[PRESS] O Rock nasce nas garagens (1989)

O Rock nasce nas garagens

Você liga qualquer canal de TV e via um monto de bandas de rock Antigamente não era assim, o rock sequer fez quarenta anos de idade. Mas de uns 10 anos para cá. após a explosão do movimento “punk” na Inglaterra. fazer uma banda, gravar um disco, aparecer na televisão, se tornou comum. Não é difícil fazer um disco independente, hoje, basta ter muitos amigos, um bom público. credibilidade e vendê-lo com antecedência mediante a adoção de bônus, garantindo sua produção.

Várias bandas de Porto Alegre e Interior estão fazendo isso, como Cascavelletes, Pupilas Dilatadas, Agora Somos Nós e Virgem Atômica.

O “punk”, no aspecto musical, decretou o fim do reinado da qualidade técnica sobre a vontade de dizer e fazer alguma coisa na vida. No aspecto poético. ele operou uma das mais profundas revoluções estéticas. transformando a linguagem em algo mais realista, próximo do mundo injusto e sujo que vivemos. Através de Legião Urbana, Titãs, Lobão e outros do género, canalizou as frustrações e desejos da juventude, assim como a música popular dos anos 60 e 70, através de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e outros, que gritaram contra a ditadura, até serem calados. Claro que de 1977, auge do Sex Pistols, até agora, tudo amadureceu e a sofisticação voltou a ser importante. Mas não domina mais. O fundamental é ter uma boa ideia e vontade para executá-la Isso significa criatividade. bom gosto e competência.

SOM NA GARAGEM

Hoje em dia as bandas de rock surgem nas “garagens”, nos fundos de casa, assim como o samba nasce no fundo do quintal. Como a guitarra se tornou o instrumento mais potente para atingir o grande público, o mais identificado com uma postura jovem e o mais fácil de manusear a música simples. de dois ou três acordes, se transformou num símbolo da música jovem nesta segunda metade do século XX. Há alguns anos, tocar guitarra era sinónimo de marginalidade e consumo de drogas. Hoje é dificil encontrar garotos entre 10 e 16 anos que não tenham a sua. É arrumar uma graninha, comprar instrumentos usados e fazer a banda. Em vez de pegar em armas ou soltar bombas, é melhor fazer um som.

GAÚCHOS EM ALTA

Em Porto Alegre surgem pelo menos uma dezena todas as semanas mandando fitas “demo” (de demonstração. gravadas nos ensaios) para as rádios, tocando em bares, buscando espaço nas jornais. A produção discográfica do rock gaúcho ainda é pequena, se resume a, no máximo, uma dezena de coletâneas com vários grupos e uns 30 LPs de 1966 para cá. Uma história recente. portanto. Vale lembrar que até 1980, época da explosão do rock brasileiro, nós tínhamos pouquíssimas bandas de projeção, que gravaram discos. a exemplo de Liverpool e Bixo da Seda. Mas na década de 80, o rock virou moda. Hoje, Engenheiros do Hawaii é sucesso nacional, TNT e DeFalla são reconhecidas entre as melhores formações do Brasil, Cascavelletes têm um enorme público, assim como um monte de outras bandas, e ideias boas não faltam. Mesmo com a crise, a música continua em alta. No Rio Grande do Sul o rock tem tradição e já ocupa um grande espaço, embora nem de longe tenha a força da música “nativista”.

Gilmar Eltelvein, em 14/01/1989

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