fev 092013
 

Matéria sobre o ‘Discografia do Rock Gaúcho’, realizado em fevereiro de 2013: uma celebração roqueira, um pré-carnaval pagão.

Discografia do Rock Gaucho 2012 no Opinião - Olelê Music

Foi catártico, caótico. Três divindades do rock gaúcho, tocando na íntegra seus álbuns clássicos. Um missa roqueira, em três atos. Frank Jorge rezou o lendário Carteira Nacional de Apaixonado (2000). Wander Wildner trouxe as escrituras do punk brega, contidas em Baladas Sangrentas (1996). Com a formação original, o DeFalla subiu ao palco para anunciar o armagedom, com o seminal It’s Fuckin’ Borin’ to Death (1988).

Era tudo parte do projeto Discografia do Rock Gaúcho. De segunda à quinta-feira, o palco do Opinião, em Porto Alegre, também recebeu Bidê ou Balde, Tequila Baby, Acústicos & Valvulados, Cachorro Grande e a desconhecida Tópaz. Perdoar é divino. Apele à indulgência para estes, pois havia uma Santíssima Trindade no line-up, duas delas abrindo os trabalhos da celebração pagã.

Chamado de professor pelos músicos gaúchos – e não só pelo fato de dar aulas na cátedra de rock na Universidade do Vale dos Sinos –, Frank Jorge bem que merecia a alcunha de Pastor, tamanha a sessão de eucaristia que conduziu, enfileirando em obediente sequência as faixas do aclamado disco de estreia. Na abertura do bis, empunhando a guitarra como se erguesse um crucifixo, fez de Jê T’aime Moi Non Plus, de Serge Gainsbourg, sua homilia. No final, com o hino Amigo Punk, da Graforreia Xilarmônica, o Opinião quase veio a baixo, em fervoroso êxtase.

Discografia do Rock Gaucho 2012 no Opinião - Olelê MusicO rebanho mal teve tempo de pecar, seja profanando o banheiro ou mesmo no confessionário do bar. Quinze minutos depois, Wander Wildner já  pregava suas desilusões punk bregas, renegando qualquer esperança de vida pós-morte ao anunciar em três acordes a existência, se finita e incerta, não menos romântica e divertida. Com Biba Meira na bateria e Jimi Joe na guitarra, Wildner entoou mantras como Bebendo Vinho, Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo e Um Lugar do Caralho. Neguinho só não ajoelhou em frente ao palco pra não ser chutado pela horda de fieis em devaneio pogo.

Todavia, o caos, a catarse, enfeitiçou mesmo as ovelhas na quinta-feira, na última noite, no juízo final. A Cachorro Grande abriu os trabalhos com o disco homônimo, de 2001, dos hits Sexperienced, Lunático e Um Dia Perfeito. O show acabou com os instrumentos jogados pelo palco, a bateria despedaçada, os músicos se erguendo uns sobre os outros, aos espasmos de borracheira, como se recém saídos de uma sessão 380 volts de descarrego.Discografia do Rock Gaucho 2012 no Opinião - Olelê Music

Mas se havia um fio desencapado no palco, ele vinha da usina nuclear que é Edu K. De camisa estampada por caveiras multicoloridas, óculos verde-limão, bermuda de lycra grudada às coxas e cabelos tingidos de roxo, ele subiu ao palco libidinoso como sempre, uma puta velha castigada pelas rebordosas, ainda assim sempre a fim de uma última trepada, mesmo que nas escadarias da Igreja Matriz.

Discografia do Rock Gaucho 2012 no Opinião - Olelê MusicEndiabrado, Edu K operou o exorcismo da gurizada, muitos nem sequer nascidos quando It’s Fuckin’ Borin’ to Death foi lançado, vários quarentões a aceitar em contrição a hóstia anfetamínica do Defalla. Em sua pregação apoteótica, Edu K subiu nas torres de luz, se jogou na platéia, cantou deitado e em cima das caixas de som. Dividiu o pão e o vinho.

Vestido de caneta marca-texto, sublinhou em em alta rotação os textos sagrados do funk, do hip hop, do metal, gotejando humor e picardia em cada verso, cada ignomínia, cada benção.


– Essa é uma música pra todo mundo cantar com o dedo no cu – anunciou, antes de It’s Fuckin’ Borin’ to Death, a música que dá nome ao disco que antecipou tendências e influenciou boa parte da última geração de relevância no rock nacional – de Chico Science a Pato Fu, do Mundo Livre S/A ao Planet Hemp.

Na última canção, uma cover atravessada de (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Stones, Fred Endres, da Comunidade Nin Jitsu, surrupiou a guitarra de Marcelo Fornazzo, Rodrigo Azambuja, da Cachorro Grande, espancou o surdo de Biba Meira, Beto Bruno beijou Edu K na boca, e o frontman da DeFalla mostrou a bunda branca e gorda ao público. Um desfecho profano antecipando o Carnaval. Agora vem a quaresma para redimir a todos. Saravá.



 

fonte: http://escarceu.wordpress.com