[PRESS] A cena Roqueira sulista em disco [Segunda Sem Ley] (1995)

A cena roqueira sulista em disco

A coletânea de 18 bandas gaúchas “Segunda Sem Ley” foi lançada pelo selo Banguela, com distribuição nacional

*Segunda Sem Ley” foi lançado no programa homônimo, da 107.1 FM, com integrantes das bandas e o diretor da rádio, Mauro Borba (foto à direita)

O novo rock gaúcho começa a transcender os saloons sulistas. Está nas lojas o CD Segunda Sem Ley, democrática coletânea com 18 bandas e um desafio: ampliar os horizontes de penetração da consistente produção roqueira do Rio Grande do Sul. Segunda Sem Ley é a primeira compilação com distribuição nacional por uma major desde o consagrador Rock Grande do Sul, de 1987 (com Engenheiros do Hawaii, TNT, De Falla, Garotos da Rua e Replicantes).

Segunda Sem Ley, mais que uma sucessão de fitas demo em CD, é registro de hits de uma cena em movimento e importante objeto de reflexão. Do questionamento sobre a distância entre nosso Estado e o dito resto do país (a expressão soa como exercício separatista), por exemplo. Foi preciso um guru (Carlos Eduardo Miranda) se tornar diretor artístico de um selo importante (o Banguela) para que estas bandas fossem lançadas nacionalmente?

Segunda Sem Ley, mais que um CD, é um trabalho de insistência e tempos, egos desmedidos, cinzas incompreensíveis. Sofre estigmas quase intransponíveis, gera reclamações pertinentes. A cena sulista dispensa a estupidez da paternidade e as acomodações têm ficado um problema de dificuldades como desculpa para a preguiça e a incompetência. A riqueza artística, inegável, está acima. O álbum tem muito dela.

Segunda Sem Ley tem um pouco do DeFalla e de Julio Reny, do barítono de Miranda (que puxou muita brasa para o seu churrasco), das ondas sonoras da Ipanema e da 107.1 (que está lançando o disco e revela a maior parte das bandas presentes). Tem o esforço do incansável Egisto 2, criador do projeto que transformou as segundas do saudoso Porto de Elis em dia oficial do rock sulista, e produtor executivo da obra. O trabalho maldito nas casas noturnas, Garagem Hermética, Megazine, Elétrika Live e as que esqueci, podem reclamar, os delírios dos desenhistas e fanzineiros, Glória Glória Aleluia, Allan Sieber (que desenhou a capa, mais para festa junina do que cena gaúcha), Fábio Zimbres (e os que esqueci…), as saudáveis esquisitices musicais do Arthur de Faria, do Birck, do Athaualpa (e os que esqueci…).

As bandas: a promissora Maria do Relento, aquém de seu potencial (o disco que será lançado em setembro, pelo Banguela, é muito melhor). Colarinhos Caóticos (com a formação antiga, e o bom hard funk de letra ruim, Opção à Dead). A reencarnação dos Cascavelletes, Júpiter Maçã, com o ótimo beatle song Orgasmo Legal. O hardcore bem tocado do Tarcísio Meira’s Band, e o melhor título do ano: Padre Hell’s. Pietá com Môrra e A Fúria com Não dá Nada, muito barulho por nada, letras muito ruim. Os hits rockabilly da Tequila Baby (embora a banda prefira ser porta-bandeiras), Malandro do Bom Fim, e do Barba Ruiva e os Corsários, De Novo (Vagabunda), comprovando o alto nível gaúcho no estilo (que já tem Acústicos e Valvulados).

As mais modernas: Soul Sexy, da Bencédit, com destaque para a produção, Will Eisner da Cowabunga!!!, com destaque para o vocal, Kill Summertime (Space Rave) e Music About Music (Crushers), boas guitar bands que soam como gringas, e Academias Xiquérrimas com o sucesso radiofônico Underwater. As melhores: Smog Fog com Meu Sertão (psicodelia, nordeste e Secos & Molhados), Los Fantomas (Catuba’s Limbo) e Aristóteles de Ananias Jr. (Bico de Pato); bem-vinda seja a “esquisitice” com potencial pop. Walverdes com Kikito aos Medas, a conexão Titãs/Mudhoney/Fellini pronta para o estouro nacional, e Non Sense, com Perversions, provando que guitar band com letra em português pode dar o maior pé.

Que seja só o começo.

 

ALGUMAS LETRAS

Minha mãe traz o jornal, e eu ligo a tevê, não sei quem é mais racional, Wagner Montes ou você (Síndrome do Mal, Maria do Relento)

Eu quero ser malandro do Bom Fim, mas o que foi que eu fiz, botei um pingo de solda no nariz (Malandro do Bom Fim, Tequila Baby)

Todas as mulheres são más, é um jogo perigoso, vocês estão cercadas, o crime não compensa (Will Eisner, Cowabunga)

O teu suor mata a minha sede, e a tua lágrima lava a minha alma (Perversions, Nonsense)

 

 


 

SEGUNDO CADERNO ZERO HORA – SEGUNDA-FEIRA, 28 DE AGOSTO DE 1995
Por Marcelo Ferla

 

Comente sobre este post: