começaram a fazer shows com a galera que deflagrou o que viria a ser conhecido como rock gaúcho: Urubu-Rei, Júlio Reny, Atahualpa Y Us Panquis, Fluxo (que foi o embrião do De Falla), e, um pouco depois, o TNT.

Aristóteles de Ananias Jr.

A princípio, era só um nome que Marcelo utilizava para shows nos quais o repertório era criado na urgência, sem músicos fixos. Um projeto paralelo à Graforréia Xilarmônica, acionado conforme as circunstâncias. Porém, em 1991, em um momento em que estava sem banda, Birck decidiu convidar alguns dos músicos que haviam participado da proposta, a fim de definir uma formação, realizar ensaios regulares e compor repertório. “A intenção era radicalizar ideias que haviam sido esboçadas na Graforréia. Surfar entre deslocamentos, paralelismos e fricções, de pegadas pop a soluções inusitadas. Para tanto, a estratégia foi utilizar procedimentos formais filtrados por uma abordagem punk, mas sem priorizar idiomatismos. Esta fase coincide com o meu período de maior engajamento no bacharelado em composição na UFRGS”, conceitua.

Os Atonais

Projeto intermediário entre o fim da Aristóteles de Ananias Jr. e o começo da carreira solo de Birck. “Nem que fosse como um respiro, eu havia decidido simplificar minha proposta, o que me levou a retomar contato com o Leandro Blessmann. Logo estávamos compondo canções com inspiração no ié-ié-ié e na música brega dos anos 1970. Mesmo que fosse um trabalho mais voltado para o pop, a sonoridade do disco traz alguns timbres inusitados e inserção de ruídos. O nome surgiu em uma ocasião em que tomei contato com uma banda chamada Os Diagonais (da qual fazia parte o soulman Cassiano). Pela sonoridade próxima, me ocorreu Os Atonais”.


Liberdade calculada

Juann Acosta narra a experiência de atuar ao lado de Marcelo Birck.

“Toco com Marcelo Birck desde 2012. De lá para cá, seguimos gravando, experimentando e nos reencontrando quando ele está em Porto Alegre. Faço parte da banda que o acompanha nesses momentos — seja para registrar novas músicas, seja para testar ideias, explorar timbres, tensionar formas. A partir dessa convivência, fui entendendo melhor a lógica própria da música do Marcelo.

Ao longo desses anos, percebi que, na obra dele, os limites entre o certo e o errado — entre o que ‘funciona’ e o que teoricamente não funcionaria — simplesmente deixam de existir como categorias fixas. Há uma colisão constante entre ordem e caos, mas não no sentido de desorganização: é uma experimentação que convive com rigor.

Nas canções do Marcelo, é comum encontrar melodias bonitas, harmonias luminosas, quase afetivas na sua simpatia imediata. Mas, ao mesmo tempo, surgem momentos de radical experimentação — efeitos quase caleidoscópicos, progressões harmônicas pouco convencionais, trechos que à primeira escuta podem parecer aleatórios. E não são. Há uma lógica interna, um método invisível.

O que ele tem buscado cada vez mais é essa ideia de encontrar no acaso algo que jamais surgiria de uma busca excessivamente intencional. Como se o gesto criativo precisasse se libertar da obrigação de acertar para, então, acertar de outro modo. A noção tradicional de estrutura, de lapidação, de ‘boas notas’ e ‘boa harmonia’ não desaparece — mas se dilui. Às vezes o lugar mais inusitado é justamente onde a canção encontra sua forma.

Há uma liberdade calculada. Uma soltura com propósito. Marcelo trabalha com colagens, sobreposições de informação melódica, fluxos que não precisam necessariamente se repetir para fazer sentido. É uma música que aceita a efervescência — e que transforma essa abundância numa unidade orgânica.

Em 2026, ele chegou a um território onde tudo pode combinar, onde quase qualquer elemento pode funcionar se estiver inserido dentro da lógica interna que ele constrói. E esse lugar é intransferível. Ninguém faz igual, porque não se trata apenas de técnica ou ousadia — mas de uma visão muito particular sobre como o caos pode ser organizado sem deixar de ser vivo.”


Crianças adultas

Por Lule Bruno (músico e compositor)

“Escrevo este texto na condição de fã assumidamente declarado. Para mim, Marcelo Birck criou (e continua a criar) uma das melhores e mais criativas obras musicais no Rio Grande do Sul. Disparado. Nada nem ninguém se assemelha às criações de Birck. Colocaria Júpiter Maçã em um distante segundo lugar. E digo mais: Aristóteles de Ananias Jr. é a maior banda da história deste Estado. Ninguém chega nem perto. Em termos sônicos, agrada-me aos ouvidos; as letras são de um grande humor e bom gosto. Os timbres não mentem jamais.

‘Vou alimentando a ilusão de um plano astral, desfrutando dos prazeres do mundo material’. Tem aceleração de fita, atonalidade, gravações de trás para frente — simplesmente tudo o que eu mais amo, com letras para lá de hilárias e, ainda por cima, em português, repletas de referências específicas do humor debochado gaúcho dos anos 1990 e o pessoal da vanguarda paulista e samba dos anos 1930. E os caras ainda faziam filmes de ficção científica, como Projeto Espacial B (recomendo, tem no YouTube).

