ago 122013
 

O primeiro disco do Defalla é de uma porra louquice ainda maior do que se imagina! Para explicar a situação é necessário que se vislumbre um pouco do background da banda e da época: o Defalla começou, na verdade, em Foz do Iguaçu, na época em que eu era conhecido como Travoltinha e arrasava na pista nas matinées Disco do Clube da Vila B de Itaipu.

– Como assim?

Pois bem, sou porto alegrense mas passei a vida inteira pra cima e pra baixo atrás de meu pai, um verdadeiro e alucinado nômade! Fiz 3 anos de idade em São Paulo e depois disso viajamos (e moramos) por tudo que é lugar imaginável. Numa dessas fui parar em Foz do Iguaçu, onde minha pré adolescência flui desenfreada, incluindo a descoberta dos Stones no Fantástico, minha primeira guitarra (que era um pedaço de pau velho que meu pai achou num barranco atrás do mesmo clube supracitado. Sim, é vero!), noitadas na rua regadas a muita coca-cola e gangsterismo teen e, claro, as bucetinhas no matagal ao lado de minha casa!

Mas, muito mais do que isso tudo: foi em Foz que montei minha primeira banda e onde me tornei Edu K! Esta famigerada banda se chamava Fluxo de Energia e contava já com a presença de meu amigo Chileno (o outro Travoltinha da cidade. Mas, isso já é uma outra e longa história), Gustavo Aguirre, o famoso Xyss.

Pensávamos ser a resposta brasileira aos Stones, quisás ainda melhores do que os velhos fanfarrões! O problema é que quando a banda descolou um baterista (a formação inicial incluía 2 guitarras, um pandeiro muito mal tocado e um vocalista – alguém aí falou Jesus & Mary Chain?), começou a deslanchar e arranjar shows (que não fossem no colégio ou na igreja dos Mórmons – sim, um de nós namorava uma Mórmon! Haha) mais uma vez tive que levantar acampamento a serviço do fogo no rabo de meu pai, o eterno andarilho das galáxias!

Me mudei para Porto Alegre, inicialmente muito a contragosto mas, muito brevemente descobri a Rádio Ipanema e que havia uma cena incrível se formando na cidade, muito além de Borghettinhos, Pilchas e Mate.

Alguns meses depois Xyss veio morar comigo e demos continuidade à banda, agora apenas Fluxo. Nessa conhecemos Miranda e Gerbase na Free Discos, saudosa loja de LPs usados que ficava debaixo do Viaduto da Borges e o resto é história. Mas, pra quem não fez seu dever de casa, o que se passou foi que num ensaio na garagem do Miranda, de sua espetacular banda Urubu Rei, conhecemos (e nos apaixonamos) por Biba, Castor e Flu, trio que juramos um dia roubar de Miranda! Hehe!

No fim, Biba entrou para debaixo de minhas cobertas e para a bateria da Fluxo. Nos tornamos a grande coqueluche New Wave da cidade com direito a roupas escandalosas roubadas do armário da mãe (ou compradas na über avant garde, Kras, loja de roupas para senhoras destrambelhadas e fashion que ficava ali na Oswaldo Aranha) , muito hair (a la Duran Duran) & make-up patrocinados pelo salão mais pica da época, o Scalp e filas de coroas (coroas? Para nós na época era o que parecia mas, pensando bem deviam ser distintas garotas no auge dos seus 20 e tantos anos) dispostas a pagar o quanto fosse pra nos levar pra casa, abusar de nossa latejante juventude e depois nos colocar na estante junto a outros diversos e cintilantes bibelôs.

Agora vamos ao que interessa de verdade: Carlo Pianta entrou para a banda com sua cachopa, sua genialidade e seu baixo furioso. Porém, um certo dia a famosa , e diplomaticamente conhecida como,“divergência de ideais” fez com que Xyss saísse da banda. Na verdade o que ocorreu foi que ele continuou a banda com outra formação e eu, Carlo e Biba (já enfeitiçados pela onda Goth que emanava seus sinais soturnos de Londres e eternamente fãs do Prog Rock) demos adeusinho à New Wave e criamos o Defalla.

Um pequeno porém, após gravarmos juntos a famigerada coletânea que mostrou o Rock Gaúcho ao mundo (leia-se SP e Rio), e já com contrato assinado para mais 3 discos, eis que Pianta se emputece e decide deixar a banda.

Edu K. e sua mãe, a Syrlei, 2013

Cri…cri…cri…cri…

Pois é, eu e Biba ficamos sem eira nem beira. Por um tempo tentamos tocar a banda só os dois, amontoados no estudiozinho no quartinho de empregada que a Biba tinha no AP da Santana onde morava com a mãe.

