ago 172013
 

1977 em POA, com 15 anos, eu estudava no Colégio de Aplicação, dentro da UFRGS, ali na Oswaldo Aranha ao lado da Redenção. Assistia e já participava dos “protestos estudantis” contra a Ditadura Militar e já conhecia bem o gás lacrimogênio da polícia, “os porcos”, como se dizia na época…

Cabelos compridos, cigarrinho no bolso, eu colecionava discos e assistia filmes de Rock, sonhando em, um dia, montar uma banda, assim como todos meus amigos e amigas. Conheci, certo dia, o Beto (Beatle) Piu-piu, guitarrista-solo de uma banda de rock gaúcha super bacana: o “CAMINHÃO HONESTO”. Ele me apresentou o outro guitarrista-base, o “iniciante” Marcelo Truda. Ficamos amigos na hora e eles me contaram que precisavam de um baterista que TIVESSE uma BATERIA…

Putz, era uma banda de verdade(!!), os caras tocavam muito bem, tinham músicas próprias, uns covers legais, e o vocalista era uma figura rara (Carlos Borba), e imitava o Mick Jagger bem antes do Flávio (Jupiter) Basso.

Longa estória curta:  meus pais (Élio e Denise Daudt) me deram uma bateria (além de carrega-la comigo pra todo lado), e daí começamos a ensaiar e fazer shows. Aprendi a tocar da noite pro dia, literalmente, até hoje não sei como…acho que já nasci sabendo…

Percorremos o circuito de “quermesses”, “ginásios de escola”, “festivais estudantis” (destaque para o prêmio de “Melhor Interpretação” no FAC (Festival Anchietano da Canção) em 1978 no Teatro (atual OSPA) Leopoldina, com direito a foto na ZH e etc…). Ainda toquei em algumas outras bandas mas eventualmente cansei de tudo isto, até o “BIXO DA SEDA”, nossa inspiração maior, tinha debandado pro RIO virar banda de apoio das “FRENÉTICAS”…

Fui estudar Comunicação: entrei no Jornalismo da UFRGS, na FABICO com o Miranda, Beto Andrade, Poli e uma pá da malucos e ainda fiz Publicidade na PUC, FAMECOS, onde conheci meu grande amigo e eterno companheiro de música: Flu Santos!

O Marcelo Truda tinha se juntado com o Flu e o Miranda pra formar o TARANATIRIÇA Instrumental e basicamente era o que rolava na época: bandas instrumentais meio “fusion-prog”, como RAIZ DE PEDRA, CHEIRO DE VIDA, VÔO LIVRE e etc…

Um dia o Miranda me avisou que tinha saído do TARA, com o Flu e o Rodrigo Corrêa, e me convidou pra tocar bateria no URUBU-REI. Foi cara que me resgatou de volta pra música e pro rock. Depois virei até “guitarrista”, quando a Biba Meira começou a tocar bateria legal e o Rodrigo foi morar na Europa, deixando sua Telecaster aos meus cuidados…

E o DeFalla?

Bem, acho que lembro de estar na casa do Miranda ensaiando, e ver uns garotinhos esquisitos chegarem lá pra falar com ele. Eram o “Edu K” e o “X”. Roupas New Wave, cabelinho meio abichonado, a lá “DURAN DURAN encontra PRINCE”…rs.

Ficamos tirando sarro, claro, pois nos considerávamos, tipo,” veteranos”, sabe? Putz, eu já estava na 5ª banda, tinha saído da bateria pra guitarra, já compunha alguma coisa…enfim, só restava tirar sarro com esta garotada “novinha” e esquisita, né? Aquela arrogância sadia da juventude…mas deu pra ver que esta garotada era uma nova geração que já estava aparecendo.

