Relicário do Rock Gaúcho

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[PRESS] Lory F, ícone do Rock Gaúcho, é eternizada por seu pioneirismo [2025]

Por Lauren Fagundes, REVISTA ESTAMPA, julho de 2021

A Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), em Porto Alegre, por indicação da produtora cultural Cida Pimentel, homenageou Lory FE, uma das maiores representantes do rock gaúcho, eternizando seu nome. O palco que leva sua assinatura na instituição é um marco simbólico, conectando gerações e celebrando a trajetória de uma artista que, embora tenha vivido apenas 34 anos, deixou um legado intenso e multifacetado.

Nascida em Porto Alegre, em 24 de setembro de 1958, Lorice Maria Finocchiaro, a Lory E, se destacou como baixista, cantora, compositora e produtora musical. Criativa por natureza, também se aventurava na pintura, no desenho, na culinária e no artesanato.

Sua irmã mais nova, a atriz Deborah Finocchiaro, recorda: “O maior ensinamento que ela deixou foi a generosidade como pessoa e, como artista, essa genialidade que ela tinha, que tem, porque a arte está viva, está aí, e eu sou reflexo disso tudo com certeza.”

A vida de Lory foi marcada pela intensidade. Entre meados dos anos 1970 e o início dos anos 1990, ela ousou atravessar limites na cena musical e enfrentou o machismo com coragem. Tornou-se a primeira mulher a liderar uma banda de rock gaúcho em um ambiente predominantemente masculino.

Além da música, conviveu com desafios pessoais. O envolvimento com drogas fez parte de sua trajetória e trouxe impactos à sua vida. Também foi diagnosticada com AIDS, revelando inicialmente a doença apenas a pessoas próximas. Em 1992, Lory subiu ao palco do Auditório Araújo Vianna para realizar o primeiro show de conscientização sobre a AIDS no Brasil, ocasião em que se tornou a primeira mulher do país a declarar publicamente sua condição de soropositiva.

Mesmo diante do estigma social, manteve sua força criativa. O filho, Ricardo Finocchiaro, jornalista e produtor musical de rock, relembra as memórias de quando ainda era criança:

“Todos os momentos com ela foram simples, mas cheios de amor. Essa é a minha maior lembrança. Acredito que hoje a Lory seja mais atual do que quando viveu. Sua história reflete preconceito, machismo, prevenção à AIDS, rock no Brasil feito por uma mulher… são muitos assuntos que permanecem atuais.”

Musicalmente, deixou registrado apenas um disco— Lory E Band — lançado postumamente. A irmã Laura Finocchiaro, também musicista, assumiu a missão de reunir e mixar o material. “

Eu sabia o som do baixo dela e conhecia toda a trajetória da banda. Minha preocupação era manter a voz dela clara e preservar a essência do som que ela idealizou. A Lory estava com apenas 32 quilos quando gravou, conduzindo toda a produção e gravação do disco, enquanto os músicos aguardavam em fila, esperando suas orientações. Todo o processo foi rápido, feito com recursos financeiros muito limitados, quase como uma troca de esforços. Para mim, foi uma honra imensa participar desse trabalho. Até hoje guardo a fita master. Depois de masterizar o disco com a contribuição do técnico Renato, do Estúdio Eger, e trazê-lo para São Paulo, iniciei toda a batalha para regularizar os direitos legais e garantir que a obra fosse lançada”, detalha.

O CD, listado no livro 100 Grandes Álbuns do Rock Gaúcho, de Cristiano Bastos e Rafael Cony, só chegou ao público em 1996, graças a Laura, Deborah e à fotógrafa Fernanda Chemale, em parceria com o selo Cogumelo Records e um edital cultural do Rio Grande do Sul. Lory parecia prever este desfecho. Pouco antes de morrer, disse à irmã: “Laurinha, mixa o disco para mim. Acho que não vou conseguir, mas não precisa ter pressa, porque sei que o meu som vai acontecer daqui a 30 anos”. O resultado é um registro da visão musical de Lory, que ainda hoje impacta fãs e críticos.

Entre os destaques de obras póstumas está a música “Mulher de Púrpura”, escrita por Ricardo, produzida por Laura e com locução de Deborah, que se tornou um verdadeiro hino em homenagem à artista. Lory também inspirou produções audiovisuais. O documentário Sinal de Alerta – Lory E, dirigido por Fred Restori, surgiu a partir de um projeto idealizado por Deborah e contou com o apoio do então diretor da CCMQ, Diego Grossman. Ricardo comenta: “Fred Restori soube fazer algo extremamente simples e profundo. Ele entregou uma produção que resgata a essência da Lory”. Deborah diz: “É muito louco isso, colocar uma vida em alguns minutos, mas é maravilhoso, amei o resultado”, e Laura acrescenta:

“O curta consegue transmitir a emoção e essa “coisa’ quase espiritual da Lory”. Em 2024, o documentário conquistou menção honrosa no Wide Screen Film & Music Video Festival, no Canadá. O palco Lory E, na CCMQ, é hoje um dos símbolos mais fortes de seu reconhecimento.

“Se o artista que subir nesse palco for curioso, vai querer saber quem é a Lory. Essa é uma forma de espalhar os tentáculos mágicos do rock n’ roll e perpetuar sua obra”, diz Laura.

Deborah completa:

“Ter o nome dela eternizado ali significa muito. Uma mulher do rock está presente naquele espaço. Tomara que isso seja cada vez mais reconhecido.”

A memória de Lory segue viva em novos projetos. Há músicas inéditas que devem ser lançadas em gravações e arquivos digitais, além de uma HQ. Um videoclipe de “Time Runaway”, filmado em 1994, está em finalização com mistura de imagens originais e animações. Nos palcos, Laura mantém o espetáculo Mulher de Púrpura, que une música e lembranças:

“Através dele, eu lembro da Lory, trago fotografias da família e da trajetória dela, e apresento sua obra musical. Faço tributo à minha irmã e vou continuar fazendo até o fim.”

Ricardo reforça:

“Eu apoio todo mundo que queira ouvir, homenagear, lembrar. Estarei sempre aberto a esse tipo de conexão.”

Lory E deixou uma filosofia de vida e de arte. Sua trajetória, marcada pelo desejo de romper barreiras, ressoa nos palcos, nas telas e na memória de quem a conheceu ou se encanta com suas músicas. A homenagem no palco da Casa de Cultura Mario Quintana, a premiação internacional do documentário, os lançamentos póstumos e os projetos de preservação e difusão de sua obra são provas de que, mesmo após sua partida, em 11 de agosto de 1993, sua presença permanece. Como resume Laura:

“Essa história feita com paixão e verdade se eterniza. Tudo se transforma, e tudo isso há de se transformar”

 

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