Música Pop Gaúcha
Sons do Sul – A diversidade da MPG (2016)
O Caderno de Sábado aborda a música popular gaúcha, desde a MPG, batizada por Ayrton dos Anjos, passando pelo rock e outros gêneros, com artigos de nomes como Nando Gross, Antonio Villeroy, Frank Jorge e Carlos Guimarães
Foto: Bebeto Alves, Antonio Villeroy, Nelson Coelho de Castro e Gelson Oliveira lançaram ‘Juntos’, em 1981
Fonte: Correio do Povo, Caderno de sábado, dia 2 de abril de 2016
por NANDO GROSS
A diversidade da MPG
No início dos anos 1980, Ayrton dos Anjos, conhecido como Patineti, talvez o mais importante produtor musical do Rio Grande do Sul, estava no Rio de Janeiro, quando logo após um show com artistas do movimento nativista, o produtor carioca Albino Pinheiro lhe desafiou com a seguinte pergunta: “O que mais há por lá?”. Patineti não vacilou e lascou na hora: “tem a MPG”.
Quando ele criou esta sigla, definiu uma identidade para um movimento não organizado que acontecia em Porto Alegre, onde a diversidade musical era a base do negócio. Era uma relação de identidade com a chamada MPB (Música Popular Brasileira). A ideia de universalidade sempre esteve presente no DNA da MPG, tinha de tudo, todos os estilos, do regional ao rock. Compositores que apenas mostravam que existia no Rio Grande do Sul mais do que música nativista.
A sigla MPG desagradou a alguns, mas foi criativa e serviu para definir uma ideia de música contemporânea feita aqui no Estado. É apenas uma sigla, não ter um estilo único, era simplesmente uma maneira de dizer que esta era a MPB feita no Rio Grande do Sul. Tinha elementos regionais, misturados com bossa nova, tropicalismo, samba e rock. Era uma fusão da MPB com o regional.
QUANDO O ROCK É PRECONCEITUOSO E CARETA
A diversidade musical sofreu preconceitos em Porto Alegre. Se tivemos a ditadura do chamado nativismo, veio depois a do rock dos anos 1980 que, ao contrário de tudo o que representa o comportamento roqueiro, foi um movimento preconceituoso e que mandou para casa muita gente boa. E todos sabem o quanto gosto de rock, mas vivi de perto este período e sei bem o que aconteceu.
O jornalista André Barcinski, da Folha, fez a frase clássica da época onde afirmava que estava cansado da “bunda-mole” da MPB. Virou herói de uma geração de guris de apartamento. Virou moda destruir Caetano Veloso, Gil e Cia. Nada diferente do que faz hoje Lobão, os chamando de “efeminados”, “atrasados” e muito mais. Decretou-se que a Bossa Nova era uma chatice, apesar de ser a música brasileira com o maior alcance internacional. Um baiano que navegou por todos os estilos. Rita Lee estava aberta para tudo. Mutantes, direto no coração da Tropicália. Em Porto Alegre, podemos apontar o Liverpool. É fato, nos anos 1970, a diversidade convivia melhor. O rock não era tão careta. O Liverpool, formado por Mimi Lessa (guitarra), Edinho Espíndola (bateria), Fughetti Luz (vocal), Pekos (baixo) e Marcos Lessa (guitarra base), reunia uma variedade de sons. Esse era o grande barato. O Liverpool tinha influências do rock clássico, da Tropicália e da Bossa Nova e fez sucesso com músicas de compositores como Carlinhos Hartlieb e Hermes Aquino.
Em 1975, no dia 13 de agosto, no Cine-Teatro Presidente, Júlio Fürst lançou o primeiro evento do histórico “Vivendo a vida de Lee”, uma reunião de artistas fundamentais como Almôndegas, Hermes Aquino, Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson, Gilberto Travi e Cálculo IV, Status 4, Inconsciente Coletivo, Nélson Coelho de Castro, o Utopia, de Bebeto Alves e outros, como Palpos de Aranha, Mantra, Bizarro e Bobo da Corte. A diversidade era a marca do evento.
O BARATO É A DIVERSIDADE
A sigla MPG chegou depois de tudo isso, sem nenhuma pretensão maior que não fosse a de apontar para um grupo de artistas com um trabalho urbano e acima de tudo contemporâneo. Em 1982 com três dias de show, esta geração e a aceitação do público fora do Rio Grande do Sul.
Eu tenho orgulho de estar presente com a música Porto Alegre de Quintana, no histórico disco de 1984, Música Popular Gaúcha, ao lado de nomes como Nico Nicolaiewski, Elaine Geissler, Zé Caradípia, Giba Giba, Gelson Oliveira, Galileu Arruda, Sá Brito, Glória de Oliveira, Nyaia, Suzana Maris e Mauro Kwitko.
Antes, em 1978, outro disco clássico, o inesquecível Paralelo 30, com Carlinhos Hartlieb, Cláudio Vera Cruz, Bebeto Alves, Raul Ellwanger, Nélson Coelho de Castro e Nando D’Ávila. Quem tiver curiosidade, vai achar em vinil estes discos no Mercado Livre.
A “MPG” SEGUE VIVA
Como o mundo está em constante movimento, hoje conseguimos conviver melhor com os mais diversos estilos de música produzidos aqui no Rio Grande do Sul. Não importa a sigla, podemos até chamar de a nova MPG, já que tem uma galera produzindo música de alta qualidade, como Clarissa Mombelli, Gisele de Santi, Bibiana Petek, Ana Muniz, Romes Pinheiro, João Ortácio, Edgar Parobé, Rodrigo Panassolo, Thiago Ramil, Saulo Fietz, Ed Lannes, Alexandre Kumpinski, Leo Aprato, Ian Ramil, Alércio, Calvin, Frida, Jéf, Similares, Tarcísio Meira’s Band e muita gente mais. Chamem como quiser, como se dizia lá atrás: o grande barato é a diversidade.
