OS IMPLICANTES
Esta vez, não é uma frente fria que vem do sul. São quatro garotos endemoninhados, prontos para virar de pernas para o ar o resto do país.
DeFalla, o grupo gaúcho que tirou seu nome de uma enciclopédia, chegou ao primeiro LP. Uma coleção de experiências sôno-ras que destoa de todo o repertório nacional. O acontecimento mais barulhento de 1987. Mas não há tempo para introduções. O vocalista Edu K ameaça inundar o local desta entrevista, causando um maremoto no banheiro!
O baixista Flávio Santos comentava: “O Edu é um cara que põe ação nas pessoas. Por onde ele passa, não importa se as pessoas estão doentes ou quase morrendo, elas se impressionam!” Biba Meira, a baterista: “Ficam furiosas, com vontade de matá-lo!”
Edu, colocando um velho vestido bordô — provavelmente de sua mãe: “Eu me divirto pra c.” Há pouco, eu estava no salão do Hotel e uma p duma gerente veio falar comigo: “Escuta, você não pode ficar aqui de calção, com as pernas de fora”. Eu falei: “Ah, mas eu não tô de calção, tô de macaquinho”.
Biba: “Macaquinho…!” (risos) Edu: “Ela insistiu que eu não podia ficar de macaquinho. Aí eu fiz um streep e fiquei com um vestidinho ainda mais curto, que eu tava usando por baixo. Subi, botei as minhas calças com uma minissaia por cima e desci correndo. Porque eu adoro implicar!”
Ele termina de se vestir e conclui: “Todo mundo tem uma opinião. Tem umas meninas que assistem aos shows e dizem: ‘Gostei de saia e tudo. Os músculos…’ ”
“As letras têm sido feitas na hora… Em inglês, nem se fala… Eu só canto baixaria… E acaba sendo uma forma de lidar com a censura”
Difícil ficar sério com esta turma. Ainda mais na presença de garrafas de cerveja. Mesmo assim, Biba tenta resumir a transição do grupo entre as duas faixas gravadas na coletânea Rock Grande do Sul e o LP: “Num momento de impasse criativo, o Carlo, nosso antigo baixista, saiu da banda. E logo foi a vez do Edu. Me deixaram sozinha! Aí eu convidei o Castor e o Flávio para continuar o DeFalla. O Edu não resistiu e acabou voltando. Começamos a ensaiar em dezembro de 1986, um mês antes do nosso primeiro show, e aqui estamos!”
Edu deixou a guitarra um pouco de lado — a não ser para tirar microfonia ou tocar com distorção no máximo — e assumiu de vez a condição de cantor — na verdade, porém, sua garganta preferiria pertencer à James Brown. O repertório do grupo, por sua vez, tornou-se uma antologia do material da primeira e da nova formação, com músicas da banda que os dois novos integrantes mantinham anônima, Miguel & Almas, e composições do Urubu Rei, grupo onde todos, exceto Edu, tocavam há três anos.
Flávio começa as apresentações: “O Castor era baterista. Sempre tocou bateria. Até que o guitarrista da nossa ex-banda, Urubu Rei, foi viajar e ele teve que aprender guitarra na marra!”
Edu: “O Flávio, além de ser um baixista f*, também foi cantorzinho de um grupo infantil na tenra idade. Eu, claro, continuo sendo o que sempre fui: um emissário do demônio!” (risos)
De qualquer modo, a formação do DeFalla continua pouco convencional, com uma pequena loirinha na bateria. Biba: “Bateria sempre foi o meu instrumento. E sempre foi considerado um instrumento de homem, porque cria músculos. Mulher na bateria é machona!” Flávio: “A Biba é um animalzinho.”
Biba: “Teve uma época em que eu tocava em três bandas ao mesmo tempo e cheguei a ficar com 37 quilos, magrinha, magrinha… Terminava os shows quase sendo carregada! Tive que começar a fazer exercícios, a me alimentar bem. Virou uma questão de sobrevivência”.
