Relicário do Rock Gaúcho

Acervo de publicações sobre a  cultura e a história do Rock Gaúcho em textos, imagens, áudio, vídeos, dados, raridades e artigos na mídia digital.

[PRESS] Projeto preserva e compartilha raridades do rock produzido no Rio Grande do Sul (06/2025)

Matéria publicada na REVISTA ESTAMPA sobre o Relicário do Rock Gaúcho, em julho de 2025, por Lauren Fagundes.
Reprodução das duas páginas impressas

Entre fitas cassete, revistas amareladas, fotos desbotadas, flyers de shows, zines independentes e gravações raríssimas, vive o Relicário do Rock Gaúcho, um projeto de memória musical do Estado, realizado em Porto Alegre. Mais que um acervo, o Relicário é um esforço coletivo de resistência cultural, dedicado a preservar a história, as bandas e os bastidores do rock produzido no Rio Grande do Sul ao longo das décadas.

Criado oficialmente em 2013, o projeto, no entanto, nasceu muitos anos antes, e quase por acaso. Em 2008, Reinaldo Portanova, colecionador de materiais culturais desde a juventude, decidiu publicar no YouTube algumas gravações antigas da banda Defalla, feitas a partir de fitas cassete que guardava desde os anos 80. O conteúdo despertou a atenção do vocalista Edu K, que o procurou, reacendeu memórias e plantou a semente do que viria a se tornar o Relicário. Pouco depois, a mãe de Edu, Dona Sirley, fã declarada da banda e do rock gaúcho, doou todo o acervo pessoal da Defalla.

A partir dali, o que era um projeto despretensioso ganhou corpo e relevância. Outros nomes se somaram à missão de preservar essa memória sonora: Samarone Silveira, pesquisador e entusiasta da cena local; Darlan Porto e Daniel Tombini, colecionadores com vasto acervo de fitas, revistas e vídeos.

Um nome, porém, teve papel fundamental para dar impulso e credibilidade ao projeto: Carlos Eduardo Miranda. Músico, produtor e um dos maiores entusiastas da cena alternativa brasileira, Miranda se envolveu profundamente com o Relicário. Apoiou, doou materiais, compartilhou conhecimento e ajudou a divulgar o trabalho. Sua contribuição foi decisiva
para atrair olhares e ampliar o alcance do projeto.

“O que nos move é a consciência de que um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”, reflete Reinaldo.

O Relicário abriga milhares de itens: demo tapes, EPs, áudios ao vivo, materiais promocionais, vídeos em VHS, Betacam, MiniDV e até U-Matic, além de fotografias, fanzines, releases e publicações de imprensa, muitos vindos do interior do estado, de bandas pouco conhecidas, mas culturalmente significativas.

O projeto não se limita a artistas consagrados como Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes ou Garotos da Rua. Pelo contrário: dá voz e visibilidade a grupos esquecidos, bandas regionais, formações efêmeras cujos registros sobreviveram apenas em fitas cassete e zines de circulação restrita.

Entre os materiais mais valiosos, estão registros inéditos, como a “demo perdida” da banda TNT com Flávio Basso (Júpiter Maçã) de 1984, reencontrada mais de 30 anos depois, e o áudio do encontro de músicos da cena gaúcha de 1988, com nomes como Thedy Corrêa, Humberto Gessinger, Miranda, Jimi Joe e outros, material que complementa uma foto histórica publicada no livro Prezados Ouvintes, de Mauro Borba.

O acervo cresce a cada dia, graças às doações espontâneas de artistas, jornalistas e fãs. Katia Suman, Mauro Borba e Nilton Fernando, vozes da Rádio Ipanema, contribuíram com materiais. A Toca do Disco doou todo o acervo analógico adquirido da antiga Rádio Bandeirantes, incluindo CDs, fitas, DATs e gravações enviadas por bandas do estado
entre os anos 1980 e 2000.

Mas manter esse patrimônio não é tarefa fácil. O projeto sobrevive graças ao esforço voluntário dos envolvidos e à solidariedade de apoiadores. Os principais desafios são a falta de recursos financeiros, infraestrutura para digitalização e mão de obra técnica. Para dar conta do acervo, o grupo divide tarefas: Reinaldo organiza os materiais recebidos, Darlan Porto é o curador responsável pela guarda física dos itens, inclusive mudando-se para uma casa com espaço exclusivo para o depósito, e Fernando Sorriso cuida da digitalização de vídeos no estúdio instalado na casa de Reinaldo.

Boa parte dos equipamentos usados no projeto foram doados ou adquiridos em trocas com outros itens do acervo. Muitos dos discos e materiais recebidos que não são diretamente ligados ao rock gaúcho são convertidos em recursos para manutenção dos equipamentos, que frequentemente precisam de reparos.

Mais que guardar, o Relicário compartilha. Seus conteúdos estão disponíveis no canal do projeto no YouTube, no site oficial e em redes sociais como Facebook e Instagram. Lá, os seguidores podem acompanhar as descobertas, interagir, enviar materiais e acessar gravações que por décadas estiveram esquecidas em caixas, porões ou estúdios de rádio.

Além disso, o Relicário colabora ativamente com pesquisadores, jornalistas e biógrafos. Participou de publicações literárias como 100 Discos do Rock Gaúcho, da série Vortex, do Cubo Play, e será citado como fonte de pesquisa nos filmes sobre Júpiter Maçã e Julio Reny em produção. Também está presente no livro Essa Não Era Pra Tocar no Rádio, de Cristiane Marçal e Jimi Joe.

O sonho do grupo é transformar o Relicário em um museu físico ou mesmo itinerante, que percorra cidades do interior gaúcho levando a história e os sons que marcaram gerações. A equipe está em busca de financiamento público ou privado que viabilize essa expansão, além de apoio profissional para formatar projetos de captação. Enquanto esse futuro não chega, o trabalho de formiguinha continua. À digitalização de milhares de itens acumulados ao longo de mais de uma década segue firme, na esperança de que, em breve, possam ser publicados em grande volume e com qualidade adequada.

“Em algumas décadas nós não estaremos mais aqui, mas estamos contribuindo com um legado. Um acervo que mantém viva a história do rock gaúcho, não apenas como estilo musical, mas como expressão cultural e política de um tempo”, afirma Reinaldo.

O Relicário aceita doações de materiais físicos, digitais e equipamentos antigos. Também são bem-vindas contribuições financeiras, que ajudam na manutenção e continuidade do trabalho. Para apoiar e acompanhar o projeto, basta entrar em contato através do perfil no Instagram: @relicariodorockgaucho

 


Observação: São dois estúdio distintos: o Fernando edita video e imagens e o Reinaldo especializou-se em remasterizar áudio. Ambos trabalham em conjunto

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