Num dado momento até eu me enchi e disse: tchau, chega de Defalla! (Pode uma coisa dessas?) Nisso Biba chama Castor e Flu pra re-formar a banda com Lila Vieira (uma das beldades crooner da Urubu Rei) nos vocais.

Eu fico sabendo disso e penso, PORRA , é a minha banda dos sonhos! É agora ou nunca. Em resumo, voltei à banda e começamos a compor novas músicas para o primeiro disco.

Como Carlo saiu da banda apenas um mês antes das gravações se iniciarem ficamos com um rombo no coração e no repertório. Isso gerou a salada sonora que é Papaparty (nome secreto do primeiro disco do Defalla: só nós mesmo para inventar uma balaca desse naipe, haha): algumas composições da Fase inicial com Carlo, algumas coisas novas que fizemos juntos, já com a nova formação (que acabou ficando conhecida como a formação “clássica”) e algumas músicas de outras bandas nas quais tocávamos (os anos 80 foram uma verdadeira suruba, tanto na cama como nos palcos!). Isso gerou um caleidoscópico sônico impressionante, um verdadeiro pot-pourri de tudo que andava rolando na cidade no momento.

Corta para a banda desembarcando em São Paulo com um mês de estúdio em lockout só para nós (o legendário Scatena onde os Mutantes gravaram boa parte de sua obra), pilhas e pilhas de instrumentos incríveis à nosso dispor, muito ácido, juventude desguiada e um PUTA produtor , Reinaldo Barriga, que soube entender nossa onda sem censurar uma coisa sequer durante todo o processo – e isso inclui solos de guitarra gravados através de um microfone dentro de um piano enquanto nosso amigo Navarro dedilhava e arranhava algumas notas, dentre tantas outras porra louquices!

Com a cabeça nas nuvens, hospedados em um hotel (o saudoso Lord e, já decadente Lord, em Santa Cecilia) onde enchíamos a cara o quanto quiséssemos (na nota iam dez bananas Split, 8 cocas e 15 ovos com bacon, hahaha), totalmente infiltrados na noite paulistana no seu auge e cheios de vigor e idéias malévolas, foi neste ambiente de sonho que fizemos história e mostramos o pau!

Depois de longas sessions procurando o coelho de Alice nos cantos da sala de gravação, improvisando e criando furiosamente in loco, com a alma de Miles Davis, James Brown (oops, haha) e Jimi Hendrix pairando sobre nossas cabeças, sem mencionar os próprios papas da psicodelia brasileira e fregueses antigos da casa, os Mutantes, chegou a hora de mostrar o disco pronto para a gravadora, RCA à época. O grande truque de Reinaldo Barriga, o grande produtor e chapeleiro maluco – dentre muitos outros que tirou de sua cartola (inclusive nos permitindo a façanha de ter sido a primeira banda a gravar um Sampler em disco no Brasil) – foi enrolar os executivos até que não houvesse mais volta: o disco está pronto. É pegar ou largar!

Na reunião onde os suit & tie tomaram conhecimento da pajelança tropical que ocorrera no decorrer daquele mês mágico em SP teve nego vomitando, pulando pela janela, praguejando e excomungando Barriga, enfim, foi o caos total! Mas, agora já era tarde, o disco estava prensado e pronto para ir para as lojas de nosso Brasil varonil! HAHAHA! Que golpe de mestre (e o pior é que ele repetiu a dose no segundo disco, It’s Fuckin’ Borin’ To Death – sim, mais um nome de disco secreto!).

Fora isso ainda temos a singela capa do LP! A famosa capa em 3D que ninguém nunca viu (ou entendeu)! Um dia, eu e Jacaré, cientista maluco, primo de Biba nas horas vagas e responsável pelas artes gráficas da banda, estávamos fuçando num livro de fotografia de meu pai e nos deparamos com uma técnica antiga para criar a ilusão de 3D, a qual constituía-se em juntar duas fotos iguais, uma levemente mais torta para a direita e a outra centralizada. Bastava que a pessoa ficasse vêsga e juntasse uma imagem por cima da outra e, voila, 3D caseira right up to your face n’ THIS! Óbvio que ninguém, além dos dois Professores Pardal, nunca conseguiu ver a tal capa em 3D e esta entrou para a história como mais uma piada de mau gosto da banda mais rufiona da História!

O desfecho disso tudo também é pra lá de conhecido, se você frequentou as aulas dos professores Velho Birck e Frank Jorge na Faculdade Do Rock: obviamente o disco não vendeu bulhufas, poucas rádios o tocaram, quando muito e nossa fama de malditos começou a dar seus primeiro passos para a solidificação.

Em poucas palavras, foi divertido pra caralho!