Os shows eram um delírio dadaísta, com figurinos a caráter e psicodelia. O primeiro disco solo do Birck é o meu álbum favorito feito no Brasil. Não tem música ruim, não tem momento desperdiçado. Ele utiliza meu recurso favorito de fazer música: o elemento surpresa. Deixa o ouvinte sempre na ponta dos pés, na corda bamba, a cada momento com um corte abrupto ou situação inesperada, sons do além. Marcelo faz isso.”


Uma dezena de sons

Marcelo Birck comenta dez importantes canções de sua trajetória musical.

Hordas de Demônios

Parceria com Frank Jorge, é a minha favorita do repertório da Graforréia Xilarmônica. O único registro está na fita demo lançada pela Vórtex (selo dos Replicantes). Começou como uma paródia de heavy metal, mas virou outra coisa. Surgida em um ensaio, foi tomando forma na base da zoação improvisada e sem muito filtro. Com algumas adaptações, está no meu repertório atual.

Amigo Punk

Eu e o Frank começamos a compor no fim de um ensaio, enquanto guardávamos os instrumentos. Era só um esboço, mas ficou ressoando na minha cabeça a ponto de eu seguir trabalhando nela enquanto caminhava do estúdio para casa. No ensaio seguinte, demos a formatação final.

Pagode Acebolado

Música da Aristóteles de Ananias Jr. Não lembro bem do processo, mas provavelmente foi na base da tentativa e erro, a fim de misturar referências por justaposição.

Canibalismo Odara

Também da AAJr., em colaboração com Ricardo Frants e Luciano Zanatta. A música faz uso de um riff em 7/4, com sobreposições de outros compassos durante a música. A letra tem um trecho formado por uma concatenação de gírias, exageradas para parecerem ainda mais sem sentido. Em alguns momentos, os instrumentos usam escalas discordantes, numa espécie de prolongamento da distorção da sonoridade geral. Colabora para esse efeito um sampler em loop.

Chamas do Inferno

Música que abre o CD dos Atonais, com uma pegada Reginaldo Rossi e guitarras barulhentas. O Leandro Blessmann chegou para mim com parte do refrão, dizendo que a ideia lhe ocorrera num dia em que o ar-condicionado do trabalho pifou. O único trecho da letra dizia “eu vou arder nas chamas do inferno”, e o restante ainda estava só no “lá-lá-lá”. Completei a letra e fiz as estrofes. O Leandro fez o middle 8 inspirado em Clarice Lispector, que ele estava lendo na época.

Surf Atonal

Incluída no meu primeiro disco, é um manifesto que zoa com a própria ideia de manifesto. A música foi montada a partir de um trecho instrumental gravado no Estúdio Dreher, com vocais adicionados posteriormente. A partir da contradição expressa no título, fiz uma costura de citações de músicas da dupla Roberto e Erasmo (com uma referência à Bossa Nova). Todo este disco foi montado em casa, em uma proposta lo-fi baseada no reaproveitamento de gravações.

Tricicloscópio

Um dia, liguei a TV e, por acaso, passava um episódio dos Monkees. Imediatamente criei um riff na esteira do que eu havia acabado de assistir. Na gravação, usei um instrumento cujas cordas eram arames estendidos sobre uma caixa de ressonância em formato de trapézio (segundo Plato Divorak, uma “cítara de Juazeiro”). Como o instrumento não tinha trastes, usei um pequeno pedaço de ferro para pressionar a corda, a qual, por sua vez, eu percutia com uma vareta de madeira. Toda a música saiu deste riff, com uma letra que não se preocupava em fazer sentido.

Ié-Ié-Ié do Oiapoque ao Chuí

Mais uma das canções-manifesto. A versão do primeiro disco é uma junção de várias demos, conectadas por efeitos e montagens que fiz para testar os recursos de edição dos então recentes computadores pessoais. Tive que pensar em muitas soluções para tocá-la ao vivo. Acabou ficando tão peculiar que decidi regravá-la no Timbres Não Mentem Jamais.

Fluidez Borbulhante

Também incluída no segundo CD (Timbres Não Mentem Jamais). São duas bandas tocando, cada uma em uma tonalidade diferente. A montagem final equilibra as duas interpretações e finaliza com ruídos gerados por pedais de efeito.

Arqueologia Doméstica

Não está em nenhum disco. Foi lançada como trilha de um vídeo editado durante a pandemia, para o qual criei uma roupa de performance e uma instalação, ambos com tralhas reaproveitadas. Além da performance, que remete a seriados de ficção científica, o vídeo faz uso de uma animação a partir de recortes e remontagens de películas de filmes Super-8, 16 e 35 mm.


Cristiano Bastos é jornalista e autor de Julio Reny – Histórias de amor e morte (Prêmio Açorianos de Melhor Livro em 2015), Júpiter Maçã: A efervescente vida e obra, Nelson Gonçalves: O rei da boemia, Nova carne para moer e Gauleses irredutíveis – Causos & Atitudes do Rock Gaúcho. Também publicou, em 2023, a obra de jornalismo e artes gráficas 100 grandes álbuns do rock gaúcho: influências e vertentes (Nova Carne Livros).

Fonte: Jornal do Comércio, 20, 21 e 22 de março de 2026

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