Rock gaúcho: uma olhada no agora
“Mas mesmo que o mundo não gire
Na velocidade que eu queria
Alguns edifícios por dia
Desabam dentro da avenida”
(Nei Lisboa e Humberto Gessinger, “Deixa o Bicho”)
E salva-se a filosofia. Com um banjo numa mão e um sampler na outra, o rock gaúcho vai abrindo suas avenidas.
Discos, shows, rádio, televisão – ainda que lento, o processo é de fortalecimento.
A seguir, um pouco do que anda rolando com as figuras mais representativas do cenário atual.
Khepa Gracco Paiva
Abre parênteses. Uma das poucas chances de colocar no mesmo terreno produtos tão distintos como Engenheiros do Hawaii e DeFalla, por exemplo, é sob o rótulo rock gaúcho. O que as diferenças estéticas representam em termos de sucesso profissional faz com que o título tenha uma abrangência muito maior do que a princípio possa parecer. Fecha parênteses.
Todas as bandas gaúchas contratadas pertencem ao cast da mesma gravadora, a BMG: Engenheiros, Garotos da Rua, DeFalla, TNT, Nenhum de Nós e Replicantes. Segundo um representante da multinacional em Porto Alegre, apenas as duas primeiras seriam comercialmente viáveis se fosse descontada a parcela das vendagens aqui no estado. Ou seja, quatro grupos são mantidos pela gravadora em função do mercado gaúcho (vale lembrar que a BMG, ainda sob o nome RCA, foi a criadora do selo Plug, estimulada após lançar mais de 20 bandas e cortar boa parte delas – verdadeira experiência de laboratório tendo o rock nacional como cobaia).
Numa posição mais intermediária em relação ao profissionalismo – partindo da ideia que um disco lançado por uma grande gravadora representa o caminho mais lógico para o reconhecimento, o que nem sempre acontece – estão as cinco bandas recentemente gravadas pela SBK Songs na coletânea Rio Grande do Rock: Julio Reny & Expresso Oriente, Prize, Apartheid, Justa Causa e Cascavelletes.
Destaque para a última, cujo disco independente lançado na metade do ano já vendeu cerca de oito mil cópias. Fechando o bloco, registro para a sonoridade trash do Pupilas Dilatadas, que lançou um compacto triplo pelo selo paulista Ataque Frontal e para o primeiro trabalho (independente) dos Colarinhos Caóticos. Dá pra dizer que a situação é relativamente boa para a produção
local.
Mas esta realidade tem suas contradições. O disco está vendendo pouco, a ponto de haver uma campanha da Associação Brasileira dos Produtores de Disco para que se consuma mais o produto. Com o mercado instável, acabou sobrando para duas das seis bandas da BMG: Replicantes e Nenhum de Nós tiveram o lançamento de seus elepês adiados para daqui a quatro meses. Papel de
Mau, terceiro disco dos Replicantes – que terá como faixa de trabalho “Pin up”, do Urubu Rei – e Cardume, segundo do Nenhum de Nós, só chegam às lojas em março do ano que vem. Não é preciso dizer o que isto significa para quem elabora um cronograma de atividades basicamente estruturado no trabalho em vinil.
Quanto às demais, começam a temporada de verão com o suporte de material novo na roda. O primeiro a sair foi Não Basta Dizer Não, dos Garotos da Rua. A sonoridade é a temática escolhida neste terceiro elepê mantêm-se fiéis às raízes do rock, caminho escolhido pela banda já no seu início, em 83. Musicalmente mais maduros (garantem que sua mudança para o Rio colaborou bastante neste aspecto), não parecem muito preocupados com os maus-tratos que sofrem da crítica, principalmente a paulista, por sua suposta ingenuidade. Em estrada semelhante segue o TNT. Neste segundo disco, lançado há pouco, a banda mostra sua evolução e entrosamento passeando por ritmos outros – como em “Veja Amor“, um fox trot. Fizeram dois shows de lançamento com casa cheia na Assembleia, na terceira semana de outubro. Na agenda, São Paulo (Dama Shock, 19/11), Curitiba (26/11) e Rio (Teatro Ipanema, 14 a 18/12).
Até o fechamento desta edição, as lojas ainda não haviam recebido os novos do DeFalla e dos Engenheiros, que tinham seus lançamentos previstos, coincidentemente, para o início de novembro. O primeiro chama-se simplesmente DeFalla e está matando a pau. Graças a uma força da BMG, o tape rolou aqui na redação e confirma os elogios que o trabalho vem recebendo. Sublinhando a distorção das guitarras e a violência da bateria, trechos de filmes, desenhos animados e remendos de clássicos do rock “afanados” via sampler — instrumento digital capaz de gravar e reproduzir qualquer som na altura, velocidade e tamanho desejado — pelas mãos do acionado Edu K. O inglês ameniza a virulência das letras: apenas três são integralmente em português. Uma delas, “Repelente”, tem a participação de Edgar Scandurra, do Ira!, num solo ignorante. O disco vem antecedido pela recriação em hip hop de “Como Vovô já Dizia”, sucesso pró-marijuana de Raul Seixas.
Ouça o Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém é o sugestivo nome do terceiro elepê dos Engenheiros, o grupo mais popular e também por isso o que mais vende no mercado nacional (aproximadamente 100 mil cópias do primeiro disco e 80 do segundo). A faixa título foi escolhida para ser trabalhada e já está rodando. Por mais envolvente que seja a batida, não há como desviar a atenção do texto: “O que nos devem/Queremos em dobro/Queremos em dobrar“. A fissura é grande para escutar o resto.
O ano termina com boas perspectivas. Enquanto se espera pela confirmação dos shows de lançamento dos elepês Rio Grande do Rock (dia 09/12, no Presidente) e do DeFalla (mesmo local, dia 16), já dá pra contar com a atração prometida pelos Cascavelletes para o início do mês que vem: o grupo agitou a vinda a POA da cantora argentina Fabiana Cantilo e sua banda Perros Calientes, devendo rolar inclusive uma rock’n’roll jam session. De quebra, ligue-se no especial de Natal Sul Em Canto, da RBS, que terá representando Porto Alegre, Júlio Reny & Expresso Oriente num clipe dirigido por Cunha Júnior com a música “Anita“. Nas palavras do protagonista, uma verdadeira “superprodução”.
Distribuído pela skate shop PANDA & MONIO: ‘VERTICAL’, inverno de 1988