Edu: “Ela tocou num ponto curioso. Justamente pelo tamanho e força, ela precisa se cuidar mais pra tocar. Acaba sendo a mais séria da banda. O resto é a maior canalhada! Na antiga formação, a gente vivia ensaiando. Agora, quanto menos ensaiamos melhor!” Flávio: “A gente compõe nos shows”.
Edu: “As letras têm sido feitas na hora. Hoje, eu estava vendo um desenho na TV, tirei umas frases dele e fiz outra letra. Em inglês, então, nem se fala! Eu só canto baixaria com meu inglês canhestro. E acaba sendo uma forma de lidar com a Censura”.
Como esta improvisação foi acabar num disco? Edu: “Inicialmente, com a ajuda do produtor (Reinaldo B. Brito), é claro. Ele colocou tudo o que sabia de estúdio nas nossas mãos. A gente gravou todas as bases ao vivo, em quatro dias. Depois vieram os efeitos”.
Flávio: “A faixa ‘Rusty James’ a gente terminou no estúdio”. Edu: “Jo Jo’ eu compus na rua, andando sozinho, de madrugada, na boca do lixo. Eu comecei a cantar só pra não me apavorar… No dia seguinte, cheguei no estúdio e gravei o vocal. Coloquei uma bateria de boca, um extintor de incêndio e umas percussões em cima…”
O guitarrista Castor Daudt interrompe sua Sessão da Tarde na TV — está passando De Volta ao Planeta dos Macacos — para dizer: “A gente gravou ‘Trashman’ com duas baterias. Eu toquei a outra”. Biba: “A gente não se preocupa se vão gostar das nossas músicas ou não. Se vai tocar no rádio, se vão nos criticar… É o que a gente quer fazer que importa”.
E o que é mais excitante no momento? Flávio: “Funk, hard, funk… Tudo o que der pra bater pra c*”. Edu: “A minha punheta atual é rap. O tempo todo, na rua, dormindo, eu tô cantando rap. Mas a gente não é uma banda só de um estilo ou que imita só uma banda. Misturamos tudo estupidamente!”
Como se não bastasse, eles desenvolvem trabalhos ainda mais ignorantes em bandas paralelas — Atahualpa, Montezuma e Três Almas Perdidas. Edu: “São bandas que não precisam ficar se esgotando em ensaios pra fazer show. A gente ensaia por telefone, num esquema totalmente despreocupado”.
Biba: “É um tipo de postura compartilhada por várias bandas em Porto Alegre. Fora as que os guris tocam, tem Os Replicantes, Os Cascavelletes…”
Algum recado pro rock nacional? Biba: “Pra p!” Flávio: “De todas as bandas do Brasil, eu ainda prefiro os Mutantes. Eles tinham esse feeling de liberdade musical que as bandinhas pós-Blitz perderam. É f pensar que uma coisa que foi feita nos anos 60 ainda está na frente…”
Essa postura f* de fazer o que dá na telha lembra, hoje em dia, os Beastie Boys. Flávio: “Eles não tão nem aí pra qualquer coisa. Mas são americanos que moram em Nova York”. Edu: “É uma grande diferença. Eles fazem o que querem com money. A gente faz o que pode sem dinheiro. Papapaparty. Fe-fe-fe-festa, como diz o Castor em seu inglês gago”.
DeFalla é uma boa banda pra animar uma festa? Edu: “Depende de quem estiver na festa. Se todo mundo estiver bêbado vai ser ótimo! Os bêbados sempre se ajoelham aos nossos pés!” Castor, em outra rara intervenção: “Mais uma cerveja!” (risos)
Edu: “A gente adora encontrar pessoas legais, débeis… E isto é o que mais pinta nas nossas viagens”. Biba: “O DeFalla viajou pra c* desde o começo, sem ter disco, sem ter nada. A gente pagava pra se divertir em outros lugares”.