Nessa época a gente escutava muita coisa, mas muita coisa mesmo: TALKING HEADS, POLICE, BLITZ, PARALAMAS, ROXY MUSIC, GANG OF FOUR, B-52s, GONG, U2, DAVID BOWIE, THE CURE, THE CHURCH, ICICLE WORKS, PSYCHEDELIC FURS, PREFAB SPROUT, ECHO &THE BUNNYMEN, SONIC YOUTH, SPANDAU BALLET só pra citar a “ponta do iceberg”…nem vamos citar os clássicos BEATLES, PURPLE, YES, LED, CRIMSON e etc…

Essa salada sonora foi se distribuindo em várias bandas que participávamos: eu tocava bateria no ATAUALPA e os PUNKS, cantava nos BONITOS, tocava guitarra no URUBU e depois com JÚLIO RENY & EXPRESSO ORIENTE (formação original com o Flu), tocava bateria e guitarra na MIGUEL & CIA. Fui desenvolvendo a capacidade de compor na guitarra e violão, e sempre tive uma queda por arranjos melódicos e “grudentos”.

Descobri que aqueles garotos esquisitos, afinal, tocavam e cantavam bem, principalmente um “tal de Edu K”, que formou com a Biba e o Carlo Pianta uma tal de “banda DeFalla”…

Enfim, tudo isso culminou com o convite da Biba no final de 1986 para entrar no famigerado DeFalla e gravar 2 discos pela BMG-Ariola em SP. Na época eu e o Flu estávamos entrando no estúdio da ACIT para gravar o primeiro LP do JÚLIO RENY & EXPRESSO ORIENTE…

Lembro que foi uma decisão difícil, mas a proposta do DeFalla era irrecusável, né? O Júlio entendeu, eventualmente…e fomos substituídos, perfeita e magnificamente, pelo Carlo Pianta e pelo Jimi Joe na EXPRESSO ORIENTE. Tudo perfeito!

Por isso o primeiro LP do DeFalla (Papaparty) tem tanta coisa misturada: é a culminação de anos de tentativas, outras bandas, experimentos e maluquices resumidas em 30 e poucos minutos de delírio sonoro.

O produtor, Reinaldo Barriga, simpatizou conosco e a nossa “proposta musical anárquica” e contribuiu enormemente pra tudo isso, A gente ficava horas e horas conversando, virávamos a noite com todo o tipo de aditivo químico disponível, filosofando sobre a vida, a música, o rock, o universo e tudo mais…

Resgatamos músicas do URUBU-REI, como “Não Me Mande Flores”, outras do MIGUEL & CIA como “Ferida” e “O que qué icho” e ainda despejamos todas as crias na panela: “Sobre Amanhã” é minha com letra do Edu, a música claramente influenciada pelo “THE CHURCH” ou “PINK FLOYD” se quiser…e mais umas clássicas do “DeFalla TRIO”, como “Sodomia”, “Alguma Coisa” e “Tinha um Guarda na Porta”.

O resto foi composto ao vivo (“Jojo”, “Rusty James”, “Trashman”) lá no estúdio da RCA em SP, no bairro Sta. Cecília, padroeira dos músicos, com uma pitada de LSD e outra de erva, e muita comilança e bebedeira nos bares próximos e no Hotel Lord, tudo às custas da BMG-Ariola, cuja administração nem imaginava a loucura sonora que estava sendo gravada nos seus estúdios…

Eu usei bastante uma Viola de 12 cordas Giannini, companheira inseparável de viagens, uma Guitarra Telecaster Fender 70’s, companheira emprestada pelo amigo Rodrigo Corrêa (MIGUEL & CIA), uma Guitarra Stratocaster Fender dos estúdios da RCA, uns pedais tipo MXR distortion (que uso até hoje), lembro de utilizar uma “Caixa Leslie” para fazer uns efeitos de guitarra em “Não me Mande Flores” que ficou com som de teclado (muitos confundem), mas foi guitarra. Usei uma outra Bateria lá do estúdio para gravar uma segunda bateria em “Trashman”, ao vivo.

O disco, na época, foi até bem-recebido pela crítica e pelos músicos, mas o público, obviamente, custou um tempo pra começar a entender o que estava acontecendo…e até hoje continuam tentando entender…felizmente com a volta do DeFalla formação clássica, em 2011, muita gente está podendo assistir aos nossos shows e curtir a nossa “química sonora” inimitável…

Ah…agora vem DISCO NOVO do Defalla por aí, a luta continua!! Cheers!!!

Castor Daudt – DeFalla