Enquanto as Bandas TNT e Prisão de ventre realizavam show no bar B52, acontecia no ‘Gigantinho’ o Atlântida Rock Sul Concert (ou apenas Atlântida Rock Concert). Foi no dia 12 de outubro (um sábado), no ginásio Gigantinho, em Porto Alegre. O evento é historicamente lembrado pela ‘explosão’ do rock gaúcho e nacional da época. O festival reuniu grandes nomes do “novo rock brasileiro” e bandas locais. Entre as atrações estavam o Capital Inicial, Os Replicantes, Os Eles, Urubu Rei (com Julio Reny) e Garotos da Rua.

A curiosidade Histórica do Rock Gaúcho, foi que o show da banda Urubu Rei tornou-se famosa na memória cultural de Porto Alegre por ter sido alvo de uma chuva de latas e vaias por parte do público, que na época apresentava certa resistência a algumas sonoridades ou à própria curadoria da rádio.

O grupo, que contava com atores e performers conhecidos na cena teatral de Porto Alegre, era conhecido por um estilo “malucaço” e cênico. Assim como outras bandas da época, a Urubu Rei integrou o histórico de shows marcados por reações negativas do público em Porto Alegre. As vaias e episódios de “chuva de latas” eram, em certo sentido, parte da dinâmica agressiva dos shows de rock na cena cultural de Porto Alegre durante aquele período. A banda é citada como parte do panorama do rock gaúcho, listada em registros de bandas “forever” da capital gaúcha.

O evento ocorreu no mesmo ano do primeiro Rock in Rio e consolidou o Gigantinho como um palco central para o rock no Rio Grande do Sul.

 

Banda Urubu Rei – Dulce Helfer / Agencia RBS

Trecho da matéria: ‘vaias históricas: músicos gaúchos relembram shows marcados pela rejeição do público’
Alexandre Lucchese

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No mesmo ano, o Atlântida Rock Sul Concert reuniu pela primeira vez no ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, os maiores destaques do novo rock brasileiro. Léo Jaime, RPM, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Titãs e Camisa de Vênus foram os convidados dos primeiros dois dias, complementados pelos locais Os Eles, TNT, Engenheiros do Hawaii e Os Replicantes. Tudo estava tranquilo até a terceira noite, quando Ira, Legião Urbana e Ultraje a Rigor fechariam o espetáculo depois das gaúchas Taranatiriça e Urubu Rei.

Como no Rock in Rio, onde as bandas brasileiras precisavam lidar com a ansiedade do público pelas atrações internacionais, no Atlântida Rock Sul os grupos gaúchos encaravam uma plateia sedenta pelos destaques nacionais. E, também como no Rock in Rio, nem todos se deram bem. O grupo Urubu Rei foi tão vaiado que o show precisou ser abreviado por conta da enxurrada de latas e garrafas arremessadas ao palco – a própria banda não sobreviveu ao ataque, decretando seu fim meses mais tarde.

Os apupos começaram logo nos primeiros minutos, como conta o vocalista Julio Reny na biografia Julio Reny – Histórias de Amor e Morte, escrita pelo jornalista Cristiano Bastos: “Levamos uma fenomenal vaia. Coisa do inferno. Vaia gratuita, do nada, de mais de 15 mil pessoas”. O cantor e compositor também lembra que sua então mulher, Jaqueline, e a filha, Consuelo, cinco anos, assistiam à performance: “Ao longo do show, em meio à saraivada de vaias, o público, em coro, começou a me chamar de veado. Eu não disse nada, apenas saquei a pequena garrafa de uísque, que eu guardava no bolso, e arremessei em direção a eles. Pra completar a tristeza daquela noite, a Jaqueline tinha levado a Consuelo ao show, e ela perguntou: ‘Mãe, por que eles tão xingando o pai?'”.

Para Carlo Castor Daudt, guitarrista da Urubu Rei, a vaia representa o momento de transição vivido então pelo rock gaúcho. Apesar de haver um circuito musical alternativo na Capital, que tinha como polo o bairro Bom Fim, Urubu Rei e outras bandas ainda não se projetavam na imprensa e no rádio, sendo completamente desconhecidas para muita gente.

– Essa vaia foi emblemática porque foi o último momento em que o rock gaúcho ainda era encarado como algo menor em relação aos artistas nacionais. Mais tarde, toquei na segunda edição do Rock Unificado, também no Gigantinho, com a banda Atahualpa y Us Panquis, com um show muito mais agressivo, e fomos muito bem recebidos – diz Castor.

De fato, entre o Atlântida Rock Sul e o 2º Rock Unificado, quase um ano depois, o lançamento do disco Rock Grande do Sul ajudou a projetar artistas dentro e fora do Estado. Com Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, Garotos da Rua, TNT e DeFalla, essa coletânea foi o primeiro aceno de uma gravadora internacional, a RCA, à nova cena roqueira gaúcha.

Só que o desconhecimento não foi o único propulsor das vaias ao Urubu Rei. Sua sonoridade também contribuiu.

A banda que subiu ao palco havia passado por uma reformulação. Saíram as cantoras, as atrizes Luciane Adami, Lila Vieira e Patsy Cecato, e a baterista, Biba Meira. Ficaram Carlos Eduardo Miranda, conhecido como Gordo Miranda, nos teclados; Carlos Castor Daudt na guitarra; e Flavio “Flu” Santos no baixo; entraram Julio Reny nos vocais e Bebeto Mohr na bateria. A mudança acompanhava uma tendência do rock brasileiro oitentista. Após o estouro da carioca Blitz, fenômeno nas rádios em 1982, popularizaram-se grupos inspirados pela new wave, mesclando teatro e humor, como Gang 90 e as Absurdettes e Metrô. Em um segundo momento, vieram as turmas de São Paulo (como Titãs e Ira!) e de Brasília (Legião Urbana, Capital Inicial), com sonoridade mais crua e ênfase nas letras. Atenta ao que era produzido fora do país, o Urubu Rei apostou em um som mais gótico, baseada em influências como Echo & the Bunnymen.

– Imagina o público desavisado, em 1985, que só escutava Ultraje e Legião nas rádios, ouvir um som parecido com bandas como The Icicle Works ou Killing Joke, mas cantado em português. Deve ter sido bizarro mesmo – avalia Castor.

Com o fim da Urubu Rei, Julio Reny reuniu Flu e Castor ao baterista Paulo Renato e ao percussionista Fred Lamachia para criar o Expresso Oriente – e se firmou como um do principais compositores gaúchos de rock. Em 1987, Castor e Flu foram para o DeFalla. Ao lado de Edu K e Biba Meira, lançaram os marcantes discos Papaparty (1987) e It’s Fuckin’ Borin’ to Death (1988). Entre reformulações e rompimentos, o DeFalla virou uma banda com fãs fiéis, boa recepção da crítica e eventuais shows para multidões, como no Hollywood Rock de 1993. Neste festival, que recebeu Nirvana e Red Hot Chilli Peppers, Edu K resolveu tirar a roupa e permanecer no palco apenas com uma meia cobrindo a genitália diante das 30 mil pessoas que ocupavam a Praça da Apoteose, no Rio. Dessa vez, não houve vaia.

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