Atlântida Sul Concert
Não foi um final apoteótico para a maior festa do Rock brasileiro porque, apesar das excelentes atrações, o público foi o menor de todos os quatro sábados: não mais do que seis mil pessoas assistiram à última noite do Atlântida Rock Sul Concert
Mas, levando-se em conta que 36 mil pessoas com toda a promoção acompanharam de perto o trabalho de 13 bandas do Rio de Janeiro. São Paulo Brasília e Bahia – mostrando um quadro bastante significativo do que está se fazendo hoje em termos de Rock no Brasil – e sete bandas de Porto Alegre (estas também resumindo o que de melhor está sendo feito no Rio Grande do Sul) o resultado final foi altamente positivo e merece ser destacado pela determinação doa organizadoras em transformar a efervescente Porto Alegre em palco desta síntese de Rock nacional, embora as tendências mais radicais punks e heavy’s não estivessem presentes.
A última noite de uma sonorização um pouco melhor do que a anterior, menos embolada, embora ainda bastante aguda e estridente, caracterizou-se por um clima imito altamente dançante. do inicio ao fim. Descontando-se algumas baladas de Lulu Santos e a apresentação de Alceu Valença – que encerrou tocando sozinho apenas com seu violão elétrico, o que demonstrou sua coragem, força e carisma para segurar a barra toda (Alceu era o único de todas as noites que se diferenciava a proposta como um todo, embora seu trabalho seja bastante Identificado com o espirito Rock) – ninguém deixou a peteca cair, Lulu Santos, o romântico do Rock, abriu a noite com suas baladas de fácil assimilação e gosto popular. Com uma ótima banda de apoio, onde se destacam um saxofonista incrível e um ótimo baixista, Lulu dominou o público com grande competência, fazendo-o cantar junto vários sucessos. num show simples que agradou a plateia.
A única banda da noite, a gaúcha Garotos da Rua entrou em seguida para detonar de vez seu Rock básico, pulsante e competente. Foi quem melhor trabalhou a produção, com iluminação bem cuidada, chuva de balões e até sirenes. O Garotos da Rua é quem melhor faz o Rock and roll básico, anzolado das raízes do blues, juntamente como Taranatiriça. Tem um trabalho pronto, é o tipo de banda que resiste a modismos e que veio pra ficar. Antes de partir, não esqueceram de registrar ao público: “Porto Alegre é a capital do Rock graças a vocês”.
Outro gaúcho, mas radicado no Rio de Janeiro, Joe e sua banda Terceira Onda entraram em seguida e não deixaram por menos: Rock super dançante também, do inicio ao fim. Ex Zezinho Athanásio, fora do Estado desde 1977, Joe fez seu primeiro show em Porto Alegre surpreendendo o público, até certo ponto, com um punhado de sucessos que poucos sabiam ser de sua autoria.
O público gostou do show e Joe deixou o clima lá em cima para o inquieto, irreverente e versátil Lobão determinar o clímax da noite. Genial guitarrista/baterista. fundador do progressivo Vimana e da Blitz, atacou com seu Rock carioca vigoroso, cheio de garra e energia. Vestido com um macacão militar e acompanhado de sua nova banda Os Mutuários, Lobão tocou músicas da época dos Ronaldos e outras após a dissolução do Vimana, além de novas em parceria com o vocalista Cazuza (Ex-Barão Vermelho). Rock pulsante com pitadas Bossa Nova e alguns hinos Pops já consagrados como Decadente Avec Elegante, Corações Psicodélicos e Me Chama sustentaram a boa presença de Lobão. Pra fechar, o mágico Alceu Valença desafiou todo mundo entrando apenas de violão no palco. De boina e roupa colorida.
Alceu fez uma retrospectiva de vários sucessos, conseguindo uma empatia enorme com o público, um feedback difícil de alguém estabelecer. levando-se em conta, principalmente, que ele encerrou todo um festival essencial mente de bandas o grupos e particularmente, urna noite de energia sonora máxima. Ele é, sem dúvida. único. Carismático, segurou o público durante uma hora e 40 minutos, fazendo “repente” para todos cantarem juntos e descansarem em paz depois de muita pauleira, numa verdadeira “comunhão”. Quando Alceu encerrou o show, o Gigantinho já estava bastante esvaziado, as duas da madrugada. A maioria já tinha ido embora, cansada mas satisfeita depois desta verdadeira “overdose”.
Pode-se dizer depois de tudo que aconteceu este ano. que o Rock chegou ao seu auge no Brasil. E que sua permanência na linha de frente do show business vai depender. a partir de agora. da criatividade e remoção do limo já criado. Afinal as gravadoras é que determinam o que deve estar na ordem do dia, e pedras que
ZERO HORA, por Gilmar Eitelvein (14/10/1985)
ACERVO – LEANDRO BOEIRA
